Haroldo Lima: Renzo Rossi, apóstolo das prisões políticas


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Chega de Florença, a terra da Renascença, a notícia que consterna: padre Renzo morreu. As redes sociais se enchem de mensagens comovidas. Ex-presos políticos do Brasil dão-se conta de que ficaram órfãos. Os movimentos organizados proclamam profundo pesar. Paróquias periféricas de Salvador ficam de luto. Autoridades manifestam-se solidárias com o povo desolado. Uma filha tenta me comunicar o fato por telefone, e cai em pranto. A tristeza é geral.

Por Haroldo Lima*

O padre Renzo Rossi folheia o livro que relata sua trajetória, de autoria do escritor Emiliano José (Foto: Murilo Gitel/EcoD)
Mas, por que a morte de um italiano, lá na Europa, provoca tanta lástima, aqui no Brasil? É que o padre Renzo foi um ser diferente.

Padre Renzo Rossi desembarca em Salvador em 1965, juntamente com o padre Paulo, e vão logo morar na periferia da cidade, no Alto do Perú. Compra uma bicicleta para penetrar nas ruelas do bairro pobre.

Há pouco tinha havido o golpe militar de 1964 no Brasil. Oriundos da Juventude Universitária Católica, havíamos fundado a antiga Ação Popular. Perseguidos pela ditadura, fazer reunião, para nós, com um mínimo de segurança, era extremamente difícil. Jorge Leal, um dos nossos mais consistentes e mais ternos companheiros, talvez tenha sido o primeiro, dentre todos desse veio político, que travou conhecimento com o padre Renzo. Logo, me levou a ele, que se dispôs a nos ajudar naquilo que era crucial, um lugar seguro para reunião. Passamos a nos reunir no fundo da casa onde morava o padre Renzo. Surge daí uma amizade que varou 48 anos.

O regime militar foi endurecendo. O Renzo aprofundava sua ligação com o sofrido povo das paróquias por onde passou e, paralelamente, começou a manifestar sua solidariedade para com os perseguidos políticos que eram presos. Isto aconteceu, em primeiro lugar, nos limites de Salvador.

Com o crescimento das prisões políticas e a emergência da tortura como forma sistemática de tratamento de preso político, o Renzo começa a ampliar sua área de atuação e a visitar presídios políticos de outros estados. Nessa linha, dá uma guinada em sua vida. No cristianismo primitivo houve homens desassombrados que passavam a pregar a verdade em que acreditavam com espírito de missão, enfrentando o que viesse, para levar à frente o seu apostolado. Pois o padre Renzo foi o apóstolo das prisões políticas brasileiras.

A missão, para ser completa, implicava em uma atividade diversificada, toda ela difícil, arriscada, pois que se passava nas “barbas” da ditadura. Renzo visitava os presos de quase todos os presídios políticos do Brasil. Conversava com eles, ganhava-lhes a confiança, perguntava sobre seus problemas, queria saber como ajudar. Depois, ia às famílias dos presos, procurando saber, da mesma forma, como poderia ajudar. O problema dele era ajudar. E para quem está sufocado pela ausência de tudo, a ajuda, desprendida, na hora certa, é absolutamente fundamental, como, por exemplo, a que viabiliza viagens de avião que permitem ver e tocar entes queridos e distantes.

Mas o apostolado do Renzo ia além. Quando queríamos articular com os demais presídios uma greve de fome, a ser desencadeada em um dia determinado, como fazer esses acertos dramáticos? Através do padre Renzo. Este, sendo padre católico, nunca discriminava quem não o era.

Havia problemas outros. A própria visita a um presídio não era simples. Tinha que passar pela humilhação da “revista”. Além do mais, Renzo não era familiar. Os militares queriam saber o que ele ia fazer lá dentro. “Assistência espiritual”, respondia o Renzo com comovente destemor. E houve caso em que a própria Igreja de um estado, a do Rio de Janeiro, não quis que o Renzo continuasse a fazer seu apostolado por lá. Parece que foi por causa disso, que D. Avelar Brandão, Cardeal da Bahia, deu ao Renzo uma carta autorizando-o a dirigir-se aos presos políticos de qualquer presídio brasileiro em nome da Arquidiocese da Bahia, Primaz do Brasil. Lembro do Renzo orgulhoso mostrando-me essa carta.

Tinha acabado de chegar ao presídio do Hipódromo, em São Paulo. O Renzo apareceu. Fui transferido ao presído do Barro Branco, também em São Paulo. O Renzo lá esteve, diversas vezes. Vim para o presído Lemos de Brito, em Salvador. Lá estava o Renzo. Depois da Anistia, fui preso de novo, por causa do Quebra-quebra de 1981. O Renzo estava em minha casa na hora da prisão.
Na Lemos de Brito, em Salvador, em agosto de 1979, aproximava-se a Anistia. Um preso, Theodomiro Romeiro dos Santos, o Theo, não seria anistiado. Planejou sua fuga. Dentro da cadeia, apoiou-se em mim. Fora da cadeia, em pouquíssimas pessoas, o Renzo entre essas. Deu tudo certo.

Com a morte do padre Renzo, vai-se um internacionalista, grande cidadão italiano, grande amigo do povo brasileiro.

*Haroldo Lima – ex-preso político, anistiado, foi deputado federal pela Bahia e presidente da ANP (Agência Nacional do Petróleo) – no Governo Lula.

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