O impacto turístico dos megaeventos no Brasil


Por Flávio Dino* e Leandro Garcia**

A Embratur prevê que os megaeventos serão peça fundamental para que o país alcance marcas inéditas no turismo internacional, como a entrada de 7 milhões de turistas estrangeiros no Brasil já no ano de 2014 e a importante marca de 10 milhões de turistas em 2020
Projeto Goal to Brasil, da Embratur, leva informações sobre o país para jornalistas e agentes de turismo estrangeiros.
Embratur

 

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A realização de diversos grandes eventos mundiais em sequência no Brasil trará inúmeros benefícios tangíveis e intangíveis para a economia, o turismo e para a sociedade brasileira. Estes benefícios passam principalmente pelo ganho de imagem gerado pela enorme exposição do país no exterior, mas também pela receita direta advinda dos gastos dos turistas, brasileiros e estrangeiros, que movimentarão a economia do país durante os eventos, além de todo o impacto na cadeia produtiva nacional decorrente de tais gastos, promovendo desenvolvimento econômico e social nas diversas regiões do Brasil.

O sucesso econômico dos grandes eventos no país fica evidenciado através dos resultados de pesquisas feitas pela Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) durante os eventos, que serão expostos neste artigo, juntamente com um breve relato do histórico dos megaeventos sediados pelo país.

1. Copa das Confederações

Em 15 de junho de 2013 iniciou-se a Copa das Confederações no Brasil, torneio que serviu como preparação para a realização da Copa do Mundo no ano seguinte. A Copa das Confederações é um evento organizado a cada quatro anos pela Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa™), que também é responsável pela Copa do Mundo de Futebol. Contando atualmente com a participação de oito seleções, sendo uma de cada região do mundo, mais a campeã mundial e a do país-sede, a Copa das Confederações tornou-se um sucesso de audiência e de público desde o seu início, transformando-se em um dos campeonatos mais importantes do calendário das seleções nacionais de futebol. Esse sucesso se traduziu em grande exposição midiática mundial e em grandes públicos nos estádios.

Foi com este histórico que a Copa das Confederações desembarcou no Brasil neste ano. E a participação da torcida brasileira na competição foi equivalente à paixão pelo futebol existente no país. Foram estabelecidas grandiosas marcas de público na competição, tanto nos estádios quanto em audiência televisiva. Apenas nos dezesseis jogos do torneio, 804.659 torcedores compareceram às arenas, consolidando a marca de 50.291 torcedores por jogo, segunda melhor marca da história do evento, atrás apenas da Copa das Confederações realizada no México em 1999, que teve média de 60.625 torcedores.

Dentre os mais de 800 mil torcedores que assistiram aos jogos, cerca de 20 mil eram turistas estrangeiros, que vieram ao Brasil para apoiar suas seleções. Outros quase 250 mil eram brasileiros de outros estados e/ou regiões que se movimentaram dentro do país para acompanhar o torneio. Toda essa movimentação dentro do país proporcionou um maior dinamismo econômico às cidades envolvidas pelo incremento no consumo de produtos e serviços incluídos na cadeia do turismo, como passagens aéreas, reservas em hotéis ou outras acomodações, gastos em restaurantes, bares, shoppings centers, táxis, transporte público, entre outros.

De acordo com a Fifa, o sucesso turístico e midiá­tico alcançado pela Copa das Confederações de 2013 no Brasil, com a exposição de diversas regiões do país em audiências recordes do torneio, configurou-se principalmente como um benefício intangível para o país: são impactos duradouros que irão perdurar positivamente no longo prazo, porém não podem ser quantificados em termos de valores monetários.

Para que fosse possível calcular os impactos econômicos tangíveis dos megaeventos no Brasil, a partir da Copa das Confederações de 2013, a Embratur realizou pesquisas no setor, com o objetivo principal de quantificar a efetiva movimentação econômica e seu consequente impacto no desenvolvimento econômico e social do Brasil gerado pelos turistas, brasileiros e estrangeiros, que se deslocaram entre as cidades, hospedaram-se nas diferentes sedes, e consumiram diversos produtos e serviços em todo o país.

Desta forma, a primeira pesquisa a respeito da movimentação econômica dos megaeventos mostrou que os impactos positivos do evento superaram todas as expectativas e trouxeram um grande dinamismo à economia brasileira.

Os resultados desse estudo mostram que, somente nos 16 dias do evento, houve um impacto econômico total de R$ 855.593.147,01 da Copa das Confederações ao país, originado dos gastos diretos dos turistas nacionais e estrangeiros e das delegações da Fifa™, que somaram em sua totalidade R$ 452.694.786,78. E houve efeitos indiretos destes gastos nas cidades brasileiras, através da movimentação de toda a cadeia produtiva do turismo, que totalizou um impacto adicional de R$ 402.898.360,23 ao país, conforme demonstrado na Tabela 1 (pág. 102).

O cálculo foi efetuado com base nos dados relativos ao gasto médio per capita, divulgados pela pesquisa Características do Público Geral e da Demanda Turística Internacional, feita durante a Copa das Confederações pelo Ministério do Turismo e pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), com turistas nacionais e estrangeiros, enquanto os efeitos indiretos foram estimados a partir do impacto médio calculado em eventos anteriores. O número de turistas brasileiros e estrangeiros em cada jogo foi avaliado a partir dos números disponibilizados pela Fifa™ sobre vendas de ingressos por localidade do torcedor.

Todos esses números comprovam que a Copa das Confederações foi um evento de grandes proporções, que proporcionou diversos benefícios econômicos e sociais ao Brasil, ajudando o país a consolidar um caminho de desenvolvimento socioeconômico sustentável, demonstrando a capacidade do turismo em diminuir as desigualdades sociais e regionais.

2. Jornada Mundial da Juventude

No ano de 1985, o Papa João Paulo II instituiu a Jornada Mundial da Juventude, um evento da igreja católica que, a partir de então, passou a reunir milhões de pessoas no mundo todo. O evento é um chamamento para que os jovens celebrem a fé católica, para que conheçam melhor a sua doutrina e para que construam pontes de amizade e esperança entre continentes, povos e culturas, além de compartilhar entre si a vivência da espiritualidade.
A JMJ, como é conhecida, é celebrada a cada dois ou três anos na data especial do Domingo de Ramos, e tem duração de cerca de uma semana, em que se promovem eventos da igreja católica como catequeses, adorações, missas, momentos de oração, palestras, partilhas e shows, em diferentes idiomas.

E, em 2011, a cidade do Rio de Janeiro confirmou a sua vocação para sediar grandes eventos e foi a escolhida para acolher a décima terceira edição da Jornada Mundial da Juventude no ano de 2013, ocorrendo pela segunda vez em território latino-americano. E as circunstâncias do evento fizeram com que esta edição da Jornada no Rio de Janeiro fosse ainda mais especial: ela ficou marcada como a primeira viagem internacional do Papa Francisco I, o primeiro pontífice latino-americano da história da igreja católica, o que proporcionou uma atenção ainda maior por parte da mídia internacional para o evento e para o Rio de Janeiro, além de um aumento no interesse dos turistas sul-americanos, sobretudo dos argentinos, conterrâneos do Papa, em comparecerem ao evento.

Com esses atributos, a JMJ/2013 levou uma multidão de peregrinos à cidade do Rio de Janeiro entre os dias 23 e 28 de julho. A missa final do evento alcançou um público estimado de 3,7 milhões de pessoas na orla de Copacabana. Foram 427 mil fiéis inscritos no evento, dos quais cerca de 150 mil eram estrangeiros. Porém, outros milhões também compareceram ao evento pela chance única de verem o Papa e participarem das celebrações, mesmo que não tenham se inscrito oficialmente na Jornada.

De acordo com a organização do evento, os países do exterior com o maior número de inscritos foram, respectivamente, Argentina, Estados Unidos, Chile, Itália e Venezuela. Estes dados são corroborados pelos números preliminares de entrada de turistas internacionais no Brasil, disponíveis até o momento: segundo dados da Polícia Federal, apenas pela via aérea mais de 100 mil estrangeiros entraram no país pelo Aeroporto do Galeão em julho, um incremento de 30,4% em relação ao mesmo mês de 2012. Um aumento de 27,3% no número de turistas também foi verificado em Guarulhos, com a chegada de 189 mil estrangeiros na cidade no mês de julho.

Os grandiosos números do evento não param por aí: 60 mil voluntários, 644 bispos, 7.814 sacerdotes, 632 diáconos também se inscreveram ao evento. A grande exposição de mídia da cidade do Rio de Janeiro, que contribui para um legado turístico duradouro do evento, fica evidenciada pelo grande número de jornalistas credenciados na Jornada, que totalizaram 6,4 mil, vindos de 57 países diferentes.

Os benefícios econômicos e sociais proporcionados pelo megaevento da Jornada Mundial da Juventude à população do Rio de Janeiro e do Brasil certamente ficaram entre os principais legados positivos do evento para o país. Considerando também a Semana Missionária, realizada com jovens brasileiros e estrangeiros em diversas cidades do Brasil na semana anterior à JMJ propriamente dita, o impacto econômico total dessa Jornada, estimado pela Embratur, foi em R$ 1.741.100.685,00, concentrado no Rio de Janeiro, mas também sentido em todo o país.

Destes mais de 1,7 bilhão de reais, R$ 921 milhões são relativos aos gastos diretos dos turistas e dos residentes no Rio de Janeiro que compareceram ao evento, e outros R$ 820 milhões se referem aos efeitos indiretos destes gastos na economia do país. O estudo levou em consideração o perfil típico do participante da Jornada, seu gasto médio, o período médio de estadia, o preço pago pelos pacotes, entre outros, tomando como base também uma pesquisa realizada pela PricewaterhouseCoopers (PwC) na última Jornada, realizada em Madri em 2011, e cruzando estas informações com o número de participantes por perfil. A Tabela 2 abaixo demonstra o valor que cada perfil de turista gastou.

O impacto econômico bilionário da Jornada Mundial da Juventude no Brasil mostrou que, além da renovação da fé católica e do sonho por um mundo melhor e mais justo, o evento também atingiu outro objetivo: o de contribuir no processo de transformação do Brasil. Seus efeitos puderam ser sentidos com grande intensidade na capital fluminense, com uma multidão de fiéis convivendo em harmonia, paz e união – os quais, na luta por uma sociedade mais justa, contribuíram também para o desenvolvimento social e econômico do Rio de Janeiro e do Brasil.

A JMJ/2013 foi um marco na história do Rio de Janeiro: comprovou sua capacidade em sediar com sucesso grandes eventos, consolidou sua imagem como principal destino turístico brasileiro e também como um dos mais importantes destinos mundiais, e mostrou ao mundo o lado humano, caridoso e hospitaleiro do povo carioca e brasileiro –algumas das características mais marcantes mencionadas pelos turistas estrangeiros que nos visitam.

3. Olhar para o futuro: Copa do Mundo e Olimpíadas

Nos próximos três anos o Brasil ainda terá grandes desafios a enfrentar. Ao sediar os dois maiores eventos esportivos do planeta, a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016, o país passará por sua maior prova em relação à sua capacidade de organização e de coordenação em praticamente todos os setores de sua infraestrutura: turismo, transportes, telecomunicações, segurança, hotelaria, sinalização, entre outros, que estarão sob escrutínio mundial.

Milhares de turistas, dentre brasileiros e estrangeiros, passarão pelas doze cidades-sede da Copa do Mundo no ano que vem, e pelo Rio de Janeiro durante as Olimpíadas, os quais irão demandar serviços e infraestrutura de qualidade. A Embratur tem total convicção de que o Brasil sediará com sucesso ambos os eventos, e de que os 600 mil turistas estrangeiros e os mais de 3 milhões de brasileiros que deverão comparecer à Copa do Mundo, além dos outros 380 mil turistas internacionais que virão às Olimpíadas no Brasil em 2016, sairão com uma imagem altamente positiva do Brasil; e os altos índices de satisfação e de desejo de retorno ao país, assim como os registrados na Copa das Confederações e na Jornada Mundial da Juventude, irão se repetir nos próximos megaeventos.

Além do recorrente sucesso do Brasil entre os turistas estrangeiros que visitam o país durante os grandes eventos, o legado econômico dos megaeventos também será incomparável. Estimativa inicial da Embratur a respeito do efeito da Copa do Mundo na economia brasileira calculou em mais de R$ 25 bilhões os gastos diretos dos turistas brasileiros e estrangeiros no evento. Foram estimados em R$ 18,3 bilhões os gastos dos brasileiros e em R$ 6,8 bilhões os recursos advindos dos estrangeiros. Esta é apenas uma pequena amostra da magnitude que alcançará o grande evento futebolístico, visto que ainda não foram calculados os impactos indiretos na economia brasileira.

A Embratur prevê que os megaeventos serão peça fundamental para que o país alcance marcas inéditas no turismo internacional, como a entrada de 7 milhões de turistas estrangeiros no Brasil já no ano de 2014 e a importante marca de 10 milhões de turistas em 2020. Estas ambiciosas metas da Embratur estão sintetizadas no Gráfico 1 abaixo, que ilustra o número de turistas estrangeiros projetados para os próximos anos. Além de gerar empregos e renda para os brasileiros, este crescimento possibilitará que o Brasil alcance o posto de terceira maior economia turística do mundo até o final da década.

* Flávio Dino é presidente da Embratur e professor de Direito na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Foi deputado federal de 2007 a 2010. No Judiciário, foi juiz federal por 12 anos, exercendo os cargos de secretário-geral do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e assessor da presidência do Supremo Tribunal Federal (STF)

** Leandro Garcia é assessor da presidência do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur). Formado em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo (USP) e economista de carreira do órgão, ingressou na Embratur em 2012

Publicado originalmente na revista Princípios, edição 127 (outubro-novembro/2013).

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