Os senhores das finanças procuram fragilizar o Brasil


Dilermando Toni

Na semana passada o Federal Reserve (FED), o banco central dos Estados Unidos, divulgou o seu Relatório de Política Monetária. Nele há um box intitulado “Nervosismo financeiro e vulnerabilidades nas economias de mercado emergentes”, onde se procura medir a capacidade que alguns países em desenvolvimento teriam para enfrentar os efeitos das mudanças na política monetária dos EUA. De 15 países analisados o Brasil é classificado como um dos mais vulneráveis a choques externos, melhor apenas que a Turquia.

O Relatório reaviva a ideia da fragilidade de um grupo de 5 países – Brasil, Índia, Indonésia, Turquia e África do Sul – elaborada por uma agência de classificação de risco no final do ano passado. Ao inserir neste grupo 3 dos membros dos BRICs procura desconstruir todo o avanço conquistado no âmbito desta articulação de países em desenvolvimento, inclusive à possibilidade de uma resistência conjunta destes países.

O relatório estabelece 6 critérios que dariam base para construir o tal Vulnerability Index, a saber: 1) a relação entre o balanço em conta corrente e o PIB, 2) a relação entre a dívida pública bruta e o PIB, 3) inflação média anual nos últimos 3 anos, 4) as mudanças nos últimos 5 anos no crédito bancário do setor privado com porcentagem do PIB, 5) a relação anualizada da dívida externa total com as exportações e, por último, 6) a relação das reservas internacionais com o PIB.

Não se sabe como é feita a manipulação de tais dados, porém o Relatório destaca entre os critérios adotados a importância da desvalorização cambial para a vulnerabilidade. O fato do Real brasileiro ter se desvalorizado em cerca de 15% em relação do dólar dos EUA de janeiro de 2012 a fevereiro de 2013, ao lado de outros indicadores teria levado o FED à colocar o Brasil em um Índice de Vulnerabilidade grau 12, aproximadamente. A julgar por esta nota o Brasil estaria à beira de um colapso, algo semelhante às crises cambiais que atingiram o Brasil durante o período de Fernando Henrique Cardoso.

Mas, por acaso o Relatório considera que o Real estava e ainda está altamente valorizado em relação ao dólar? E que a atual desvalorização do Real, ao contrário, poderá mesmo ajudar a economia brasileira? Por este critério a China deveria ser altamente vulnerável, pois mantem sua moeda em patamar competitivo em relação ao dólar, o que o mainstream econômico dos EUA chama de manipulação da moeda pelos chineses.

A obviedade de que hoje o Brasil e outros países tem melhores condições de enfrentar os choques externos – que no passado recente é tratada genericamente –  não consegue encobrir o caráter extremamente pessimista do Relatório. Na realidade são muito suspeitas tais avaliações catastrofistas em vésperas de eleições. Elas sempre aparecem gerando incertezas para dar sustentação às candidaturas de oposição ao engrossar o coro de que o modelo atual esgotou-se, que o “desenvolvimentismo fracassou”. Ou, para pressionar os governos progressistas a recuar, no sentido de adotarem políticas neoliberais, câmbio ainda mais flexível, juros ainda mais altos e austeridade fiscal. “E os investidores globais estarão observando atentamente seus progressos” advertem as palavras finais do Relatório.

Na realidade o Brasil tem problemas, mas não está em crise nem à beira do abismo. Nada que não possa ser corrigido. Ao invés de recuar as forças progressistas precisam se unir para dar sustentação a um projeto que tenha como objetivos elevar os investimentos, desenvolver a infraestrutura logística e energética, retomar a industrialização e resolver os urgentes problemas das cidades brasileiras. Para tanto é preciso adotar claramente uma macroeconomia do desenvolvimento. Estreitar mais ainda os laços com os BRICs. É o que se tem tentado com Lula e agora com Dilma. O Brasil estaria em situação mais favorável se não fossem tantas as pressões dos senhores das finanças.

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