Thiago de Mello, uma voz em tempos de mordaça

em

Por Cezar Xavier
Aos 88 anos, o poeta Thiago de Mello, escreve em defesa de sua casa, a Amazônia. Mas também já foi uma luz no escuro dos anos de chumbo da ditadura militar, quando foi preso e exilou-se por escrever sobre a liberdade. Sua participação no Ato em homenagem à Resistência e luta pela Democracia, que ocorre no Tuca, na quarta-feira (2), será a oportunidade para ouvir sua voz e sua escrita cristalina.

 

Programa Sempre Um Papo com Thiago de Mello – 2008

“Pode ter perdido o voto,

que era sua arma e poder.

Mas não perdeu seu dever

nem seu direito de povo,

que é o de ter sempre sua arma,

sempre ao alcance da mão.”

Rio, 6 de fevereiro, 1966, in A Canção do Amor Armado, 1966

“A candente autenticidade de seus versos decorre, além do mais, da firme coerência que existe entre a obra e o modo de ser do poeta. Não se fechando em gabinetes, ele se põe por inteiro nessa luta em busca da justiça e da dignidade, e tem pago duro preço por isso, inclusive detenções arbitrárias e o amargor do exílio.”

 

(ÊNIO SILVEIRA)

Thiago de Mello nasceu em 1926.

Artista identificado com a cultura do Amazonas, morou em vários países — Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha — mas, terminada a ditadura no Brasil, optou por voltar à pequena Barreirinhas, cidade amazônica de sua infância, onde vive até hoje.

Preso e torturado pelo regime militar, exilou-se no Chile. Lá conheceu Pablo Neruda, de quem se tornaria amigo e tradutor. A época de repressão generalizada pela América do Sul acentuou-lhe a revolta poética e seu já apurado senso de justiça. Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, o livro, rendeu-lhe, em 1975, o Prêmio de Poesia concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e apresentou-lhe internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Aos 88 anos, Thiago de Mello é reconhecido, sobretudo nos países latino-americanos, como um dos maiores nomes vivos da poesia de caráter social. Sua obra está repleta de livros engajados, cujos poemas tomam declaradamente o partido dos pobres e dos oprimidos do mundo: Faz Escuro Mas Eu Canto (1968),Os Estatutos do Homem (1973) e Canto do Amor Armado (1975) – só para citar os três trabalhos mais populares e traduzidos de sua bibliografia. Campo de Milagres (1998) trouxe com força a preocupação ecológica em sua poética.

Zemaria Pinto escreve sobre a viragem na poesia de Thiago, com o golpe ditatorial, “a partir de Faz Escuro Mas Eu Canto, de 66, o poeta promove uma guinada radical em seu trabalho, fica mais didático, popular, assumindo uma clara postura política de combate à ditadura. Influência de Neruda, das viagens pela América Latina, ou simplesmente amadurecimento? O poeta acrescenta a seus temas principais um novo: a vida, reescrevendo aquela profissão de fé assumida 15 anos antes: “pois aqui está a minha vida, pronta para ser usada”.

Zemaria continua: “Na apresentação de A Canção do Amor Armado, também de 66, Dr. Alceu pondera que “essa conversão ao social não o afastou de si mesmo. Os versos de Thiago de Mello constituem, sem a menor dúvida, a expressão mais transparente e bela, significativa e profunda, não só de um poeta autêntico, mas de um momento crucial da alma brasileira em sua fase decisiva da evolução de sua cultura.” Uma breve análise do poema Madrugada Camponesa, um dos mais conhecidos do autor, poderia ilustrar as palavras do velho mestre. Composto em redondilhas, usando rimas com palavras da mesma classe (plantar/chegar, milharal/seringal, chão/pendão, trabalhar/chegar) e imagens relativamente desgastadas (manhã por liberdade, por exemplo), qualquer aluno de teoria literária percebe que o poema não representa nenhum desafio à sua ensebada mala de (pre)conceitos. Sucede que o poeta quer atingir um outro público, quem sabe aquele mesmo metaforizado em seu poema. Somente ele entenderá, e se emocionará, com imagens como “alegria (…) / feita de canto e de pão”, “chuva azul no milharal” , “colho um sol que arde no chão”, para concluir: “faz escuro mas eu canto / porque a manhã vai chegar”. Na apresentação a Faz Escuro Mas Eu Canto, aliás, Carpeaux lembra que Freud compara o sonho a uma voz de criança que canta no escuro porque sente medo. O “canto no escuro”, de Thiago de Mello, ao contrário, busca inspirar a coragem. E era com alegria juvenil que recitávamos seus poemas nas assembléias e passeatas dos anos 70. Maus tempos, aqueles, tempos de escuridão”.

No exílio, foi ao encontro do amigo Pablo Neruda, com quem trabalhou, traduzindo-o e sendo traduzido por ele. O amigo Thiago mereceu um poema afetivo (e intraduzível) do poeta chileno:

Thiago y Santiago

Thiago, A Santiago, como un vago mago,

has encantado en canto y poesía.

Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,

un volantin de tu pajarería.

Al Este y al Oeste de Santiago

diste el Norte y el sur de tu alegría.

Muchos dones nos diste, un solo estrago:

llevaste el corazón de Anamaría.

Te perdonamos porque com tu bella,

de rosa en rosa y de estrella en estrella,

te llamará el Brasil a su desfile.

Te irás, hermano, com la que elegistes.

Tendrás razón, pero estaremos tristes,

que hará Santiago sin Thiago de Chile.

 

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