Democracia comprometida sem reformas democráticas


O Tuca (Teatro da Universidade Católica) de São Paulo foi palco, na noite desta quarta-feira (2), de um grande ato em homenagem aos milhares de militantes que durante os 21 anos de ditadura militar resistiram e lutaram por liberdade e justiça. A atividade contou ainda com a inauguração do monumento Nunca Mais, em homenagem aos mortos e desaparecidos no período de 1964 a 1985 pelo regime imposto.

Por Mariana Serafini, do Vermelho

O presidente do PCdoB, Renato Rabelo, falou sobre a importância dos comunistas para a queda da ditadura militar e exaltou a coragem dos militantes que partiram para a luta armada camponesa no Araguaia. “O golpe de 1964 que depôs o presidente João Goulart foi patrocinado pelas classes dominantes da época com intervenção direta do governo dos Estados Unidos, hoje isso é fartamente documentado (…). A década de 1960, como nos sabemos, foi marcada por ditaduras militares em diversos países da América Latina, todas financiadas pelos Estados Unidos, que tinham como objetivo a contenção e o extermínio do comunismo”, afirmou.


Renato Rabelo defende as reformas democráticas e a democratização da mídia.

Ele ressaltou a luta pela democracia iniciada em 1985 com o final da ditadura e fortalecida com as eleições de Lula em 2002 e Dilma Rousseff em 2010. Mas deixou claro que o processo democrático não será completo se não forem realizadas as reformas democráticas. “Ademais, na atualidade, o avanço democrático estará comprometido se não formos capazes de realizar duas reformas prioritárias: a reforma política democrática e a reforma pela democratização da mídia.”

De acordo com Renato, o golpe foi desferido para aniquilar a ascensão das lutas sociais que na época ganhavam corpo, principalmente através das reformas de base, anunciadas pelo presidente João Goulart. A ditadura sufocou, por mais de 20 anos, a luta por direitos trabalhistas através dos sindicatos e a reforma agrária, na época defendida pelo presidente Jango, que até hoje não pôde ser concretizada.

Renato ressaltou a importância da luta dos movimentos sociais durante a ditadura, mas principalmente dos comunistas. “O PCdoB ao preço da vida de quase uma centena de comunistas participou de toda a jornada e empenhou-se inteiramente em diferentes formas de luta contra a ditadura militar. O PCdoB compreendia que a ditadura tinha vindo para ficar, era preciso então seguir um caminho da mais larga possível aliança entre o povo com bandeiras amplas e unificadoras. Por isso nós podemos dizer que a síntese do PCdoB em todo o período da ditadura era unir os brasileiros para derrocar a ditadura. Ou seja, unir a grande maioria da nação para isolar os militares.”

Segundo Renato, a avaliação feita pelo PCdoB junto com outros militantes da esquerda, diante de um regime cada vez mais truculento sanguinário, levou o que ele chama de “a oposição” a partir para a luta armada. Os comunistas já viviam no sul do Pará, na região do Araguaia há anos, e se integraram com os camponeses assumindo um compromisso com os direitos do povo do interior. Desta forma, se preparavam para a luta armada.

A Guerrilha do Araguaia resistiu por mais de dois anos à grande repressão. De acordo com Renato, hoje os militares afirmam que foi a maior mobilização militar brasileira desde a 2ª Guerra Mundial. “Mesmo derrotada militarmente, a Guerrilha do Araguaia cumpriu um papel importante e contribuiu para o declínio da ditadura.”

Destacou ainda a importância das greves operárias do ABC Paulista lideradas pelo ex-presidente Lula e a reorganização da UNE. “Tudo isso contribuiu para minar a ditadura militar.”

 
Monumento ao Nunca MaisEstudantes da PUC homenagearam militantes mortos na ditadura militar em frente ao monumento Nunca Mais.

Além de homenagear a resistência, o ato – que contou com mais de 600 pessoas num Tuca completamente lotado – exigiu a abertura dos arquivos da ditadura militar, a identificação e punição dos torturadores, o esclarecimento da morte dos desaparecidos políticos e a revisão da Lei de Anistia, que atualmente protege os criminosos deste período. Direito à memória, liberdade e justiça foi a pauta que unificou os movimentos sociais, partidos políticos, artistas, intelectuais e ativistas dos direitos humanos presentes.

Apresentado pelo ator e militante político Sérgio Mamberti, o ato começou homenageando os alunos e professores da PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) que no período da ditadura militar resistiram e lutaram por liberdade. Extremamente simbólico o lugar escolhido, o Tuca foi um dos alvos da repressão em 1977, quando foi destruído pelos militares na presença de centenas de estudantes.

Representante do MST, João Paulo Rodrigues; presidente da CTB, Adilson Araújo; diretor da CUT, Expedito Solanei; presidente do PCdoB, Renato Rabelo; presidenta da UNE, Virginia Barros; poeta Thiago de Mello; representante do PDT e João Alexandre Goulart (neto de Jango).

O histórico discurso do presidente João Goulart na Central do Brasil em 13 de março de 1964, onde ele anunciou as reformas de base, foi transmitido no teatro e emocionou o público. O presidente foi homenageado através do neto João Alexandre Goulart. “Pertenço a uma geração que pouco estudou Jango e foi negligenciada pelos livros de história que nunca falaram sobre a intervenção dos Estados Unidos no golpe de 1964. João Goulart era, antes de tudo, um pacificador. Ele jamais teria resistido a um golpe que lavaria o país com um banho de sangue de inocentes. João Goulart evitou uma guerra civil.”

O cantor Sérgio Ricardo foi a figura escolhida para homenagear todos os artistas que resistiram à ditadura militar e usaram a música, o teatro, a poesia e outras formas de expressão artística para denunciar os crimes e a repressão.

A apresentação do coral Martin Luther King provocou o público a se levantar e cantar com o punho esquerdo cerrado a Internacional. Além desta, o grupo cantou outras três canções que retratam a resistência dos povos do mundo: Viola enluaradaBella Ciao e O bêbado e o equilibrista. Mais tarde, em parceria com Sérgio Ricardo, os tenores improvisaram a música Calabouço, em homenagem ao estudante Edson Luiz.


O ator Sérgio Mamberti canta a Internacional junto com o coral Martin Luther King

Maria Rita Kehl, representando a Comissão Nacional da Verdade, falou sobre o genocídio de camponeses e indígenas durante a ditadura militar e a dificuldade de se esclarecer estes crimes que na época sequer chegaram ao conhecimento dos militantes urbanos. “O que aconteceu foi um genocídio, a ditadura disfarçada de modernidade levou a morte aos indígenas e camponeses, e isso era uma política de Estado. É importante lembrar que isso acontece até hoje, não mais como política de Estado, obviamente, mas a exploração de terras no Mato Grosso, por exemplo, é feita através da morte de camponeses e indígenas por parte de milícias compostas em parte por policiais militares a serviço dos grandes produtores”, denunciou.

Mesclando arte e política, o poeta Thiago de Mello homenageou os artistas latino-americanos que resistiram às ditaduras em todo o continente e contou sua relação com outros poetas, entre eles, Pablo Neruda.

Usando uma camiseta com o rosto do ex-presidente da UNE, Honestino Guimarães, desaparecido político desde 1976, a atual presidenta da entidade, Vic Barros, lembrou a importância e a luta de centenas de estudantes que deram a vida por um país livre e justo. “Estamos aqui para homenagear a luta contra a tortura e temos orgulho de anunciar que estamos reconstruindo a Casa do Poder Jovem [refere-se à sede da UNE na Praia do Flamengo no Rio de Janeiro, destruída em 1964 pelos militares]”.


Os militantes mortos durante a ditadura foram homenageados através de cartazes e palavras de ordem.

Vic destacou momentos importantes em que os estudantes foram protagonistas na luta pela liberdade, entre eles, a Batalha da Maria Antônia, o Congresso da UNE em Ibiúna, a morte do estudante Edson Luiz, a Guerrilha do Araguaia e a reorganização da UNE em 1979, disse ainda que estes marcos da história servem para nortear a luta atual dos estudantes. “Travamos a luta do nosso tempo, das reformas de base às reformas democráticas, lutamos pela abertura dos arquivos da ditadura, a revisão da Lei da Anistia e a punição dos torturadores.”

“Os estudantes de 1964 não lutavam apenas para derrubar a ditadura, eles foram além, lutavam para um Brasil que fosse diferente do Brasil de 1963, de 1964, lutavam por educação, por justiça social, cabe à nossa geração continuar essa história”, disse Vic.

A última homenagem do ato foi a Dom Paulo Evaristo Arns. Para encerrar, o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, representando a Comissão de Anistia, defendeu a revisão da lei que atualmente protege os torturadores pelos crimes cometidos durante a ditadura. “Somos nós quem estamos colocando a democracia na pauta central do dia a dia. A direita envergonhada não tem vocação para o campo democrático, somos nós, militantes, que estamos construindo o Brasil de hoje”, disse.

A atividade foi uma iniciativa de diversas entidades e organizações políticas, entre elas as fundações Maurício Grabois, Perseu Abramo e Getúlio Vargas; os partidos PCdoB e PT; as centrais sindicais CTB e CUT; as entidades juvenis UNE, UBES e UJS; a UBM, o MST, a Conam e a OAB. Integram também a organização da atividade a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva e a Comissão da Verdade da PUC-SP – Reitora Nadir Gouvêa Kfouri.

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