Por UJS
Teve início na noite da quarta-feira, 16 de abril, uma iniciativa ousada da União da Juventude Socialistas (UJS), em parceria com a Fundação Maurício Grabois e o Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ), na busca da história das lutas que construíram o Brasil. Tendo como ponto de partida a cidade de Palmas, capital do Tocantins, o objetivo é que um grupo de cerca de 40 jovens possa conhecer e percorrer trechos pelos quais passaram dois dos principais levantes brasileiros em defesa da democracia e da justiça social: a Coluna Prestes e a Guerrilha do Araguaia.

O Tocantins é um Estado relativamente novo e, por isso mesmo, promissor. Foi emancipado após a Constituição de 1988 e Palmas assumiu a sua função de capital somente em 1º de janeiro de 1990, ou seja, há pouco mais de 24 anos. Antes, a região pertenceu ao norte de Goiás.
Essa região é de extrema relevância estratégica por estar localizada no centro do país, fazer divisa com estados do norte e nordeste, ser banhada pelo rio Tocantins, o segundo maior do país, e ter em sua seiva a luta do povo brasileiro. Por aqui, passou no final de 1925 a maior marcha política-militar já registrada no mundo: a Coluna Prestes, um movimento de tenentes do exército que se revoltaram contra as injustiças sociais do governo do presidente Arthur Bernardes.
Em busca também da sua própria história e da verdade, a UJS organiza agora essa espécie de caravana para entender e não deixar cair no esquecimento esse importante levante que completa 90 anos e percorreu 25 mil quilômetros pelo interior do país com o objetivo de denunciar a situação de pobreza e exploração da população brasileira.
“Estamos lutando nas mesmas águas”
A primeira atividade do projeto ocupou na noite da quarta-feira um simbólico edifício de Palmas, chamado de Palacinho. O auditório foi ocupado por autoridades políticas, lideranças comunitárias e principalmente parte dos jovens que já estavam em Palmas. Um ônibus com um grupo que vai se incorporar à caravana partiu de São Paulo, passou por Minas Gerais e Brasília, mas ainda não havia chegado.
O senador pelo Partido Comunista do Brasil do Ceará, Inácio Arruda, o primeiro comunista eleito para este cargo depois de Luis Carlos Prestes (o comandante da Coluna), foi um dos convidados. Conhecedor e estudiosos da história das lutas populares do Brasil, Arruda desenhou em seu discurso uma linha do tempo desde antes da Coluna Prestes, passando pela Guerrilha do Araguaia e outras revoltas, até chegar à eleição do presidente Lula em 2002. Ele quis mostrar que todos naquela sala são frutos das lutas dos heróis do passado e, por isso, a importância de conhecer e contar a verdadeira história que durante muitos anos as elites do país tentaram deixar passar em branco.
“Aqui esteve a Coluna Prestes e aqui esteve a Guerrilha do Araguaia. Estamos lutando nas mesmas águas, desse mesmo rio, de um leito fabuloso da história do Brasil. A UJS e outras forças políticas com vontade de ver o Brasil avançar estão revisitando, aqui em Palmas, o encontro dessas duas batalhas e revivendo as lutas populares que construíram o Brasil. O sumo dessa caravana é uma juventude socialista preparada para conduzir as principais batalhas do país e projetar, no presente, o futuro que buscamos”, pontuou Arruda.
O presidente da UJS, André Tokarski, fez questão de ressaltar que cada um ali naquela sala era herdeiro dos jovens que dedicaram suas vidas nas lutas da Coluna, do Araguaia e tantas outras. “A maior homenagem que podemos fazer é continuar o movimento para aprofundar a democracia e o desenvolvimento do país. É muito emocionante retomar esses caminhos e conhecer a nossa história refazendo os passos dos nossos heróis. Retomar essas trilhas significa contar a história que a ditadura tentou apagar. Isso deve ser fonte de inspiração para centenas de jovens, que podem agora entender o Brasil por um outro ponto de vista. O de quem sofreu e deu o sangue pela liberdade”, destacou.
Tokarski ressaltou ainda que a caravana é um ato político pela luta da revisão da Lei de Anistia de 1979. O objetivo dessa nova caminhada não é só questionar onde estão os restos mortais dos guerrilheiros comunistas, mas também cobrar uma punição severa a todos aqueles que cometeram atrocidades em nome do país.
Próxima parada
A caravana do projeto “Lutas que construíram o Brasil” continua nesta quinta-feira (17/4), durante todo o dia, em Palmas. A programação será no Palacinho e haverá duas mesas sobre a vida de Luis Carlos Prestes. No fim da tarde, os jovens visitarão o Memorial da Coluna Prestes, uma obra do arquiteto Oscar Niemeyer localizada na Praça dos Girassóis, a principal da cidade. À noite, a caravana segue para a Vila Santa Cruz dos Martírios, no Pará.
*** ***
Araguaianas – Notas de uma viagem
*** ***
1. Sobre Palmas – A pedra fundamental de Palmas foi lançada em maio de 1989, dando início à construção da última cidade planejada do século. A capital definitiva do Estado de Tocantins foi instalada no primeiro dia de janeiro de 1990 e os poderes construídos foram transferidos da capital provisória, Miracema, para o plano diretor da nova cidade. O próprio nome Palmas egressa do sentimento combativo desse povo. O verde bonito das palmeiras, espécie nativa da região, foi um dos fatores que influenciaram na escolha do nome. Em apenas 14 anos de existência, a última cidade planejada do século, conta com mais de 240 mil habitantes. Palmas desfruta de uma posição privilegiada, funcionando como um elo entre a região Norte e o restante do País. Sob as sombras de palmeiras e buritis, a cidade é localizada no coração do Brasil e é cercada pelas serras do Carmo, Lajeado e pela imensidão do rio Tocantins.
2. Palacinho – Charmoso complexo cultural que recebeu a juventude para a abertura oficial da caravana, foi a primeira edificação construída em Palmas, no ano de 1989. A proposta inicial era utilizá-lo apenas para abrigar autoridades durante visitas às obras de construção da cidade, mas, com a antecipação da transferência da Capital provisória de Miracema do Tocantins para Palmas, o Palacinho foi adaptado para sediar a administração do Governo Estadual até que as obras do Palácio do Araguaia estivessem concluídas.
A construção foi sede do Poder Executivo por um ano. Abrigou ainda a Casa Civil e a Casa Militar, as secretarias do Interior, da Comunicação e da Agricultura. Também serviu, por pouco tempo, de residência oficial do Governador. Foi tombado pelo Governo do Estado pela Lei nº 431 de 28 de julho de 1992 e transformado em museu em março de 2002.
3. Ônibus saiu de São Paulo – Um grupo de jovens saiu na terça-feira (15/4) de ônibus rumo a Palmas, no Tocantins, para participar da caravana. Pegaram pelo caminho outros jovens em Minas Gerais e Brasília. É a juventude em movimento para buscar a sua história e lembrar os verdadeiros heróis do passado.
4. Presenças – O lançamento do projeto “Lutas que construíram o Brasil” contou com representantes de partidos políticos, além de lideranças estudantis e comunitárias da região. Participaram Euzébio Jorge (CEMJ), Fernando Garcia (Fundação Maurício Grabois), Thiago Andrino (Ex-secretário municipal de governo), Donizete Nogueira (PT), José Roberto (deputado estadual PT-TO), Luciano Arruda (presidente PCdoB-TO), Manuela Braga (Ex-presidente da UBES), Paulo Fernandes (professor UFT), Carlinhos (UJS-TO), André Vitral (Secretário-executivo municipal de Educação).

Luiz Carlos Prestes faleceu em março de 1990, mas não plantou apenas uma semente, deixou raízes e troncos na história nacional, pétalas e espinhos na memória dos brasileiros e a possibilidade de reavaliar papéis dentro da própria sociedade. A trajetória de Prestes, por si só, já é exímia e típica de um grande herói: foi o idealizador da Coluna Prestes, comandante da Intentona Comunista, senador pelo Partido Comunista do Brasil, líder do PCB por mais de 50 anos e exilado político, até retornar ao Brasil com a Lei de Anistia, em 1979.
Mas, antes de assistirem ao filme que conta sua história, “O Velho – a história de Luiz Carlos Prestes”, do cineasta Toni Venturi, os jovens presentes deram início a uma espécie de competição. Ganharam, primeiramente, um envelope. Dentro, havia o nome de um guerrilheiro e a sua história. A partir de hoje, todos adotam esse codinome e se dividem em 4 destacamentos (A, B, C e D), que irão disputar entre si durante todo o percurso da caravana. Ao longo dos próximos dias, eles vão publicar textos, fotos e vídeos sobre os assuntos que estão sendo discutidos. Quem tiver mais curtidas, comentários e compartilhamentos levará um kit com vários livros. Qualquer um pode participar da competição interagindo com a página na internet: http://migre.me/iOZiO
Somado a toda a tarefa “cibernética”, os destacamentos também devem fazer perguntas inteligentes aos convidados. A primeira a passar pela “sabatina” foi a socióloga Ana Maria Prestes, neta de Luiz Carlos Prestes e Maria Prestes e membro do Comitê Central do PCdoB. Ana foi a palestrante do período da manhã e traçou uma linha mais pessoal da vida e trajetória de Prestes.

Ana Maria Prestes
Ana leu um trecho do livro “Meu Companheiro: 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes”, de sua avó Maria Prestes, que resumiu bem seu discurso e respondeu a quase todas as perguntas feitas pelos jovens socialistas, sobre os altos e baixos de Prestes: “Quem foi fiel aos seus propósitos e vem alcançando vitórias, não tem porquê ter raiva da história, ficar remoendo o passado ou se perder aos fatos marginais. Para nós, a história deve servir de exercício constante da sistematização e desenvolvimento das ideias revolucionárias que nos movem na transformação da sociedade em que vivemos. E a cada vez que contamos nossa própria história, nos reencontramos com nossos acertos, mas também com nossos erros, nos reconhecemos como frutos da dialética, dessa mesma história, que não é estática, mas antes dinâmica e relativa à distância da qual a observamos e dos novos elementos de análise que a vida vai nos provendo”.
Jovens tenentes rebeldes
Amilcar, licenciado em história, mestre em Patrimônio Cultural e professor universitário em Santa Ângela, no Rio Grande do Sul, foi o responsável por conduzir o segundo debate do dia, na Prefeitura de Palmas. Ledo engano para quem pensou: “Na prefeitura? Chato!”. A Prefeitura da cidade é um encanto. Espaços verdes, árvores de diversos frutos e um orquidário que orna a sala de reunião. Dizem as lendas que Lenine, o cantor pernambucano apaixonado por orquídeas, passeia por lá sempre que tem turnê na região.
Amilcar destacou a trajetória de Prestes por um ângulo diferente de Ana. Exaltou a conjuntura política e o papel fundamental da militância juvenil para conduzir a Coluna Prestes. Também abordou a Coluna às avessas, vista por muitos civis durante o período como bandoleira e arruaceira.
“Prestes chegou a receber do frei D. Domingos, em Tocantins, uma carta pedindo para que a revolução liderada pelos tenentes não passassem pela região, para que não houvessem saques nem mortes. Prestes retrucou a carta, explicando o objetivo verdadeiro da Coluna: a moralização do país, através do voto secreto e de maior centralização política, eliminando assim o excessivo poder das oligarquias e disseminando cultura e educação”, avaliou o professor.
Memorial Coluna e o pôr do sol
Após a aula com Amilcar, os jovens socialistas fizeram uma visita monitorada ao Memorial da Coluna Prestes, localizado na famosa Praça dos Girassóis, a maior da América Latina e segunda do mundo. Antes de adentrar ao universo do comunista, todos fizeram pose para registrar imagens com o “Cavaleiro da Luz”, nome da escultura belíssima do artista plástico Maurício Bentes, que representa Luiz Carlos Prestes.

Memorial Coluna Prestes
O memorial homenageia a passagem da Coluna Prestes pela região e, por isso, não podia ficar de fora do roteiro da caravana. Após a visita, os “novos guerrilheiros” ainda conseguiram assistir ao fim do pôr do sol mais bonito do Brasil (isso quem disse foi um morador local!). A outra praça famosa por registrar esse momento se chama Graciosa e faz jus ao nome.
Próxima parada: Guerrilha do Araguaia
A caravana do projeto “Lutas que construíram o Brasil” segue nesta noite para Xambioá, norte de Tocantins, a 494 km de Palmas. Chegando pela manhã, todos os participantes pegarão barcos para a Vila Santa Cruz dos Martírios, onde, contam, está enterrada a maioria das ossadas dos Guerrilheiros do Araguaia. Durante todo o dia, haverão mesa de debates, atividade pedagógica com os destacamentos e a exibição do filme “Araguaia: Campo Sagrado”. À noite têm fogueira e conversa com os moradores da região.
***
Araguaianas – notas de uma viagem
***
1. O Velho – O filme documentário “O Velho, a história de Luiz Carlos Prestes”, dirigido por Toni Venturini, narra a trajetória do seu personagem título, desde o início do seu envolvimento com a política, na década de 1920 até sua morte em 1993. Com uma temática poética e ricas imagens documentais, fruto de uma pesquisa de imagens acurada, o filme narra a trajetória do personagem e seu vínculo com os principais fatos políticos da história brasileira do século XX.
2. O celular de Prestes – Durante a sua palestra, a socióloga Ana Maria Prestes, neta do “cavaleiro da esperança”, disse que de tanto falar o nome do avô em casa, a sua filha mais velha, Helena, um dia perguntou o que ele fazia na cadeia. Ana respondeu que Preste lia e que a rotina era muito difícil. De bate pronto, Helena emendou: “Mas, mãe. Ele não tinha celular?”.
3. Memorial – Projeto do Arquiteto Oscar Niemeyer, amigo pessoal de Luiz Carlos Prestes, o Memorial sobre a coluna que o líder comunista liderou é um dos principais pontos turísticos de Palmas. Localizado no meio da gigantesca Praça dos Girassóis, o museu guarda algumas raridades como armas usadas nas batalhas e um lenço de Prestes, além de fotos e outros objetos doados pela família, como Luiz Carlos Preste Filho. Embora seja um dos únicos locais no Brasil dedicados à memoria da Coluna Prestes, a edificação não recebe muitas visitas e parece meio esquecido pelo pode público.

Por volta das 9h30 do dia 18 de abril de 2014, pouco mais de 40 jovens embarcaram em nove voadeiras (pequenos barcos) de Xambioá, no Tocantis, rumo à Vila Santa Cruz dos Martírios, localizada a duas horas do outro lado do Rio Araguaia, já no Pará. Ali, junto aos moradores locais, começaram a reviver também Osvaldão, Valquríria, Juca, Grabois, os irmãos Petit, Arroyo, Amauri, Doca, Duda, Cristina, Rosa, Joca, Peri, Ari, Sônia e muitos outros guerrilheiros.
Santa Cruz dos Martírios é um local de difícil acesso, com uma população cuja vida está irremediavelmente ligada ao seu meio. São camponeses, lavradores, pescadores e vaqueiros dentre as 47 famílias e 150 pessoas registrados pela Agência Municipal de Saúde. A escolha do Partido Comunista do Brasil em se fixar nessa terra, no entorno do vale do baixo Araguaia e curso médio de Tocantins se deu por alguns fatores: o militar – uma região coberta de mata fechada, onde as Forças Armadas teriam muita dificuldade para usar meios militares avançados, como canhões, tanques e aviação de segurança e, também, uma região “não queimada”, com fraca presença da repressão; e o político – a região tenderia a se tornar bastante povoada por camponeses pobres, pois levas e levas de lavradores expulsos de outros lugares já rumavam para o Araguaia, sendo assim, os guerrilheiros poderia elaborar um trabalho político e social junto à população.
Não é a toa que em Santa Cruz do Martírio é fácil encontrar pessoas de outros estados, como Minas Gerais, Bahia e Maranhão. A faixa etária que predomina na região é a idosa, o que significa que muitos moradores fotografaram com as próprias retinas a Guerrilha do Araguaia. Até hoje, o conflito é profundamente marcado e enraizado no coração dos moradores da região. Muitos camponeses sofreram torturas ou perderam suas vidas por apoiarem, mesmo que sentimentalmente, os guerrilheiros. Outros foram obrigados a caminhar com o exército para ajudá-lo no reconhecimento da região.
Tudo é ainda tão presente que as primeiras instruções dadas aos jovens quando pisaram em Santa Cruz foram as de que em nenhuma circunstância se deveria pressionar os moradores sobre o episódio. Se quiserem contar, irão contar. Se não quiserem, não irão. Outra instrução coincide com a data exata da caravana no local: era uma sexta-feira da Paixão e a comunidade é religiosa. Bebida alcoólica, por exemplo, só depois da meia noite.
Encontro com a Guerrilha
A primeira atividade do dia foi uma aula com dois moradores da região. Abel Pojo é turismólogo e gerente do Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas e Paulo César é professor de educação básica na escola estadual de Xambioá. Ambos passaram uma perspectiva mais particular de quem mora e conviveu com camponeses presentes durante a Guerrilha do Araguaia.
Abel, estudante de turismo e agente da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA), explicou que a presença da guerrilha impactou até a nomenclatura do parque estadual na região. O local sempre foi conhecido como Serra das Andorinhas, devido ao grande número do pássaro no local. Mas, conta a história que na área da serra, às margens do rio Araguaia, perto da Vila Santa Cruz, no município de São Geraldo do Araguaia, foram descobertas centenas de gravações rupestres, feitas por povos pré-históricos. Essas inscrições, encontradas por navegadores portugueses por volta de 1590, receberam o nome de “Martírio” porque os marinheiros, homens rústicos, consideraram os desenhos semelhantes à coroa dos martírios de Cristo. A partir de então, o lugar ficou conhecido como Parque Estadual Serra dos Martírios/Andorinhas. “No entanto, com o término da guerrilha, o governo rebatizou a Serra dos Martírios como Serra das Andorinhas, para não associar o nome com o confronto sangrento da Guerrilha do Araguaia. Só muito tempo depois, já com a Lei de Anistia, que o nome voltou a ser o que era”, explicou.
Já Paulo Cesar apontou uma perspectiva muito interessante do ponto de vista dos moradores locais: “Em uma noite, a cidade de três mil habitantes foi tomada por milhares de militares. De repente, eles acordaram e viram na porta do mercado que estavam acostumados a ir cartazes com a foto dos ‘paulistas’, como os guerrilheiros eram chamados. Dina era a melhor parteira da região e Murilo tinha uma farmácia. Eles transmitiam segurança. Aquelas pessoas de confiança, de repente, foram taxados de terroristas e tiveram preços fixados para quem os encontrassem vivos ou mortos. Todos ficaram confusos porque não havia ali informação nem havia interesse por parte dos militares de posicionamento sobre o outro lado da história. A população era totalmente desinformada e, por isso mesmo, ficou com medo de tudo aquilo”.
Após os destacamentos se reunirem e fazerem suas respectivas perguntas aos convidados, eles se dividiram em grupos para conhecerem os igarapés de águas cristalinas e fazerem pesquisa de campo com os moradores de Santa Cruz.
Relatos
Com o respeito e a admiração do povo do lugar, os comunistas da Guerrilha do Araguaia conseguiram levar benefícios para aquele parcela excluída e manter uma relação até mesmo de amizade. Dona Geralda, moradora de Santa Cruz, deu seu depoimento para um dos destacamentos: “Eles davam remédio e conquistavam o pessoal. Conquistavam assim, dizendo que o pessoal tinha uma cegueira de falar. Eles eram todos do bem, o problema eram os militares. Quando o helicóptero passava tinha que levantar meu filho de seis meses pra cima, pra dizer que eu estava ali desarmada, sem esconder ninguém”.
Seu Paçoca, outro morador local que convivia com os guerrilheiros na vila, acrescentou para outro destacamento: “Dina era a melhor parteira e visitava a gente aqui. Ari tinha a farmácia e falava de hospital, escola. Depois que o Ari desapareceu, a farmácia dele sumiu e nunca mais tivemos esse tipo de assistência”. De fato, em Santa Cruz dos Martírios não há sequer posto médico. Há uma ambulância fluvial para casos extremos.
Seu Domingos, que chegou em dezembro em Santa Cruz, mas sempre viveu pela região, ainda concluiu: “Eles convidavam o povo para a democracia e foi isso que eles nos ensinaram. Eles nos conquistaram, anos depois, a liberdade, mas tiveram que pagar o preço. E nós também pagamos, pois perdemos tudo que tínhamos”.
Cinema sagrado
Após as atividades, lá para as nove horas da noite, os jovens socialistas presenciaram uma cena emocionante. A caravana levou, pela primeira vez à comunidade, o filme “Araguaia: Campo Sagrado”, do diretor Evandro Medeiros. A ideia do documentário é abordar a Guerrilha a partir de narrativas de camponeses que sofreram tortura e violência por parte do exército. São ouvidos também camponeses que, muitas vezes por falta de opção e obrigados, ajudaram os militares nas rondas pelas matas à procura dos focos da Guerrilha.
Muitos desses camponeses são moradores da região e familiares dos moradores. Aparecia algum semblante conhecido, pronto: era risada, burburinho e emoção. Dona Geralda, a camponesa que concedeu entrevista aos moradores, chegou a perguntar se ainda estava viva, pois nunca havia sentido seu coração bater tão forte.
“São muitas as consequências desse período na vida da população local. Muitos ainda sofrem perturbações psicológicas. Por muito tempo, houve um silêncio entre os camponeses, mas hoje as coisas já estão começando a mudar. Mais importante do que fazer esse documentário, é voltar depois aqui e presenciar o rosto de cada um que participou. Tenho muito a agradecer essa caravana”, explicou Fábio, um dos produtores do filme.
Próxima parada: Xambioá (TO)
A caravana do projeto “Lutas que construíram o Brasil” seguirá pela manhã do dia 19 de abril, em dois carros “pau de arara” rumo à cidade de São Geraldo do Araguaia, do lado paraense do Rio. Serão 39 quilômetros de estrada de chão. De lá, pegam novamente os pequenos barcos voadeiras para Xambioá, cidade do Tocantins muito conhecida por todos militantes da UJS e que serviu de ponto de apoio tanto para o exército como para a Guerrilha.
***
Araguaianas – notas de uma viagem
***
1. 2.200 quilômetros rodados e muitas horas – Se tomarmos o ponto de partida sendo São Paulo, a caravana do Araguaia já percorreu cerca de 2.200 quilômetros. Saiu de avião no dia 16 de abril às 9h50, chegando em Palmas às 15h30, uma distância de pouco mais de 1.700 km. Após dois dias na capital do Tocantins, os jovens partiram à meia noite, de ônibus, rumo a Xambioá (TO), rodando mais 482 km em nove horas e trinta minutos. Em Xambioá, atravessaram o Rio Araguaia de barco até chegaram à Vila Santa Cruz dos Martírios (PA). A próxima parada é em São Geraldo do Araguaia (PA).
2. Campo sagrado – Filme de 2011, com 50 minutos e direção de Evandro Medeiros. A narrativa aborda os duros acontecimentos da invasão militar ao sul do Pará para sufocar o mais importante evento de resistência ao regime dos generais, organizada na clandestinidade pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), entre 1972 a 1975. A película é contundente pelos depoimentos de camponeses, ex-mateiros e soldados que atuaram naquele episódio. A justificativa para o título [campo sagrado] tem três explicações: primeiro, o “solo sagrado”, porque até hoje muitos corpos de guerrilheiros mortos ainda não foram encontrados na região; segundo, o “tema sagrado”, porque há muita gente que evita falar sobre o ocorrido, tratando a Guerrilha com certo medo e cuidado. Por último, a “sagrada festa da vida” expressa por festejos religiosos que muitos camponeses realizam, até hoje, como forma de pagar promessas por graças alcançadas, entre elas, ter sobrevivido à violência do exército na época da Guerrilha. É a Festa do Divino Espírito Santo, que ocorre desde 1980, na Serra das Andorinhas.
3. Causos – Na Vila Santa Cruz dos Martírios os mitos, lendas e verdades que rodam as histórias sobre a Guerrilha do Araguaia começaram a ganhar vida. Em bate papos com os moradores, contam que Osvaldão, de tão ágil, virava cupinzeiro, e a Dina guardava arma na própria pele. Sobre a Dina, um morador disse que ela podia estar nua, que sacava uma arma sabe-se lá de onde.
Da Vila Santa Cruz dos Martírios (PA), Patrícia Blumberg e Rafael Minoro
