A presidente Dilma Rousseff decidiu partir para o contra-ataque e mobilizou o governo para rebater as críticas da oposição à política industrial. Ela avalia que a controvérsia em torno da desindustrialização da economia brasileira deve entrar na lista de alvos de seus principais oponentes, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), na campanha eleitoral.
Por isso, Dilma já determinou a seus auxiliares que defendam publicamente o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em aspectos como a concessão de empréstimos a juros subsidiados. A estratégia é mostrar que a instituição teve papel relevante em amenizar os efeitos da crise internacional no Brasil. Também serão respondidas críticas ao financiamento de serviços de engenharia no exterior, incluindo obras das grandes empreiteiras em países da América Latina, como o Porto de Mariel (Cuba).
Na avaliação do governo, a política industrial de Dilma pode despertar questionamentos entre economistas, mas tem apoio sólido entre empresários e trabalhadores. É com base nessa convicção que a presidente se dispõe a ir para o embate. Ela foi estimulada pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, a mobilizar o governo em uma comparação com as propostas de seus adversários.
Dilma e Mercadante ficaram especialmente irritados com entrevista ao Valor – por escrito – dada por Aécio e pelo economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (1999-2002) e um dos formulares da campanha tucana, à política de crédito do BNDES. A entrevista foi publicada parcialmente no dia 2 de maio.
Na entrevista, eles condenaram o “exagero” dessa política: “A concessão de subsídio deve ser exceção e não regra. Tem que beneficiar a sociedade como um todo. No governo atual, subsídio passou a ser regra. O governo autorizou que mais de R$ 300 bilhões de empréstimos do BNDES fossem subsidiados via PSI que pouco aumentou o investimento. Esse tipo de programa não é sustentável”.
O PSI, sigla para o Programa de Sustentação do Investimento, garante crédito barato e prazo longo para quem compra bens de capital (máquinas industriais, turbinas, caminhões e outros itens) que tenham um mínimo de 60% de conteúdo nacional.
O ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges, foi um dos escalados para rebater as críticas e propor um embate com as propostas dos tucanos. “Tempos atrás, o governo do PSDB dizia que a melhor política industrial era a ausência de política industrial”, afirmou Borges ao Valor.
Segundo ele, o governo Dilma tem um “compromisso” com empréstimos de longo prazo à indústria e vê o PSI como elemento fundamental de resposta à crise de 2009. Houve desembolsos de R$ 275,5 bilhões até agora. O ministro lembrou que, após o auge da recessão global, os juros do programa já aumentaram – de 4% para 6% ao ano – em 2014. “Já trouxemos as taxas praticadas para níveis mais próximos da TJLP.”
Borges chamou a atenção para o fato de as declarações de Aécio e Armínio terem sido dadas por escrito. “Esse tipo de entrevista revela verdadeiramente os pensamentos do entrevistado. É importante para mostrar exatamente o programa econômico de cada candidato. E esse programa [do PSDB] propõe um encolhimento, um esvaziamento do BNDES, que é o que se pretendia antes do governo Lula.”
Na mesma linha, o presidente do banco, Luciano Coutinho, disse ontem que a “onda de críticas” tem proposto um “amesquinhamento” do papel da instituição.
Para o ministro, a atuação do banco torna “plenamente exequível” a meta de elevar a taxa de investimento para 23% a 24% do PIB, em 2015. Ele lembra a importância do plano de concessões em infraestrutura, também fortemente financiado pelo BNDES, para alcançar esse patamar.
Borges saiu em defesa ainda do financiamento a construtoras brasileiras no exterior. “Isso tem sido extremamente relevante para o desenvolvimento da indústria de máquina e equipamentos no Brasil”, ressaltou o ministro, acrescentando que esse tipo de crédito requer a utilização dos recursos na aquisição de bens fabricados no país.

