Desinflação sem dor?

em

Elias Jabbour

Aécio Neves admite um ano difícil em 2015. Eduardo Campos se compromete com uma meta de inflação de 3% em 2019. Ambos falam na retomada de esforço pelo superávit primário ao mesmo tempo divulgam a promessa de ampliação dos programas sociais, incluindo o programa Bolsa Família. Acendem uma vela para deus e outra ao diabo. Isso é possível? É possível desinflação sem dor?

Desde já, é preciso deixar claro: o arrocho monetário é parte essencial do programa de governo e dos compromissos assumidos pelos candidatos da oposição. A ideia de cada um deles, caso ganhe a eleição, é “partir para o crime” o mais rápido possível. Não tenho dúvida, e não se trata de agitação política particular, que o anúncio da equipe econômica desta gente provocará um alívio na grande finança capaz de fazer explodir a Bovespa de capitais de curto prazo.

Não se trata de terrorismo. A questão é que a história econômica demonstra que não existe processo desinflacionário sem dor. Isso é impossível, ainda mais com os remédios consagrados desde 1994, a saber: câmbio flutuante mais para baixo, maiores taxas de juros, congelamento salarial etc. Ou os candidatos da oposição vão apresentar alguma tese digna do Prêmio Nobel de Economia para burlar a dor da desinflação prometida por ambos?

Para a indústria e os empresários empolgados com um ou com outro, que tirem seus cavalinhos da chuva. A desinflação pretendida por ambos não ocorrerá sem que a indústria brasileira não leve mais uma verdadeiro tranco, literalmente. O problema é que o espaço existente hoje para uma nova rodada de apreciação da taxa de câmbio, sem prejudicar a manufatura nacional, é zero. Problemas sérios em nossa indústria iniciados em 2010, juntamente com o crescimento do déficit em conta corrente que se aproxima do patamar de 4% do PIB, mostram que a taxa de câmbio precisa de um outro tipo de ajuste, “para cima”. Mas certamente, os magos que assessoram os candidatos oposicionistas não estão afim de brincar em serviço, ainda mais nesta matéria onde é uma questão de princípio – para eles – que o Brasil navegue no mar das “vantagens comparativas” no comércio internacional propiciadas pelo clima, solo e – consequentemente – por nossas commodities.

Sempre a taxa de câmbio poderá ser acionada para fins nada nobres. É aí que a oposição entra em profunda contradição, pois não existe desinflação sem dor e sem o inferno social do desemprego. É difícil acender vela para deus e o diabo ao mesmo tempo? Um lado tem o princípio de enfrentar o ciclo inflacionário não abrindo mão do emprego popular. O outro campo, mente, passando ser possível uma “desinflação sem dor”, apesar da previsão de arocho monetário já em 2015. Fico com o que está aí. Ao menos sei o que pensa, o que sente e o que faz.

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