Morre o escritor Eduardo Galeano


Uma segunda-feira que poderia ter sido como todas as outras, mas esta, 13 de abril de 2015, foi diferente. Foi o dia em que a América Latina amanheceu mais triste: perdemos Eduardo Galeano. Por volta das 9h30 da manhã começam os comentários nas redes sociais, amigos de todos os países latino-americanos comentam, com profunda tristeza, a morte do escritor uruguaio. Em instantes, centenas de sites confirmam a notícia. Eduardo Galeano se foi, aos 74 anos de idade.

Por Mariana Serafini, do Vermelho

 

Reprodução

Os mais de 40 livros de Eduardo Galeano foram traduzidos em diversos idiomas

Os mais de 40 livros de Eduardo Galeano foram traduzidos em diversos idiomas

Eduardo Galeano foi o primeiro a receber o título de Cidadão Ilustre do Mercosul, a homenagem se deu em razão da contribuição de sua obra à cultura, à consolidação da identidade latino-americana e à integração regional. Mais tarde, outras figuras relevantes também foram homenageadas, entre elas Lula e Oscar Niemeyer.

O escritor, que ousou mexer nas cicatrizes mal fechadas de um continente marcado por exploração e resistência, trouxe à tona as mazelas das veias que nunca fecharam da América Latina. A obra de Galeano ensinou a diversas gerações de latino-americanos sobre a liberdade, a democracia, a humanidade e a importância do abraço (este último no seu Livro dos Abraços, considerado o mais ousado de sua carreira).

Em As veias abertas da América Latina, publicado em 1971, Galeano analisa a história do continente desde a invasão espanhola até o período contemporâneo, em que a exploração continua, porém de outra forma, por meio da dominação econômica estadunidense. A obra, que se tornou um clássico da literatura de esquerda latino-americana, foi fundamental para a afirmação de uma identidade continental dos povos da região.

Galeano sofreu a repressão da ditadura uruguaia e foi exilado na Argentina, onde teve seu nome colocado na lista dos esquadrões da morte com a chegada do golpe militar liderado pelo general Jorge Videla. Naquele período de ascensão dos regimes ditatoriais em todo o continente, viveu na Espanha e iniciou sua trilogiaMemória do Fogo. Só voltou ao seu amado Uruguai em 1985, depois da redemocratização do país.

Como muitos meninos e meninas latino-americanos, Galeano sonhou em ser jogador de futebol. Por sorte ou azar, não há como saber, o desejo não se tornou realidade, mas o escritor tratou de retratar o sonho em algumas de suas obras, entre elas O futebol de sol e sombra, de 1995.

Em seu Livro dos Abraços, Galeano valoriza a sutileza da palavra para apresentar sua visão sobre emoções, política, arte e outros temas inerentes à vida do cidadão comum. Uma crítica mordaz à sociedade capitalista moderna, a obra questiona a distorção de valores.

No texto A celebração da voz humana 2, Galeano faz uma ode à palavra: “Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada”.

Galeano comemorou a eleição do primeiro presidente de esquerda da história do Uruguai, Tabaré Vázquez, da Frente Ampla, em 2004, ao afirmar que os uruguaios “votaram contra o medo”. Em 2013 publicou o artigo A demonização de Hugo Chávez. O título irônico revela um brilhante texto em apoio ao então presidente da Venezuela. Junto a outros intelectuais de esquerda latino-americanos assinou um pedido de proclamação da independência de Porto Rico e escrevia periodicamente para jornais de esquerda dos Estados Unidos. Fez da palavra sua ferramenta de luta e defesa da liberdade.

Esta segunda-feira (13) fica marcada em nossa história, o dia em que a América Latina perdeu um de seus grandes mestres e precisou reafirmar o compromisso com a luta contra o imperialismo, pela liberdade e soberania de seu povo, como ele ensinou.

Assista à entrevista de Eric Nepomuceno com Eduardo Galeano:

Em 2009 o jornalista Eric Nepomuceno entrevistou Eduardo Galeano em Montevideu, para o programa Sangue Latino, do Canal Brasil, na ocasião falaram sobre a conjuntura latino-americana.

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