Renúncia, grandeza?


Por WALTER SORRENTINO

FHC vem de pregar a renúncia de Dilma que seria um “gesto de grandeza”.

​Foi a forma encontrada por ele, em meio aos impasses da oposição, para “forçar” a saída de Dilma.

​Em que fatos da história política do país se apoiou o ex-presidente?

Getúlio, desmascarando o cerco golpista que lhe foi imposto, suicidou-se e entrou para a história como estadista comprometido com a nação. Gesto de coragem (como também foi o de Allende no Chile, em defesa da democracia). A história fez justiça a Vargas. Nem 34 anos depois, eleito FHC à presidência da República em 1992, por dois mandatos,ele conseguiu “enterrar a Era Vargas”, seu escopo maior.

Jânio, em manobra canhestra, renunciou à Presidência recém-eleito, intentando voltar a ela “nos braços do povo” e com superpoderes. Grandeza zero, a história lhe fez justiça.

Jango, encurralado pelo golpe em marcha com apoio norte-americano – precursor de um ciclo de ditaduras latino-americanas – foi declarado fora do cargo pelo Congresso ainda estando em território nacional.

Collor, alcançado pelo impeachment, ficou absolutamente sem margem de manobra, sem base social orgânica e sem partido para reagir.

Não há precedentes de grandeza na renúncia. O que houve foi grandeza em defender sagradamente o compromisso com a soberania do voto popular e do respeito às instituições democráticas.

FHC é, de fato, o “dono da voz” na luta política em curso. Sua declaração apequena-o, está na fronteira da chicana política, falando aos seus e cantando como sereia ao PMDB. Não fala dos interesses da nação, e não fala à nação, necessitada de vozes autorizadas em defesa da democracia, da defesa dos interesses nacionais e da retomada do crescimento econômico, com o respeito ao voto popular.

Aceita pagar o preço de instabilizar o país numa situação de crise econômica mundial que o alcança. Encurralado pela falta de perspectiva da oposição, apresentou essa radicalização. Pelo jeito, nem com o New York Times ele combinou, já que o jornalão diz que forçar a saída da presidente Dilma Rousseff do cargo sem “evidência concreta de malfeito traria sérios danos para a democracia” brasileira.

​A crise política agravou-se após as eleições com a crise econômica e com a Operação Lava a Jato, mais as instabilidades derivadas com a base política, no Congresso em particular. Pergunta-se que proposições faz a oposição, desde então? Que propôs para sair da crise econômica? Que ações faz no Congresso, além de incendiar os ânimos, com impeachment, antecipação de eleições e renúncia da presidenta?

Mesmo na luta política na época dos mandatos FHC, não houve pregação de impeachment (salvo pelo PDT de Brizola). Até naquele momento a esquerda travou a luta no sentido de criar condições de vencer as eleições que se realizariam em 2002. E tinha um programa diferente, de defesa dos interesses nacionais, democráticos e populares – por isso venceu. Qual o programa da oposição neste momento?

Luta política é de fato cruenta. Governo e oposição são parte do sistema político, indispensáveis em seus respectivos papeis. Mas a guerra não pode se prestar a mostrar desapreço à democracia e enfraquecer a nação no enfrentamento da crise.

Está certa Dilma: renúncia é trair a democracia e a soberania do voto popular. É hora de seguir trabalhando na presidência para retomar a iniciativa, pacificar os ânimos e apresentar saídas para a crise econômica com a participação de todos os setores econômicos e sociais do país.​

Walter Sorrentino é médico e vice-presidente nacional do PCdoB

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