Astrojildo, fundador do Partido Comunista do Brasil


No dia 28 de setembro 1908, Machado de Assis vivia seus últimos momentos: ele abandonaria a vida em 29 de setembro. Naquela noite derradeira recebeu, agonizante em seu leito, a visita de um rapaz que mal tinha 18 anos de idade (completados em 8 de novembro, menos de dois meses depois). 

Por José Carlor Ruy

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Aquela “criança” – registrou Euclides da Cunha na crônica publicada alguns dias depois (“A última visita”, 30 de setembro e 1º de outubro de 1908, no carioca Jornal do Commércio) – “chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu”.

A avaliação de Euclides da Cunha errou e acertou. Errou ao dizer: “Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida”. Mas acertou na sequência: “Naquele momento, o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis – aquele menino foi o maior homem de sua Terra”.

A identidade daquele jovem ficou incógnita durante muito tempo e só foi revelada quase trinta anos depois quando Lúcia Miguel Pereira publicou sua monumental biografia de Machado de Assis: era Astrojildo Pereira Duarte Silva.

Foram gigantes que se reuniram naquele quarto em 1908 – o próprio “Bruxo do Cosme Velho”, que deixava a vida, Euclides da Cunha e outros membros da Academia Brasileira de Letras. E aquele jovem que despontava para a vida intelectual e política do Brasil e se tornaria um importante líder operário, introdutor e propagandista do marxismo em nosso país, e fundador e primeiro dirigente do Partido Comunista do Brasil.

Astrojildo tornou-se militante anarquista em 1911, desencantado com a Campanha Civilista de 1910 que defendeu a candidatura de Rui Barbosa à presidência da República. Logo tornou-se importante líder operário no Rio de Janeiro; esteve entre os organizadores do II Congresso Operário Brasileiro, em 1913,e foi um dos dirigentes da grande greve de 1917.

Naqueles anos o debate entre as lideranças operárias era intenso, sobretudo depois de 1917, quando ocorreram dois eventos de enorme significado: a Revolução Russa e, no Brasil, a grande greve operária. A dogmática rejeição anarquista da política foi o grande obstáculo que aquela greve enfrentou. E fez crescer, entre a liderança operária, o debate do exemplo soviético e, principalmente, sobre o que fazer para levar adiante a luta operária. 

Astrojildo já era conhecido. Em janeiro de 1918 publicou o folheto A Revolução Russa e a Imprensa, que defendia os bolcheviques contra as calúnias espalhadas contra a revolução, prinicipalmente pela imprensa da direita. Ainda nesse ano redigiu, praticamente sozinho, o jornal Crônica Subversiva. 

Tornara-se um eficiente e incansável propagandista do marxismo. Promovia reuniões de trabalhadores para debater a crise do anarquismo e sua incapacidade para formular um programa político para a luta proletária. “Faltava porém um centro coordenador, um comando geral à altura das circunstâncias, em suma, uma direção política, que só um partido independente de classe poderia imprimir a todo o movimento”, escreveu mais tarde. 

Existiam inúmeros grupos comunistas no Brasil e entre eles se destacava o grupo do Rio de Janeiro que, em janeiro de 1922, começou a publicar o periódico Movimento Comunista, dirigido por Astrojildo. Em julho de 1923 a Internacional Comunista recomendou a transformação desse periódico em um jornal de massas voltado aos trabalhadores – começava a nascer A Classe Operária, o jornal comunista publicado desde 1º de maio de 1925 

Astrojildo era um propagandista metódico e organjizado. O historiador Edgard Carone examinou os cadernos onde ele anotava, na década de 1920, empréstimos de livros e revistas de divulgação marxista. Neles constam os nomes de simpatizantes, espalhados por vários estados (Alagoas, Ceará, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo), para os quais Astrojildo enviava livros e revistas teóricos do marxismo. Entre eles as Teses do II Congresso da Internacional Comunista e o Manifesto do Partido Comunista, entre outras obras.

Era um líder reconhecido. Em 1921, um estrangeiro visitou a redação do jornal proletário A Vanguarda, em São Paulo, em busca de um líder para formar do Partido Comunista entre nós. Ele se dizia representante de uma fábrica de tecidos britânica ficando por isso referido na história como o “cometa de Manchester”. Procurava Edgard Leuenroth, o principal líder da greve de 1917, a quem se apresentou como membro do Secretariado Comunista da América do Sul, sediado em Buenos Aires. “Por que o senhor não funda do Partido Comunista do Brasil?”, perguntou a Leueroth, que respondeu: “Porque não sou bolchevista”. E recomendou que falasse com Astrojildo Pereira que, três dias depois, chegava a São Paulo para tratar da fundação do Partido Comunista do Brasil.

Em 1922, os comunistas brasileiros eram poucos: apenas 73, espalhados por várias cidades – Juiz de Fora (MG), Niterói (RJ), Recife (PE), Rio de Janeiro (DF), Porto Alegre (RS), Santos e São Paulo (SP). 

Astrojildo articulou aqueles grupos comunistas, sendo o principal organizador do Congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil em 25 de março de 1922, que reuniu um punhado de militantes: Astrojildo Pereira (jornalista), Cristiano Cordeiro (advogado), Joaquim Barbosa (alfaiate), Manuel Cendón (alfaiate), João da Costa Pimenta (gráfico), Luís Pérez (vassoureiro), Hemogêneo Fernandes da Silva (eletricista), Abílio de Nequete (barbeiro) e José Elias da Silva (pedreiro). 

A primeira direção do Partido Comunista do Brasil, eleita então, tinha à frente, por indicação de Astrojildo (outra indicação da modéstia característica do fundador do PcdoB), o gaúcho Abílio de Nequete, juntamente com Astrojildo, Antônio Canellas, Luiz Peres e Cruz Júnior. Em 5 de julho de 1922 ocorreu o levante tenentista que desencadeou forte repressão. Nequete foi preso e, ao sair da cadeia, renunciou ao cargo dirigente e afastou-se do partido. Coube a Astrojildo Pereira ocupar a secretaria geral, função que manteria ao longo daquela década, sendo reconhecidamente o principal dirigente comunista naquela primeira fase da existênia do Partido do qual foi o principal fundador.

Foram anos turbulentos e intensos. Em 8 de julho de 1924 a Internacional Comunista reconheceu o PCB e Astrojildo Pereira foi eleito para sua Comissão de Controle Central. Em 17 de julho de 1926 o Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou, elegeu Astrojildo como membro de sua Comissão Executiva.

No Brasil, em 3 de janeiro de 1927 começou circulou a primeira edição do diário A Nação, de propriedade de Leônidas de Rezende, agora sob direção do PCB. A experiência foi até agosto de 1927, terminando após a aprovação da “lei celerada”. Os principais redatores eram Astrojildo Pereira, Octavio Brandão e Paulo de Lacerda. 

Ainda em dezembro daquele ano a direção do PCB aprovou, por sugestão de Astrojildo, a aproximação com a Coluna Prestes, e ele foi enviado à Bolívia, ao encontro de Luís Carlos Prestes, lá exilado. Astrojildo deixou com ele muitas publicações marxistas.

Astrojildo foi o principal redator das resoluções dos 2º e 3º congressos do PCB, em 1925 e 1928/1929, que descreveram aquela época como “um período de transição entre a economia agrária e a economia industrial”, onde a penetração imperialista crescia, e o domínio passava da Inglaterra para os EUA. 

Era a tese da terceira revolução (as anteriores ocorreram em 1922 e 1924), formulada por Astrojildo e Octávio Brandão. Segundo ela, a revolução brasileira seria democrático pequeno-burguesa, unindo a classe operária e a pequena burguesia antioligárquica (os “tenentes”). Embora muito criticada logo depois pela Internacional Comunista, esta tese indicou a acuidade da análise política da direção comunista brasileira, única, entre os analistas da época, a perceber que a encruzilhada que o país vivia só seria resolvida por uma ruptura institucional que ocorreu, afinal, em 1930.

Astrojildo defendia uma política de alianças mais ampla para os comunistas brasileiros, e a aproximação com políticos democratas do calibre de Maurício de Laerda, Leônidas Rezende, e o próprio Luiz Carlos Prestes, o principal líder tenentista, que se encontrava exilado. 

Essa política enfrentou, desde maio de 1930, dura crítica da IC, que forçou o encerramento da experiência do Bloco Operário e Campones (BOC), formado pelo partido para participar das eleições naqueles anos. Para o Bureau Sul Americano da IC, aquela política contrariava a diretriz de “classe contra classe” então defendida. Mas é preciso frisar que o PCB, por influência de Astrojildo, foi mundialmente pioneiro na política de frente ampla que foi preconizada na etapa imediantamente posterior, na luta contra o nazifascismo.

Outro aspecto da atividade intelectual de Astrojildo foi o combate ao pensamento oligárquico. Num artigo publicado em A Classe Operária (1/5/1929), submeteu as falácias expostas por Oliveira Viana em Populações meridionais do Brasil a uma crítica rigorosa e demolidora. Astrojildo demonstrou um domínio crescente do pensamento marxista ao concluir que a tese falsa da ausência da luta de classes no Brasil decorria outra, a compreensão do Estado como externo e superior às classes, cujo controle cabe aos “fazendeiros de café, descendentes da velha aristocracia rural”.

Naqueles anos a repressão policial combinou-se com a frágil formação marxista e comunista do grupo dirigente, e as próprias incompreensões da Internacional Comunista sobre a luta de classes no Brasil. 

Em fevereiro de 1929 Astojildo viajou para Moscou, onde permaneceu até janeiro de 1930. Quando, voltou trouxe a orientação da Internacional Comunista, de proletarização do partido, aqui logo compreendida como o reforço da presença diretamente operária. Assim, no início de 1930 o Comitê Central decidiu diminuir o número de intelectuais na direção partidária. Em novembro daquele ano, por influência direta do Bureau Sul Americano da Internacional Comunista, Astrojildo foi afastado da secretaria geral, tendo início um longo período de instabilidade na cúpula comunista brasileira. A “normalidade” só foi recuperada depois de 1943, quando a Conferência da Mantiquerira reorganizou a direção nacional do Partido – mas esta já é outra história… 

Astrojildo, com sua esposa, Inês, filha de outro dirigente operário, Everardo Dias, mudou-se para sua cidade no interior do estado do Rio de Janeiro, Rio Bonito, onde viveu mais de uma década trabalhando em uma empresa de sua família, que vendia frutas.

Astrojildo retornou ao PCB em 1945 e assumiu importantes tarefas na área cultural. Participou do I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em São Paulo, e foi um dos redatores da declaração de princípios então aprovada, com críticas ao Estado Novo. Teve intensa colaboração na imprensa partidária, dirigindo as as revistas Literatura, Problemas da Paz e do Socialismo e Estudos Sociais, e escrevendo no jornal Imprensa Popular e na revista Novos Rumos. 

Leôncio Basbaum, que militou com ele naqueles anos iniciais, deixou uma descrição de Astrojildo reveladora do homem, do militantes e do dirigente que ele foi: “tinha o rosto muito alvo, corado e com óculos de aro de metal, sempre risonho, tinha mais força comunicativa e ares de intelectual, sempre com livros e uma pastinha debaixo do braço e uma capa de chuva sobre os ombros. Tinha um grande senso de humor, gostava de dar risadar e tomar cerveja”. 

Lutador pelo socialismo, Astrojildo Pereira – que, este ano completaria 125 anos de idade, e que marca também os 50 anos de sua saída da vida, em 21 de novembro de 1965) foi um herói do povo brasileiro. Ele deixou uma marca de bronze na história da luta de classes em nosso país – o movimento comunista, que fundou. e que floresce hoje em organizações entre as quais se destaca o Partido Comunista do Brasil, que se orgulha em manter de pé a bandeira por ele levantada em 25 de março de 1922.

Referências

Basbaum, Leôncio. Uma vida em seis tempos (memórias). São Paulo, Alfa-Omega, 1978 

Brandão, Octavio. Combates e batalhas (memórias). Vol. I, São Paulo, Alfa-Omega, 1978

Carone, Edgar. Uma polêmica nos primórdios do PCB: o incidente Canellas e Astrojildo (1923). In Memória e História, nº. 1, Revista do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro. São Paulo, Livraria Editora Ciência Humanas, 1981

Carone, Edgard. O marxismo no Brasil (das origens a 1964). São Paulo, Editora Dois Pontos, 1986

Coutinho, Carlos N. Os intelectuais e a organização da cultura no Brasil. In Temas de Ciências Humanas, nº 10, São Paulo, 1981.

Konder, Leandro. Os intelectuais brasileiros e a cultura. Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1991.

Konder, Leandro, Astrojildo Pereira: o homem, o militante, o crítico. In Memória e História, nº 1, Revista do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro, São Paulo, Livraria Editora Ciência Humanas, 1981

Lima, Heitor Ferreira. Astrojildo Pereira e uma mudança na orientação do PCB. In Memória e História, nº 1, Revista do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro. São Paulo, Livraria Editora Ciência Humanas, 1981

Lima, Heitor Ferreira. Caminhos percorridos – memória de militância. São Paulo, Brasiliense, 1982

Pereira, Astrojildo. “A formação do PCB”. In Ensaios históricos e políticos. São Paulo, Alfa-Omega, 1979, 

Zaidan Filho, Michel. PCB (1922-1929) – na busca das origens de um marxismo nacional. São Paulo, Global, 1985.

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