Atoleiro neoliberal. E o paradoxo do túnel chinês


Por A.Sérgio Barroso

Um articulista graúdo do The New York Times – correspondente econômico sênior do jornal e escritor –  acaba de descobrir a pólvora. Sua pesquisa revelou que a economia mundial está “em marcha lenta”. Segundo concluiu Neil Irwin, esse crescimento lento “ocorre há 15 anos”. Ou seja, ele não se contentou com a violenta queda que atingiu em cheio o centro do capitalismo e que passou a ocorrer a partir de 2007-8; esticou a corda. [1]

Descobriu também o ilustre que, entre1947 a 2000, nos EUA, o PIB (Produto Interno Bruto) per capita aumentou em média 2,2% ao ano — mas a partir de 2001 ele ficou em média em apenas 0,9; as economias da Europa Ocidental e do Japão tiveram pior desempenho ainda, na mesma periodização. Irwin cita ainda uma inequívoca análise do badalado Instituto Global McKinsey: 81% da população dos EUA estão em uma faixa de renda que ficou estagnada ou declinou na última década; na Itália a cifra atingiu 97%, 70% no Reino Unido e 63% na França. Se fazendo de inocente – ou preparando sua aposentadoria – o rapaz diz então que “Há muito que não sabemos sobre o futuro econômico. O que sabemos é que se alguma coisa não mudar o século 21 será sombrio”.

Impostura americana

Nas atas da última reunião do Fed (Banco Central dos EUA, 18/08) explicita-se que ele não se comprometerá com uma mudança na taxa básica de juro até que um “consenso” mais forte possa ser alcançado sobre o cenário de crescimento, emprego e inflação. Evidentemente, tal consenso não só está muito distante, dado ao quadro objetivamente precário e do declínio da economia do país e alhures. Trata-se de fetiche e propagandas imperialistas.

Ora, é que, como vimos argumentando – e acima demonstra Neil Irwin – a situação da decadência dos EUA não só tem se revelado estrutural, vis-à-vis aos novos fenômenos que vêm transitando o sistema de relações internacionais, assim como a cada dia se revelam graves problemas pertinentes a países subdesenvolvidos. De acordo com o marxista indiano Prabhat Patnaik, estatísticas mais impressionantes descrevem o declínio drástico da expectativa de vida entre homens americanos brancos nos anos recentes, o que se igualaria à queda drástica da expectativa de vida ocorrida na Rússia após o colapso da União Soviética. Tal declínio da expectativa de vida, quando não há qualquer epidemia óbvia, diz acertadamente o economista: “é um assunto muito grave. E descobrir um tal declínio no mais avançado país capitalista do mundo testemunha o assalto aos meios de vida do povo trabalhador que a globalização provocou”. [2]

Aliás, lançando um novo livro (“A longa depressão. Marxismo e a crise global do capitalismo”), o economista britânico Michael Roberts argumenta que mesmo que se hoje o sistema viesse a ter uma (possível) recuperação, o capitalismo não se encontra em vias de resolver os seus problemas indefinidamente. [3] Para Roberts, “está cada vez mais difícil para eles terem um novo sopro de vida e expansão, com o aquecimento global [?], a baixa produtividade, a desigualdade crescente e com cada vez menos áreas do mundo a explorar que já não estejam proletarizadas, urbanizadas… Há menos espaço para o capitalismo expandir-se. Está a ficar próximo da sua data de validade em termos históricos. Mas mesmo assim poderia haver outro período de expansão nos próximos 20 anos”, elucubra o economista. Mas tal contradição é real, não apenas aparente.

Exemplifica ainda a partir da referência do novo relatório Global Mckinsey, encontrando que dois terços das residências nas 26 economias da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) tinham menores níveis de vida em 2015 que em 2005! Para ele, o sistema capitalista na “depressão” atual precisa “livrar-se de um bocado de dívida, estraçalhar um bocado de bancos, encerrar um bocado de indústrias e companhias velhas. Isso é horrível, mas é o que o capitalismo faz para ressuscitar a si próprio”. 

Enquanto isso, o atoleiro neoliberal continua a empurrar o Japão ao buraco, pondo por terra as manobras da chamada política econômica do primeiro-ministro, a “Abenomics”. O fato é que a economia japonesa estagnou entre abril e junho, com exportações fracas e a demanda interna cambaleante, levando as empresas a cortar investimentos, e a se voltar contra Shinzo Abe. Para que se aplique políticas de estímulo a um crescimento estável, questão reforçada pelo fraco indicador do PIB do segundo semestre, divulgado em 15/08/2016.

Comércio global definhando

Corrobora e aprofunda esse quadro global a análise recente do diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), brasileiro Roberto Azevêdo. Conforme escreveu, o crescimento da economia global continua lento e o comércio internacional registrou uma expansão modesta – de 2,8% – em 2015; e nessa batida 2016 será o quinto ano consecutivo em que o crescimento do comércio global será inferior a 3% – em contraste com os 5% que prevaleceu nas décadas que precederam a crise. [4]

Ainda no final do mês de julho, a economia do Reino Unido apresentou encolhimento mais rápido desde a crise financeira-econômica (2007-8), logo na esteira do referendo do mês passado (Brexit) que decidiu pela saída da União Europeia, de acordo com a pesquisa Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês): registrou a maior queda em seus 20 anos de história. O PMI, usado regularmente na União Europeia, é hoje um dos principais índices que aponta uma fisionomia geral da atividade econômica do país. Concretamente, a economia do Reino Unido encolheu no mês após seus eleitores terem votado por deixar a União Europeia (Instituto Nacional de Investigação Econômica e Social, Niesr, em inglês). Quem sugere que o Produto Interno Bruto (PIB) contraiu 0,2% em julho. Previsões divulgadas no início de agosto indica um crescimento provável desacelerando para 1,7% em 2016 e 1% em 2017. O Banco da Inglaterra (BoE) prevê um crescimento de apenas 0,8% no ano que vem. O banco da Inglaterra (BoE), por isso mesmo reduziu sua taxa básica de juros pela primeira vez em mais de sete anos.

A luz (daltônica) do trem chinês

Numa outra ponta, o governo de Pequim aprovou nesta terça-feira (16/08/2016)uma plataforma que conecta a bolsa de Hong Kong com a praça de Shenzhen, segundo maior mercado da China, uma das mais emblemáticas reformas prometidas por Pequim, mas cujo lançamento havia sido adiado. “O Conselho de Assuntos de Estado aprovou a implementação da proposta de uma conexão ‘Shenzhen-Hong Kong’, baseando-se no modelo da plataforma existente entre as bolsas de Xangai e Hong Kong”, afirmou o primeiro-ministro, Li Keqiang. O Shenzen Connect permitirá, pela primeira vez, que investidores internacionais negociem ações registradas na cidade, no sul da China. Shenzen abriga muito mais empresas tecnológicas e startups do que Xangai, conhecida por sediar maior proporção de empresas e bancos estatais, opções pouco apreciadas por investidores internacionais – deliciou-se o Financial Times. [5]

Observe-se com atenção: conforme a Agência chinesa Xinhua (16/08/2016), “O lançamento da Conexão das Bolsas Shenzhen-HK depois da entre as de Shanghai e Hong Kong marcou outro passo concreto para o mercado de capital chinês ir na direção de um mercado com base em lei, orientado pelo mercado e global. Isso trará vários resultados positivos”, disse à agência o premiê Li. [6]

A propósito, na reunião próxima do G-20, a realizar-se na China, a alta direção do país levará proposta enfatizando um tal um “crescimento inclusivo”, com objetivos de disseminar amplamente os benefícios econômicos e fortalecer o apoio ao livre comércio, disse Zhu Guangyao, um vice-ministro das Finanças. [7] Ele disse que os governos precisam ficar em “estado de alerta” contra sentimentos “antiglobalização”. Tal declaração – os chineses são mestres em dissimulação, que eles acham que os outros não entendem! -, evidente, vai em direção oposta e advertem aos celebradores “à esquerda” do Brexit que o buraco é bem mais em baixo.

Um trilho incontornável

As opiniões evolutivas da alta governança da China Socialista apontam para a ideia de que, inobstante a falta de horizonte para atual crise sistêmica do capitalismo, de caráter depressivo, não parece haver saída para o desenvolvimento econômico-social global fora dos marcos – do avanço – da cooperação, da integração com este capitalismo, capitalismo neoliberal.

Em nossa opinião, uma questão estratégica reflexiva e polêmica.

Notas

[1] Em: http://nytiw.folha.uol.com.br/?url=/folha/content/view/full/46411

[2]  Em: http://resistir.info/patnaik/globalizacao_10jul16.html %5Btradução nossa do trecho, no original]:http://peoplesdemocracy.in/2016/0710_pd/globalisation-and-world’s-working-people

[3] Em: http://www.sinpermiso.info/textos/la-larga-depresion-entrevista 

[4] Em: http://www.valor.com.br/opiniao/4671861/desafios-do-comercio-internacional

[5] Em: http://www.valor.com.br/financas/4674939/china-conecta-bolsas-de-hong-kong-e-shenzen

[6] Em: http://portuguese.xinhuanet.com/2016-08/16/c_135604196.htm%5D

[7]Em: http://www.valor.com.br/internacional/4673627/pequim-quer-acao-do-g-20-para-crescimento-global

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