Notas sobre “A radiografia do golpe”


Por A. Sérgio Barroso

“O endividamento do Estado era, pelo contrário, o interesse direto da fração da burguesia que dominava e legislava através das Câmaras. O déficit do Estado, esse era o verdadeiro objeto da sua especulação e a fonte principal do seu enriquecimento”. (Marx, “As lutas de classes em França de 1848 a 1850”). [1]

O livro recente do professor Jessé de Souza, adianto, é um bom estudo, forte e direto, ademais de suas lacunas e limites. Aliás, também penso que o golpe, apesar de ter sido em parte truncado, só se completará – é esse o clímax do objeto de desejo dos golpistas – com a prisão severa ou a cassação dos direitos políticos do ex-presidente Lula.

Em “A tolice da inteligência brasileira”, livro mais denso e teórico (Leya, 2015), Souza polemiza aguda e criticamente, com argumentos, contra importantes intérpretes brasileiros como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Raymundo Faoro, entre outros autores. Em essência, Souza enfrenta vigorosamente a tese, que chama de “mito” construído pela elite brasileira, lembrando que sistemas corruptos e patrimonialistas são, na verdade, um fenômeno incrustrado nas desigualdades sociais e entre as classes, em qualquer parte do mundo. Holanda e Faoro, liberais conservadores, sempre escondiam-se atrás de um ataque ao funcionamento estatal (perdulário, corrupto), resultando objetivamente no se enxergar as virtudes do mercado – interpreto livremente.

Em suas fulminantes palavras, essa tese “foi uma mentira construída cientificamente, a partir de Sérgio Buarque, Raymundo Faoro, como se a corrupção fosse a grande singularidade cultural brasileira, é um absurdo dizer isso – os americanos legalizam a corrupção, a corrupção é a forma de você manipular o tolo no fundo”.

Assinalemos então o que consideramos o principal de “A radiografia…”.  

Chumbo grosso

Para Jessé de Souza:

1.As raízes do golpe de 2016 nasceram em junho de 2013 – “o ovo da serpente”. Porque a força das ruas foi, posteriormente e após a eclosão do movimento pelo passe livre, manipulada e manejada pela grande mídia em favor dos objetivos da elite brasileira. Jessé, que acompanhou uma série sistemática das notícias dadas pelo Jornal Nacional, dia após dia, afirma que a TV Globo foi montando o discurso de que a insatisfação popular era generalizada e baseada na corrupção estritamente Estatal; a narrativa promoveu a “federalização” de problemas, sempre ligados à corrupção. Dalí em diante foram construídos as bases para formular a imagem de Lula e do PT como símbolos da corrupção no seio do Estado, e do poder judiciário; e, notadamente na outra ponta, Sérgio Moro, como símbolo da moralidade e salvação do país. 

2. Na oculta definição necessária de corrupção o mercado engana a sociedade, e parte dessa a sociedade como um todo “compra o Congresso, por exemplo, pra você nunca passar leis que possam taxar ricos”. O Estado empobrece, os ricos ficam cada vez mais ricos, e os ricos não são taxados, porque isto já estava precificado na compra de parlamentares.  Se você não pode taxar os ricos, então você tem que pedir emprestado o dinheiro dos ricos, que é quem têm o dinheiro. Essa é a raiz da crise fiscal, que é entendido de um modo completamente distinto, como se fosse para ‘cortar educação e saúde dos pobres e da população. 

3. Segundo Souza, a então presidenta reagiu à campanha da corrupção de modo ambíguo: ao tentar lançar a reforma política no centro das discussões, e acicatada pela mídia a manipular o assunto a partir da “fulanização excessiva”, envolveu-se pessoalmente n a cruzada anticorrupção. Ao ser acrítica frente ao discurso manipulatório e hegemonizante, ela tornou-se presa fácil da condução midiática massacrante.  “Pior: terminou acreditando na farsa da imparcialidade da operação Lava Jato até quando ficou muito tarde para qualquer reação”. Até porque – pensa o autor -, historicamente o tema da corrupção “não oferece nenhuma reflexão e compreensão real do mundo” que consegue distorcer e manipular emotivamente um público cativo, mantendo-se alvos seletivos (pp.88-9). Assim, por volta de fins de junho de 2013, enquanto o aparato midiático insuflava a demonização dos partidos políticos, para o Jornal Nacional da Globo, que dava voz a depredadores radicalizados, qualificava as manifestações como “uma verdadeira festa pacífica e democrática”; enquanto a FIESP passou a estampar a bandeira brasileira em sua sede, na avenida Paulista (p.92).

4. O aliciamento midiático, a seguir, do aparelho jurídico-policial, da “casta jurídica” ultraprivilegiada, bem como sua campanha sistemática contra a PEC 37 (era incompetente o MPF para julgar crimes referidos no artigo 144 da Constituição) desenvolveu-se de modo a consagrar “o casamento entre a mídia classe média conservadora”, ou a ideia de que ela era o “herói cívico” de ocasião. Uma “classe revolucionária” – metaforiza ele – forjada para a construção da base social que faltava para a estratégia golpista. É, pois, no sentimento escravocrata tradicional das elites que se compartilha, “mas intensificado na fração conservadora da classe média”, com o desprezo aos pobres, acusados de serem os responsáveis pela própria pobreza. Um móvel a ser abatido: o processo acelerado de inclusão social brasileira entre 2003-2013, que fez com que eles tivessem “acesso a oportunidades de consumo que nunca haviam tido”. Daí que, a novidade verdadeira da captura das “jornadas de junho” foi a “repaginação turbinada de um ator velho e bem conhecido da nossa história: “a fração da classe média moralista e conservadora, que sempre desprezou e odiou os pobres, representantes da maioria da população brasileira”; essa é a fração que transforma “as manifestações em verdadeiro fenômeno de massas” – separadas cuidadosamente da minoria de “vândalos” (pp. 95-100).

5. Conforme Jessé de Souza, apesar de propenso a compromissos, os governos do PT significaram um desafio ao sistema. O “mensalão” teria sido então uma resposta ao conservadorismo e reacionarismo do Congresso, um cálculo pragmático com “alguma dose de cinismo” (p. 109). No caso da Petrobras, entregou-se diretorias de investimentos bilionários e reservas do pré-sal fabulosas “ao saque de praxe”, tendo-se com pano de fundo as negociações com esse mesmo Congresso; recorda ele as denúncias de corrupção na empresa feitas por Paulo Francis (1996), época de FHC, que, depois alertado pelo empresário Steinbruch, nada fez. Mas a criminalização do PT e de seu projeto passou a ser uma estratégia incansável de dois “principais parceiros do golpe: o complexo jurídico-policial do Estado e a mídia conservadora”. A imprensa servil ao dinheiro unida aos interesses corporativos da casta jurídica, deflagrada a Lava Jato, confluiu no “fio condutor do golpe”. Sérgio Moro foi então a figura perfeita para a estratégia golpista funcionar: a classe média nas ruas o via como sua integrante, e membros do aparato jurídico-policial viam nele a encarnação perfeita do partido corporativo que se traveste do bem comum” (pp. 110-120).

Jessé conclui, entre outras questões – por incrível que pareça e à sua revelia! -, como se revisitasse o Marx da epígrafe. Deflagrado a queda da presidenta, diz, os interesses econômicos por trás do golpe de Estado virão à luz do dia. “O interesse de assaltar a sociedade como um todo via taxa de juros para o bolso de meia dúzia agora torna possível posições antifinanceirização que não existiam entre nós”, imagina. Ademais, a elite financeira, a imprensa e o parlamento “comprados têm agora nas mãos um, governo sem prestígio e fraco, sem qualquer apoio popular” (pp. 134-5).

Lacunas

A questão, ainda obscura e carente de pesquisa, da participação americana no golpe contra a honrada ex-presidenta Dilma é omitida no trabalho de Souza. Apenas para citar alguns intelectuais destacados e de diferentes perspectivas ideológicas, o norte-americano Noam Chomsky, o brasileiro Pepe Escobar, o argentino Atílio Boron e o canadense Michel Chossudovsky acusaram explícita e diretamente a interferência imperialista na derrubada de Dilma.  [2] 

Questão que se revela nítida com a visita de Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, ao FBI, sabidamente para tratar de fatos relativos à espionagem na Petrobras, ao que se seguiu a prisão do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. 

Relatou então o jornalista Sérgio Lamucci: em sua passagem pelos EUA, Janot teve encontros no Departamento de Justiça e na Polícia Federal americana (FBI) na segunda-feira e ontem na Organização dos Estados Americanos (OEA). O procurador-geral não falou com a imprensa. No Departamento de Justiça e no FBI, ele teria discutido questões relacionadas à Operação Lava-Jato, que investiga o esquema de corrupção na Petrobras. Procuradores da Lava-Jato também estiveram em Washington. [3]

Cerca de dois meses depois, “O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, foi preso nesta quarta-feira (15) pela Polícia Federal em sua casa, em São Paulo. Secretário de Finanças do partido, o petista nega envolvimento no esquema de corrupção que atingiu a Petrobras nos últimos anos”.[4]

Há ainda o fato, registrado, que Liliana Aylde, embaixadora dos EUA durante o golpe “constitucional” que derrubou Fernando Lugo da presidência do Paraguai ter sido nomeada para o Brasil, à época da Lava Jato, por Barack Obama. 

Limitações

Ressaltaria como digno de nota, o fato de Jessé de Souza insistir numa narrativa, presente em seu outro livro, de classificar a “esquerda brasileira” como “economicista”; o que seria “uma vulgata marxista”, explicita depois em entrevista ao jornalista Luís Nassif (CGN, 13/09/2016). Para ele isso quer dizer que a esquerda (que ele generaliza) se restringe a um projeto mais redistributivo e imagina que isso “automaticamente” modificaria a sociedade. Ainda, para Jessé de Souza, “Então houve uma leitura da esquerda também, que até hoje é assim, isso significa o fato da esquerda ser colonizada pelo discurso da direita” (entrevista, idem). 

É que o professor não sabe bem qual o conceito de economicismo, este claramente exposto por Lênin, em suja renomada obra “Que fazer” (1901-2). O conceito então se refere à negação ou ausência da luta política encetada pelo partido revolucionário, e sua circunscrição à luta econômica ou meramente sindical. Por isso ele deveria apontar a que tipo de esquerda ele acusa. Certamente tal errática generalização – muito menos o chavão de uma  “esquerda colonizada” – nada, absolutamente nada tem a ver com o PCdoB, e outras correntes da esquerda nacionalista e programática do Brasil.

NOTAS

[1] Editora Avante!, 1984, p. 38, 2ª dição.

[2] Ver em: http://folhadiferenciada.blogspot.com.br/2016/06/chomsky-imprensa-argentina-o-que-houve.html

http://www.atilioboron.com.ar/2016/05/asalto-al-poder-en-brasil.html

http://resistir.info/chossudovsky/golpe_brasil_01jun16.html

[3] Em: http://www.valor.com.br/politica/3906538/janot-assina-cooperacao-com-banco-mundial-para-combate-corrupcao

[4] Em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/04/1616790-tesoureiro-do-pt-e-preso-pela-pf.shtml  

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