Por Luciano Coutinho
A Grande Crise Financeira global, deflagrada em setembro de 2008, colocou os Bancos Centrais (BCs) frente a desafios dramáticos: evitar quebra dos sistemas bancários e deflação aguda dos ativos, ingredientes próprios de depressões profundas. A ação dos BCs foi tempestiva. As taxas de juros de
curto prazo foram logo reduzidas e recursos foram oferecidos aos bancos e aos mercados para apagar incêndios.
Essas iniciativas, junto com intervenções extraordinárias de natureza fiscal (e.g. estatizações de bancos, capitalizações e aquisições de ativos tóxicos pelos governos e/ou por fundos públicos), conseguiram impedir a queda iminente no precipício às custas da socialização de imensos prejuízos. Não obstante, a gravidade dos danos nos bancos, o colapso da construção civil, o superendividamento das famílias e das empresas tornaram a crise crônica e tenaz.
Os impactos sobre as contas públicas foram brutais. De saída apresentou se o pesado ônus das intervenções fiscais supracitadas e, em seguida, vieram quedas pronunciadas da receita tributária. Quedas elásticas, principalmente dos impostos sobre ganhos de capital, lucros, rendas financeiras e imobiliárias. Dada a dificuldade de comprimir os gastos públicos com igual intensidade, avolumaramse os déficits fiscais e o endividamento público se expandiu fortemente. Em média, nas economias avançadas,a relação dívida pública/PIB dobrou de 60% para 110% entre 2007 e 2015.
A escalada da dívida pública foi intensa nos três primeiros anos da crise, suscitando fortes pressões dos mercados em favor de políticas de austeridade. Estreitou-se o raio de manobra fiscal sem que houvesse decorrido tempo suficiente para o processo, intrinsecamente longo, de desalavancagem das famílias, bancos e empresas mais atingidas. Nas economias desenvolvidas, instalou-se um amplo pessimismo face às recessões.
Foi nesse contexto que os BCs protagonizaram programas de expansão quantitativa de liquidez (i.e. Quantitative Easing ou QEs) com taxas de juros nominais próximas a zero. O Fed foi o pioneiro (de 2009 a 2011) sendo depois de 2012 seguido pelo Banco Central Europeu (BCE) e mais recentemente pelo Banco do Japão (BoJ). Através de compras maciças e pré-anunciadas de ativos financeiros (títulos públicos, corporativos, hipotecas e outros) detidos pelos bancos e pelos agentes do mercado de capitais, estes BCs injetaram dinheiro em grande escala nas suas áreas de influência.
O Balanço destas três instituições acumulava, em meados de 2016, cerca de US$ 9,5 trilhões em papéis comprados aos mercados. Indo além da redução a zero das taxas de juros de curto prazo as políticas de QE também buscaram, explicitamente, abaixar o “yield” dos títulos de longo
prazo. Justificouse essa redução dos juros de longo prazo como estimulo à construção civil e à formação de capital fixo.
Como resultado, a chamada estrutura de termo das taxas de juros, que em condições normais forma uma curva temporal ascendente (títulos de prazos mais longos pagam, proporcionalmente, prêmios de risco mais altos) tornouse praticamente plana. O prêmio de risco (term premium) associado ao longo prazo que, antes da crise, oscilava entre 3 a 3,5 pontos de porcentagem ao ano para os títulos de 10 anos do Tesouro dos EUA, situase hoje abaixo de 0,5.
Se, de um lado, os efeitos reais sobre a reativação econômica foram moderados (caso dos EUA) ou muito fracos (Europa e Japão), de outro lado as taxas de juros zeradas (negativas se considerada a inflação) evitaram uma degringolada dos preços dos ativos. Com efeito, o valor do estoque global de ativos financeiros (ações, títulos públicos, títulos privados bancários e corporativos, créditos securitizados) que alcançara US$ 192 trilhões em 2007, caiu para US$ 168 trilhões no fim de 2008, no
ápice do sufoco do sistema bancário, mas praticamente voltou ao nível pré crise já no fim de 2009. De 2010 em diante, a riqueza financeira global inflou paulatinamente, atingindo estonteantes US$ 232 trilhões no final de 2014!
O grande beneficiário foi, sem dúvida, o topo rico e rentista da pirâmide social. Em suma, os juros negativos combinados com superliquidez funcionaram como poderoso anabolizante do valor dos ativos.
Anabolizante faz mal à saúde e este não foge à regra. Uma subida dos juros, por mais lenta e cuidadosa, tende a gerar turbulências baixistas perigosas sobre os preços dos títulos, ações, ativos e moedas. Agentes financeiros alavancados (atenção carry traders!) e países em desenvolvimento com déficits externos grandes e fragilidade fiscal serão, como sempre, vítimas preferenciais. Por isso o Fed pisa em ovos e vem protelando tanto o momento de partida quanto o alcance do processo de “normalização” das taxas de juros.
O consenso é que taxas baixas vieram para ficar por longo período; i.e. depois do ajuste os juros de curto prazo não poderiam ir muito além de 1,5% ao ano. Esta perspectiva confessa a armadilha em que os grandes BCs se enfiaram: se, à frente, vier uma recessão as políticas monetárias não terão mais potência pela incapacidade de baixar significativamente os juros, posto que estes já estarão em níveis muito baixos. Diante disto, analistas respeitados vêm propondo a retomada do ativismo das políticas fiscais sem, contudo, apontar como contornar, no contexto atual,o risco de baixa eficácia dos efeitos multiplicadores dos gastos públicos.
Ao que parece a Grande Crise Financeira, que recém completou 8 anos, ainda terá pela frente um longo período de vicissitudes desemprego alto, baixo crescimento, comércio mundial anêmico. Como a ação do Estado, as grandes transformações tecnológicas, os investimentos em infraestrutura sustentável, poderão modificar esse prospecto e como o Brasil poderá retomar sua trajetória de desenvolvimento serão temas de próximos artigos.
Luciano Coutinho, economista, foi presidente do BNDES.
Publicado no jornal Valor Econômico
