Luciano Siqueira: Tempo bom, tempo ruim

A luta transformadora não se dá em linha reta, acumulando conquistas indefinidamente. Sempre está sujeita a idas e vindas, a êxitos e a retrocessos.

Mesmo quando se alcançou vitórias de valor estratégico, como o advento da República lá atrás e a derrocada do regime militar mais recentemente, predominou um traço característico da sociedade brasileira que é o das rupturas inconclusas.

Ainda que fruto da pressão da sociedade “por baixo”, mediante a mobilização popular, têm comportado acordos “por cima”.

A correlação de forças dada nem permite excluir plenamente a classe dominante dos círculos de poder, nem um exercício pleno do poder pelas forças democráticas e de esquerda eventualmente vitoriosas.

A assunção de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República é um importante marco de nossa história recente. Nos 14 anos de hegemonia da coalizão democrática, sob a liderança do PT, verificaram-se avanços significativos — na afirmação da soberania nacional, no alargamento do ambiente democrático e na inclusão de cerca de 40 milhões de brasileiros e brasileiras ao sistema produtivo e ao mercado de consumo.

Entretanto, tais conquistas não se respaldaram em alterações no aparelho estatal, cuja essência elitista jamais foi alterada, mesmo com a Constituição “cidadã” promulgada em 1988.

Assim, a “era Lula-Dilma” esbarrou no principal obstáculo ao avanço civilizatório brasileiro: o Estado conservador, sob controle dos círculos financeiros nativos em entrosamento com o capital financeiro internacional.

O funcionamento do Estado, em larga medida e em todas as esferas, sofre a influência desse condicionante, em articulação com a sempre forte representação partidária conservadora e de direita e o complexo mediático monopolizado.

A reação às mudanças jamais cessou, inclusive quando a aliança entre a esquerda e o centro proporcionou condições razoáveis de governabilidade.

Produto dessa correlação de forças foram as crises políticas que se sucederam intermitentemente nos oito anos de Lula e, de modo decisivo, no segundo governo Dilma.

Infelizmente, as forças então governantes – o PT em especial – careceram de discernimento político e competência técnica para contornar tamanho obstáculo.

A imaturidade política e ideológica, digamos assim, levou inclusive a expectativas ilusórias no relacionamento com correntes políticas reacionárias e segmentos da elite rentista.

Muitos flancos foram abertos e tão logo convergiram o agravamento da crise econômica (articulada com a crise global) e uma maioria parlamentar de centro-direita urdiram-se as manobras golpistas que resultaram no impeachment da presidenta Dilma e na interrupção do ciclo mudancista iniciado em 2003.

Compreender essa equação em profundidade e extrair lições pertinentes importa agora na organização da resistência democrática e popular.

Luciano Siqueira

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