Eleições 2016: Conservadorismo, fragmentação partidária e recusa à política

Para o vice-presidente do PCdoB, Walter Sorrentino, apesar de que ainda haverá 2º turno em 55 cidades, os resultados políticos atestam desde já o reflexo da onda golpista no país, com clara inclinação conservadora na sociedade e no mundo político. “Ao mesmo tempo, de certo modo, revelam a polarização que marca a sociedade, seja pela resistência ao golpe – cujas forças não são pequenas, embora tenham se dividido -, seja pelo lado da crise de representação, com a fragmentação do sistema partidário e recusa à política”.

Ele destaca que houve maior pulverização de legendas que alcançaram posições em governos municipais. Neste pleito, 31 partidos elegeram prefeitos; em 2012, foram 26. “Mas nas cidades que ainda completarão a segunda volta, fica mais expressiva a fragmentação – serão 8 candidatos do PSDB, 6 do PMDB, 3 cada do PSB e PSD, 2 cada PSOL, PR, PDT e PMN, 1 cada PCdoB, PHS, SD, PRB, PHA, PPS, PT, REDE, PTB e PP”.

Sorrentino ressalta ainda os percentuais recordes de abstenções, mais votos brancos e nulos, que ficaram entre 25% e 35% ou mais em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital de São Paulo, ultrapassaram os votos do prefeito eleito, João Doria, do PSDB. Aliás, como estampa a mídia, venceriam as eleições em nove capitais. Para o dirigente comunista, os números expressam um “sentimento antipolítica, mesmo com as campanhas politizadas em grau elevado, envolvendo a noção de campos políticos em disputa e as respostas aos problemas da população e das cidades”.

Segundo ele, em termos políticos, o fenômeno mais marcante dessas eleições foi a queda de votação e conquistas de governos por parte do PT. “Evidenciou-se com clareza o efeito antipetismo bruto, alimentado diuturnamente na ofensiva do consórcio político, empresarial, midiático e judicial contra a esquerda, Lula e Dilma”, analisa.

Além disso, aponta, forças contrárias ao golpe se dividiram. “Mesmo assim, importa registrar a alta resiliência da polarização PSDB X PT em São Paulo, dado que Haddad ficou em segundo lugar, embora com a menor votação histórica do PT na cidade. O recado do eleitor foi claro: voto útil em Doria para isolar o PT, deslocando os votos de Russomanno e Marta que, todos juntos, investiram na invisibilidade e isolamento do prefeito Haddad durante toda a campanha, orquestrados pela mídia conservadora”, diz Sorrentino.

O vice-presidente nacional do PCdoB sublinha ainda que, entre os partidos, o PSDB saiu vencedor no pleito, dada a vitória na capital paulista e os resultados do governador Geraldo Alckmin no Estado – o que faz parte de sua ofensiva pela candidatura presidencial em 2018. O partido levou duas capitais (São Paulo e Teresina) já no primeiro turno e participará da disputa no segundo turno em outras oito.

“Essa vitória acentua as contradições entre as forças que assaltaram o governo central, não só entre Aécio, Alckmin e Serra, como, principalmente, com o PMDB. Temer não comandou o golpe para se desvencilhar do PT e cair no colo do PSDB, à guisa de fazer o ‘serviço sujo’, como afirmou FHC, para aplainar o caminho de uma pretensa vitória presidencial tucana em 2018. Essa briga promete”, prevê o dirigente.

Nas capitais – afora o mau resultado do PT, que só venceu em Rio Branco e vai ao 2º turno no Recife – avançaram na votação do 1º turno o PSD, PR e PRB; recuaram PSB e PSOL; mantiveram-se estáveis PMDB, PDT e PCdoB. “Mas, para quase todos, politicamente tudo dependerá do resultado do 2º turno. O PCdoB em Aracaju, o PSOL em Belém e Rio de Janeiro, o PRB no Rio de Janeiro, por exemplo”, avalia Sorrentino.

Para ele, no quadro dos prefeitos eleitos em todo o país já neste turno, o mais marcante foi também a queda do PT em todo o país – as candidaturas majoritárias do PT receberam cerca de 6,8 milhões de votos, contra 17,2 milhões em 2012. Nacionalmente, o PT caiu de 630 para 231 prefeituras. Em São Paulo, o PT passou de 70 prefeituras para apenas oito. Isso foi seguido, em outra proporção, pelo recuo de prefeitos eleitos do PSB, PTB e DEM, PPS e PV, e atºe do PMDB.

Avançaram, além do PSDB, o PSD, PCdoB, PRB e PHS. Mantiveram-se estáveis o PP, PDT, PR e PSOL (com 3 prefeitos eleitos). Por último, debutaram as legendas REDE, PROS, SD, PSL, PMN, PTN, PRP, PTdoB, PTV, PRTB, PPL, PMB e PEN.

PCdoB: mais prefeitos e vereadores 

De acordo com Sorrentino, o PCdoB alcança resultados “importantes, embora modestos” nesse contexto político. O partido lançou 320 candidatos a prefeitos em todo o país, e elegeu 80, ou seja, 25% do total. Alcançou 1,77 milhão de votos, mais os que computará no 2º turno em Aracaju (SE) e Contagem (MG).

Em 2012, a legenda tinha conquistado 56 prefeituras. O que significa que houve um crescimento de 57% já no 1º turno em número de governos alcançados, que somam uma população de 2,12 milhões de habitantes. A isso, devem se somar os números de eventuais vitórias em Aracaju e Contagem.

“Dos objetivos políticos traçados no projeto do partido, priorizando as grandes cidades do país, confirma-se o êxito provisório em Aracaju com 38,76% dos votos, primeiro lugar. Nas demais capitais, os candidatos fizeram 14,55% em Salvador, 4,36% em Florianópolis, 3,34% no Rio, 0,76% em Belém – sempre em votos válidos. Nas capitais manteve a votação estável (0,41% dos votos contra 0,46 em 2012)”, detalha Sorrentino.

Os candidatos a prefeitos apoiados pelo PCdoB venceram já no 1º turno em quatro capitais – Teresina, Boa Vista, Rio Branco, João Pessoa. Vão a 2º turno em outras sete – Curitiba, Recife, Fortaleza, Vitória, Maceió, São Luís e Macapá, afora a já mencionada Aracaju.

O dirigente aponta como uma marca negativa dessas eleições o fato de o PCdoB não ter conseguido chegar ao 2º turno em Olinda, com Luciana Santos, e no Rio, com Jandira Feghali. Além disso, o partido perdeu vereadores em São Paulo e Porto Alegre e não elegeu nenhum no Rio de Janeiro, três importantes polos das forças populares.

“Mas cumpriram-se outros importantes objetivos: ir ao 2º turno em Contagem (em primeiro lugar com 27,87% dos votos); ser o maior partido no Maranhão, onde o PCdoB elegeu 46 prefeitos (contava com 14 antes das eleições), dos 103 candidatos lançados (incríveis 45% eleitos; manter trajetória de crescimento do número de prefeitos eleitos em 57%; fazer 15% dos votos em Salvador, entre outros”, detalha.

Nas eleições proporcionais, foram eleitos mil vereadores em todo o país, superando as marcas de 2012 (948 eleitos). Foram 20 vereadores em 15 capitais (menos que os 22 em 17 capitais em 2012). Elegeram-se nas capitais do AC, AM, SE (2), BA (2), CE, GO, MA (3), MG, PB, PE, PI, RO, RR (2), PA(2). O partido perdeu vereadores nas capitais de SP, RS, ES, ao tempo em que recuperou vagas na Câmara Municipal da capital em PI e PB e não conquistou nas capitais do RJ e RN.

“Há um predomínio absoluto dos eleitos na Região Nordeste, em primeiro lugar Maranhão, 252, seguido da Bahia – respectivamente 212 e 208. Juntos, a região totaliza 696, quase 70% do total nacional. Seguem-se a esses Estados os bons resultados de Minas Gerais e Ceará, nesse quesito. Há nítido declínio em SP e RJ no número de vereadores eleitos, em comparação com os que integravam a legenda no início de 2016, embora em SP com êxitos nas grandes cidades”, indica o vice-presidente.

Nas cidades com mais de 200 mil eleitores, 92 no total, foram eleitos 32 vereadores em 9 Estados. Em relação às demais 212 cidades do país com mais de 100 mil habitantes, o partido aguarda a compilação de mais dados, para comparação com os resultados de 2012.

“Esses dados motivarão importantes análises políticas. A Comissão Política Nacional se reúne nesta próxima sexta-feira (7), para se debruçar sobre o tema, com mais informações e análises provindas dos Estados e exame pelo conjunto dos dirigentes nacionais”, afirma Sorrentino.

Segundo ele, na ocasião, será debatido um alinhamento nacional coerente das posições a serem adotadas no próximo turno, em locais nos quais os candidatos do PCdoB não se fazem presentes. E as avaliações servirão de base para a formulação de uma nova tática e projeto político necessária para as forças políticas progressistas e de esquerda nesta hora.

“Será preciso contextualizar os resultados no ambiente político nacional de predomínio conservador e de crise da esquerda, mesmo no contexto latino-americano – por exemplo, com a incrível recusa ao Acordo de Paz entre governo e Farc. Tudo isso ensejará elementos para formulação de nova tática das forças de esquerda e progressistas, para resistir e abrir perspectivas novas para o Brasil e o povo brasileiro”, encerra.

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