Vanessa Grazziotin: Em vez de paz, temos um país conflagrado

Logo após a consumação do golpe parlamentar e da sua posse, Michel Temer foi taxativo: “É hora de tentar pacificar o Brasil”. Passados pouco mais de seis meses no cargo, em vez de paz temos um país conflagrado.

De um lado, estudantes reagindo com centenas de escolas e repartições públicas sendo ocupadas, diversas categorias profissionais aprovando indicativo de greve e as manifestações de rua se multiplicando.

Escolas estão sendo ocupadas porque alunos e professores foram ignorados quando se impôs a eles a reforma do ensino médio e um horizonte de congelamento dos investimentos em educação. Em vez do diálogo, truculência e repressão e, para acirrar ainda mais os ânimos, Temer os chama de ignorantes.

Contra a PEC 55, que congela investimentos sociais, salários e retira direitos, os movimentos sociais se mobilizam em todo o país. Os trabalhadores começam a compreender que são os únicos chamados a pagar o pato.

Em detrimento deles, o governo prioriza o pagamento de uma dívida pública que só cresce com as mais elevadas taxas de juros do planeta. Para a farra dos especuladores, foram reservados R$ 870 bilhões no Orçamento de 2017.

Por outro lado, grupos de direita, que apoiaram o golpe, rasgam acintosamente a Constituição e fazem provocações ao invadirem a Câmara dos Deputados propondo a volta da ditadura militar.

Para agravar ainda mais a situação, assistimos atônitas e perplexas ao avanço do crime organizado com a complacência e participação de setores da própria polícia. No último fim de semana, no Rio de Janeiro, foram horas de tiroteio e vias interditadas. A morte de quatro policiais em queda de um helicóptero — fato carente ainda de explicação mais sólida–, teria causado uma operação de retaliação que levou à morte sete moradores.

No governo, a calmaria também passa ao largo. Além das novas denúncias da Lava Jato, envolvendo o próprio presidente, cai mais um ministro, o quinto. Marcelo Calero (Cultura) pede demissão e acusa um dos homens fortes de Temer, o ministro Geddel Vieira Lima, de tráfico de influência, em outras palavras, corrupção.

Tais fatos, somados ao baixo índice de popularidade do presidente e aos péssimos resultados da economia, apontam um cenário gravíssimo, que tende a piorar com a aplicação das demais medidas de austeridade contra o povo.

Depois do congelamento dos gastos públicos, vem aí as reformas da Previdência e a trabalhista, o que deve aprofundar a conflagração social. O quadro tende a piorar, uma vez que todas as previsões são de um cenário de maior recessão. Em suma, essa é a triste realidade de uma nação que teve sua jovem democracia apunhalada.

Publicado no jornal Folha de São Paulo

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Um comentário

  1. Isto e a pomada tampon da ultradireita que esta levando a povo a concientizarse da realidade do gigante ao servico das minorias,banqueiros os trust internacionais,a luta social sera forte ,agora mais unidade da esquerda,centro e movimentos sociais.Nossa meta e Vencer con unidade amplia.

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