Walter Sorrentino: A Chacina da Lapa e nossas vidas

Eu iria ao 6o. ano de Medicina, na USP/Ribeirão Preto. Em 1976 tínhamos alcançado grandes vitórias políticas. Eu presidia o Centro Acadêmico Rocha Lima e nos preparávamos para relançar o DCE da USP, fechado pela ditadura. Fizemos a sucessão em meio a grandes disputas, pois lá atuavam, além da direita, a Libelu e a Refazendo além de nós, a Caminhando, pelo PCdoB. Eu participara diretamente da elaboração do documento da Caminhando, um autêntico programa revolucionário – curioso que fosse para o ME. A eleição anterior fora renhida, onde disputei com Sócrates Brasileiro, nesta ocasião pela direita, e Joel Machado, que viria a ser futuro presidente municipal do PT, já falecido.

A direita era brava, não o próprio Sócrates. Desde 1973, quando fui calouro, ela se articulava entre o CCC, a Diretoria da Faculdade e o DOPS, então comandado por um esbirro da ditadura que chegou a ser excomungado pelo Papa, por ter torturado um freira com requintes de crueldade e estupro utilizando vela. Doutor Renato era seu nome. Tempos duros. Éramos chamados na mídia e na direção da escola como criptocomunistas da “ala maoísta”.

Mas o PCdoB crescia e se fortalecia. Dirigia o Centro Acadêmico, a Liga de Assistência Médica e Social que tinha muitos contatos com o povo e a própria liga atlética estudantil, forte e, em geral, reduto da direita que combatia a “política”.

Em novembro de 1976 alcançamos enorme trunfo: elegemos em Ribeirão Preto um vereador, advogado trabalhista, pelo MDB autêntico, formando ao lado do ex-deputado combativo João Cunha. Dirigíamos uma grande e inédita greve que deu muito que falar: foi a primeira greve do país para exigir direito automático à Residência Médica na própria Faculdade que tinha a obrigação de formar-nos médicos. Eu era um dos principais líderes da greve que marcou o cenário na escola e na própria cidade. Fomos vitoriosos, mas em meio a duros embates e muitas ameaças que provinham do próprio DOPS avisando-nos de que estavam com operações que visavam a prender-nos. Uma colega de turma, nora do Secretário de Segurança de Erasmo Dias, de triste memória, me ajudou dizendo que mesmo no âmbito estadual estávamos visados “para ser presos”.

Nessa ocasião nos aproximamos, Sócrates e eu, no que depois foi uma boa amizade feita de respeito. Sócrates tinha o Corínthians como futuro, certamente também a seleção brasileira. Ponderou-me, com equilíbrio, que estava pressionado de todos os lados para não aderir à greve, o que implicava em ser ‘fura-greve”. Negociamos a situação, eu e ele, procurando diminuir danos para ambas as partes.

Tínhamos grandes perspectivas para 1977. Os contatos com o partido eram altamente segmentados e compartimentalizados, com duras regras de “pontos”, esparsos. Eu era o principal responsável por eles nesse momento. Para nós as regras eram ainda mais duras, porque (sem sabê-lo) tínhamos ingressado no PCdoB pela “estrutura dois”, ou seja, junto com os provindos da AP que se incorporara ao Partido, apartados da estrutura anterior do PCdoB..

Em meio às duras contendas estudantis, vinha eu de um plantão cansativo no dia 17 de dezembro, às seis horas da manhã, para mais uma reunião do partido. Fazíamos reunião pelas madrugadas, pois o curso de medicina era altamente exigente. Chegando ao local, percebi que algo muito grave ocorrera – todos estavam em estado de torpor. As manchetes informavam ter ocorrido a Chacina da Lapa.

Estupor, tristeza, ódio são palavras pobres para o sentimento que tomou conta de todos nós. A minha própria vida mudaria dramaticamente a partir daí.

A primeira orientação recebida do partido, em meio a grandes riscos de segurança, era seguir em frente, sem contatos com a direção. Mas de saída a ordem: eu deveria sair de Ribeirão Preto imediatamente, porque se considerava que na Lapa estavam materiais da campanha vitoriosa de nosso vereador eleito, o que punha em risco toda a estrutura partidária local que eu liderava.

Não pude aceitar tal orientação. No ano em que me formaria, sendo um dos principais líderes estudantis da cidade e, ainda, organizando um trabalho popular de expressão nessa cidade bem como em Sertãozinho, onde atuávamos para a construção de um forte Sindicato dos Metalúrgicos, eu teria que entrar na clandestinidade quando avançava a luta contra a ditadura – em 1978 viria a Anistia.

Impasse. A solução foi dolorosa. A orientação – na ocasião dada por César José, o Alemão, de quem tenho uma memória afetiva forte – era para que eu me desvencilhasse de qualquer atuação política após a greve (finda com vitória no início de 1977), dizendo que “ia estudar” e não poderia mais me ocupar da política: ao fim do curso deveria me retirar do PCdoB. Enfim, simular um “desbunde” político. Poucas coisas me doeram mais que isso na minha atividade partidária.

Dito e feito. “Dei baixa”, teria que combater de outros modos. Ao final do ano minha turma estava dividida radicalizadamente, havendo duas formaturas, duas festas, dois discursos – um dos quais o meu, representando parte da turma. Casei-me e me desloquei a Caieiras, periferia de São Paulo, trabalhando na Secretaria Estadual da Saúde como pediatra, assim como a mãe de meus filhos, Sara Romera Sorrentino.

Durante quase 3 anos, trabalhando no Centro de Saúde, as madrugadas e fins de semana eram ocupadas com duro trabalho dado pelo partido. Recebíamos  notícias irradiadas pela Rádio Tirana (pouco tempo atrás fiquei sabendo que isso provinha de Carlos Azevedo e sua companheira Lúcia, gratos e queridos amigos até hoje). Muitas vezes eram manuscritas. Eu e Sara datilografávamos, editávamos, púnhamos títulos com letraset, gravávamos em estêncil eletrônico, imprimíamos em offset (a máquina pesava 23 quilos); havia que transformá-los em jornais formato A4, separar as páginas, grampear e empacotar 30-40 ou 50 mil exemplares de A Classe Operária, sendo levadas clandestinamente a um ponto marcado mensalmente para a distribuição pelo partido.

O trabalho era essencial para retomar o trabalho de direção do partido. Tudo tinha que ser clandestino ao extremo, inclusive junto à própria família, durante as madrugadas e sem levantar suspeita. Nesses anos nasceram dois de meus três filhos – Pedro em homenagem a Pomar e Isa. Os avós paternos e maternos, além dos amigos e outros parentes, praticamente não tinham chances de vê-los com frequência. Foi sofrido para eles, mas em ambiente de muito amor e esperanças.

Nesses anos a luta contra a ditadura avançava e nós éramos muito procurados por antigos companheiros para ocupar “nosso lugar”, ao que tínhamos que responder que nos havíamos afastado da atividade política. Essa foi a segunda coisa que marcou dolorosamente minha trajetória partidária, mas com consciência de que era necessário.

Assim, seguíamos clandestinos quase às portas da atividade aberta do PCdoB e da luta popular. Entretanto, houve um furo no esquema, autorizado pelo partido. Minha cunhada, Ieda Romera, militante estudantil, dava apoio a Clovis Goldenberg na prisão como militante do PCB. Quando Haroldo Lima foi enviado às mesmas dependências, Ieda fez o primeiro contato entre a direção e Haroldo, insuspeitos pela personagem e pelo esquema: letras escritas com leite, no reverso do papel aluminizado de maço de cigarros rigorosamente íntegros; ou então, longas mensagens que eram memorizadas por mim, depois por ela e transmitidas oralmente a Haroldo. O remetente era o “cara dos peixes”.

Fora disso, o tempo chegou: apresentei minha proposta de sermos deslocados da tarefa em 1981 ao nosso saudoso Dynéas Aguiar, o “Careca”. Do início do ano até o começo de 1982, servi de estafeta para reuniões do Comitê Central que se reunia em minha casa com fortes medidas de segurança.

Só em 1982 retomei atividade aberta no partido, causando algum estupor entre muitos companheiros. Dediquei-me desde logo à luta popular, mas também institucional e à direção estadual do partido, para a qual fui eleito no fim de 1982. Foram meus momentos gratos que me fizeram o que sou hoje.

Então, seguíamos clandestinos quase às portas da atividade aberta do PCdoB e da luta popular. O tempo chegou: apresentei minha proposta de sermos deslocados da tarefa em 1981 ao nosso saudoso Dynéas Aguiar, o “Careca”. Do início e até o fim de 1982, servi de estafeta para reuniões do Comitê Central que se reunia em minha casa com fortes medidas de segurança. Dynéas morava conosco e lá compareciam Amazonas, José Duarte  entre outros.

Só em 1982 retomei atividade aberta no partido, causando algum estupor entre muitos companheiros. Foi meu momento grato ao qual me dedico até hoje.

Foi assim que a Chacina da Lapa mudou minha rota, como a de todos nós comunistas. Após essas peripécias, lutando mais abertamente pela legalidade do PCdoB (alcançada em 1985) fui preso e processado pela Lei de Segurança Nacional, no último trimestre de 1984. O país embalado nas Diretas Já, os porões tentando covardemente sobreviver.

Eu presidia o Centro de Estudos Políticos e Sociais, em São Paulo, uma fachada para a sempre presente Escola Nacional do PCdoB. A entidade foi invadida com armas nas mãos, num grande aparato que fechou um quarteirão, foram levados mais de 70 companheiros e companheiras que assistiam às aulas e levados ao DOPS.

Era o último soluço da ditadura. Esbirros da PF, comandados por Romeu Tuma, acionaram um enorme aparato em  SP e um outro Estado do Nordeste. Invadiram a casa de João Amazonas e levaram tudo que havia de arquivos. Minha casa foi invadida por uma horda de policiais, chefiados pelo esbirro delegado Dr. Veronesi, com armas nas mãos e na presença de meus filhos então com 6 e 4 anos; também levaram toda uma biblioteca formada com sacrifícios e todo arquivo que eu armazenava.

A ditadura foi atropelada em 1985. A Chacina da Lapa, assim como tantos outros combates travados por nosso povo em nome da Liberdade e Justiça, venceram. É assim a luta.

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