Manoel Rangel: O audiovisual brasileiro e a arte de construir


O ano começou especial para o cinema brasileiro. Estamos na competição em três dos principais festivais internacionais: Sundance, Roterdã e Berlim. Na Berlinale são 12 filmes nacionais; em Roterdã, 15. Tivemos, em 2016, 30,4 milhões de ingressos vendidos e 143 filmes lançados. Agora vemos “Minha Mãe é uma Peça 2” ultrapassar 8 milhões de espectadores.

Foto: Arquivo pessoal de Manoel Rangel

 Manoel Rangel é diretor-presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine)

Manoel Rangel é diretor-presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine)

Esse cenário de sucesso foi gerado pelo suor e talento de realizadores, artistas e empresários para fazer uma cinematografia plural, que reúna inovação e intimidade com o público. Não há sucesso espontâneo.

Para florescer e produzir resultados, o setor conta com uma política pública bem-sucedida, feita a muitas mãos, com visão estratégica, diálogo, obstinação e resiliência. No cerne disso esteve a Ancine.

Nos seus 15 anos, a Agência Nacional do Cinema formou seu quadro técnico e um corpo dirigente, implantou sistemas, reuniu dados, construiu a regulação da atividade, desenvolveu o setor e orientou-se por fazer do Brasil um grande centro produtor e programador.

Coerente com nossa missão, avaliamos o trabalho pelas mudanças reais na vida dos brasileiros. Apesar da crise, o audiovisual cresce 8% ao ano. Havia 1.635 salas de cinema em 2002; hoje são 3.160, o parque exibidor mais moderno da história, todo digitalizado. Havia 3,5 milhões de assinantes de TV e um canal dedicado ao conteúdo brasileiro. Hoje são 18,8 milhões, e 105 canais exibem ao menos seis horas semanais de audiovisual brasileiro.

Implantamos um sistema de financiamento com mecanismos automáticos, que premiam o desempenho artístico e comercial, e seletivos, que renovam o mercado.

Construímos um arranjo regulatório sólido, com amplo apoio do setor e da sociedade. Os presidentes Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff viabilizaram o ambiente propício ao salto que demos. Michel Temer vai se somar a eles ao renovar os mecanismos fiscais, conforme anunciou em novembro. Câmara e Senado firmaram seu apoio ao aprovar leis estruturantes.

Nosso Plano de Diretrizes e Metas tem orientado o desenvolvimento. Trilhar esse caminho significa construir respostas a desafios diários. No futuro não será diferente. É preciso um marco regulatório para o vídeo sob demanda que ofereça segurança jurídica, remova barreiras, garanta qualidade e tenha compromisso com o conteúdo brasileiro.

Na distribuição de filmes, agora digitais, há um fosso entre grandes e pequenos lançamentos. Temos também a oportunidade de construir ações para que o Brasil seja forte no mercado de jogos eletrônicos.

Apesar das conquistas, há muito a fazer. Para quem dirige a Ancine, o interesse dos brasileiros deve ser a baliza desses desafios. Posição de equilíbrio frente aos interesses privados é uma exigência. Isto só é conquistado com convicção de propósitos e habilidade para cultivá-los.

Nossa história mostra o quanto é difícil construir. O cinema brasileiro já se pensou condenado aos ciclos. A Ancine, autarquia especial que reúne o melhor das experiências internacionais de regulação e fomento, é uma aposta na institucionalidade e permanência.

“Oxóssi não atira na caça, atira onde a caça vai passar”, disse Gustavo Dahl, nosso primeiro presidente. A Ancine se fez assim e gostamos de nos ver desse modo. Como cantaram Milton Nascimento e Elis Regina, em outro momento: “se muito vale o já feito, mais vale o que será!”.

*Manoel Rangel é cineasta e diretor-presidente da Ancine (Agência Nacional do Cinema)

Fonte: Folha de São Paulo

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