Em eleição histórica, Equador escolhe substituto de Correa

Em 2007, quando Rafael Correa foi eleito presidente do Equador pela primeira vez, Lenín Moreno era um coadjuvante. Dez anos depois, o ex-vice-presidente por dois mandatos é quem pode fazer história. Se vencer as eleições, com primeiro turno marcado para 19 de fevereiro, Moreno garantirá a permanência da esquerda no poder e se tornará o primeiro cadeirante a chegar ao mais alto cargo do país.

por Murilo Matias

 

Divulgação

Rafael Correa deixa a presidência depois de duas eleições

Rafael Correa deixa a presidência depois de duas eleições

A trajetória de Moreno está intimamente ligada à questão das pessoas com deficiência. Em 1998, quando era diretor da Câmara de Turismo de Pichincha, segunda mais populosa província do Equador, Moreno foi baleado em um assalto e perdeu a mobilidade das pernas.

Como vice-presidente, organizou a Missão Manuela Espejo, programa que revolucionou a vida das pessoas com deficiência no Equador e o credenciou a atuar como enviado especial da ONU sobre descapacidade e acessibilidade.

“Somos um milhão de pessoas com algum tipo de deficiência. Estávamos marginalizados antes de Correa e de Lenín, que percorreu até o último rincão para saber quantos somos, como vivemos, do que necessitamos”, afirma o congressista Richard Fárfan, eleito em 2003 pelo estado de Loja. “Lenín é humano, solidário e vai governar por sua preparação e inteligência”, afirma Fárfan, do Aliança País, o mesmo partido de Moreno.

Portador da poliomelite e candidato à reeleição, Farfán destaca medidas como o registro nacional das pessoas com deficiência, a inclusão educacional e trabalhista e os centros de referência que tornaram o Equador vanguarda na abordagem do tema.

A liderança de Moreno no projeto fortaleceu sua posição dentro da Revolução Cidadã e transformou-se em marca da campanha que defende a continuidade dos avanços com a ideia de que “o futuro não se detém”. O denominado socialismo do século 21 elevou o salário para próximo dos 400 dólares, controlou a inflação – uma refeição pode ser encontrada por dois dólares –, democratizou espaços públicos ao abrir clubes militares, financiou a qualificação de professores e enviou dez mil estudantes ao exterior.

A criação da União das Nações Sulamericanas (Unasul), em um momento em que vizinhos sul-americanos despontavam governos de esquerda, e o asilo ao criador do WikiLeaks, Julian Assange, consolidaram uma política externa marcada pela altivez.

Dentro das fronteiras, o incentivo ao consumo de itens produzidos internamente por meio do Ecuador Primero, o salto como polo turístico e os programas de transferência de renda, algumas no modelo do Bolsa Família, tiraram mais de um milhão de pessoas da pobreza e contornaram as oscilações do preço do petróleo, fundamental para a economia local.

A maioria na Assembleia Nacional foi primordial para dar suporte às medidas implementadas. Dos atuais 137 membros, cem estão alinhados ao governo. A casa, presidida por Gabriela Rivadeneira, e composta por 43% de mulheres, também renovará seus representantes. “É a melhor época que vivi. Um lugar democrático, o orgulho de ser equatoriano se sente mais do que nunca. Seremos um bastião da esquerda na América Latina”, afirma Jimmy Henriquez, eleitor de Quito.


Rafael Correa e Lenín Moreno em ato de campanha

Nesse contexto, Moreno aparece à frente em todas as pesquisas, superando Guilermo Lasso e Cynthia Viteri, as duas principais forças da oposição. Os índices atuais de intenção de voto em Moreno são similares aos consolidados por Correa quando de suas reeleições em 2009 e 2013, sem o segundo turno. A permanência do líder configura um marco de estabilização de uma nação que teve sete presidentes na década de 1990.

Limites do correismo

A capacidade de articulação dos grupos opositores também se faz sentir. A tentativa de um golpe quase tirou o presidente do poder em 2010 devido a uma revolta de parte da cúpula policial descontente com modificações na segurança pública.

Para parcela da população, Correa representa um líder autoritário e o expoente de um grupo cuja marca maior é a corrupção. Um dos casos de suposto desvio de verbas envolve a empresa brasileira Odebrecht, presente em várias obras nas 224 cidades do país.

A eleição recente de prefeitos oposicionistas em Quito e Guayaquil, maiores centros urbanos do país, aponta para o desgaste do líder, que também entrou em atrito com um dos mais antigos movimentos sociais por conta de um projeto de mineração na região de Morona Santiago contestado pela população originária.

A tensão fez com que as Forças Armadas fossem enviadas ao local, que encontra-se em estado de exceção. “O Estado de exceção serviu para militarizar Morona, tornar vulnerável os direitos dos indígenas e perseguir dirigentes. Chamamos a intensificar a solidariedade nacional e internacional para com nossos irmãos”, diz trecho do boletim assinado pelo presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), Jorge Herrera.

A oposição diária dos grandes veículos de comunicação, o crescimento da direita no cenário mundial e o desemprego superior a 5%, levaram Correa a ser desaprovado por metade dos cidadãos, segundo pesquisa do Instituto Cedatos publicada no final de 2016.

Ademais, há dúvidas sobre a unidade da Aliança País, uma vez que Jorge Glass, atual vice, seria o candidato preferido de Correa por ter gerenciado projetos estratégicos da gestão e ser próximo do setor empresarial.

A direita, por sua vez, ensaiou um processo de unificação que perdeu força com as desavenças entre seus mandatários. O Partido Social Cristão (PSC) busca reviver seus melhores tempos apresentando a única mulher entre os concorrentes. Cynthia Viteri, congressista desde 1998, tenta conjugar propostas na área social como a construção de cinquenta mil creches, ao mesmo tempo em que defende o liberalismo.

“Os equatorianos têm uma preocupação em todos os lugares. Quem tem trabalho, teme perdê-lo e quem não tem está desesperado. Nosso esforço é devolver o emprego e criar fontes de trabalho. Para isso, no setor público não entrará ninguém mais. O único que empregará será o setor privado”, sentencia o economista e candidato a vice, Mauricio Pozo (PSC).


Os três principais candidatos do Equador: Lenín Moreno, Cynthia Viteri e Guillermo Lasso

Pesa contra Viteri o machismo e a estrutura acanhada de seu partido no plano nacional. A situação a coloca em desvantagem quando comparada a Guillermo Lasso, candidato do mesmo campo ideológico.

Derrotado por Correa em 2009, o ex-governador nomeado de Guayas tenta descolar-se da imagem de burocrata e de ser o protagonista do Feriado Bancário, decisão que levou ao endividamento do estado equatoriano e à diminuição dos gastos sociais nos anos 1990.

A plataforma do líder do Movimento Criando Oportunidades (Creo) sugere o aprimoramento de políticas como a Missão Manuela Espejo ou o Bônuns Cidadão para atrair votos das classes populares.

“Nossas projeções indicam que chegaremos à frente. Ocorre um fenômeno político em que muita gente tem medo de declarar o voto por temer represálias do governo”, afirma o congressista Diego Salgado (Creo). Ele espera ampliar para 40 membros sua bancada, diante dos oito atuais. “Esse voto de medo as pesquisas não captam”, diz.

A quarta via vem do general Paco Moncayo, da Esquerda Democrática. O ex-prefeito de Quito figura com poucas chances, mas pode ser um apoio cobiçado em caso de segundo turno. “Não é só uma eleição entre dois modelos antagônicos. Na ausência de Correa a sucessão é posta à prova. Moreno tem a tarefa de enfrentá-la frente a opositores que representam o mesmo. A batalha eleitoral é no Equador, mas toda a região está implicada”, aponta em artigo, Alfredo Mancilla, diretor do Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica.

O fato novo da eleição

Moreno e Lasso concentram a maior parte da propaganda, que não conta com tempo gratuito na televisão ou rádio. É comum veículos de imprensa cederem espaços aos candidatos, que somam oito à presidência. Na outra ponta, o Tribunal Eleitoral entrega recursos aos partidos para financiar suas atividades.

Nas ruas de Guayaquil, a campanha está a pleno vapor. Eleitor de Lasso, Richard Heredivia é dono de um pequeno restaurante na periferia. As promessas de diminuir impostos, abrir a economia inclusive na área petrolífera e a gerar um milhão de empregos em quatro anos seduzem parte dos descontentes.

“Há o temor do continuísmo. O governo não reconhece a crise, todos os meses a população se endivida mais. Além disso, Lenín seria guiado por Correa”, afirma. A suspeita de influência é a mesma que pesava sobre Dilma Rousseff (PT) em sua primeira eleição, quando era apontada como um “poste” de Luiz Inácio Lula da Silva.

Junto à dúvida sobre sua independência e às acusações de receber valores indevidos do governo enquanto trabalhava na ONU, a questão física envolvendo o candidato situacionista coloca elementos novos no debate e nem sempre de bom tom.

A oposição apresenta um discurso dúbio. “Não vejo Lenín nas ruas, ele não fala muito. Quando foi vice não podia atender a oito horas de trabalho e a carga de um presidente é intensa, mas não quero discriminar ninguém”, afirma Salgado, parlamentar do Creo. “Para além, o Equador está muito caro, temos um modelo parecido com Cuba e Venezuela. Os dados são maquiados pelo correismo e, com a desvalorização do petróleo, os equatorianos voltaram à pobreza”, diz.

Com experiência de buscar votos em condição que exige adaptações, Farfán, que utiliza-se de muletas, contrapõe. “A campanha é difícil, não é a mesma de alguém sem necessidades, mas frente às adversidades Lenín não tem impedimentos. Viajamos aos estados, participamos de ações, o mais importante é o amor por nossa terra para seguirmos melhorando a vida das pessoas e trabalhando pelo projeto que mudou a história do nosso povo”.

Há três semanas da votação, os equatorianos, que no último ano enfrentaram um terremoto com um milhão de atingidos e 700 mortos, estão próximos de decidir qual linha será a escolhida para governar a nação de 15 milhões de habitantes. Caso a dúvida persista, o segundo turno ocorre em 2 de abril.

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