Vanessa: “Criminalização da política destrói a democracia”

Em discurso proferido na tribuna do Senado, nesta quarta-feira (19), a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) afirmou que há uma campanha de “criminalização generalizada da política” que pode resultar em graves consequências para o pais.

 

Agência Senado

 

Sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de abrir um inquérito contra ela para apurar as afirmações de delatores, a senadora salientou que apoia as investigações e as ações de combate à corrupção, mas advertiu: “Não podemos permitir que, por conta das investigações, que por conta das graves revelações, destrua-se a democracia. E nós estamos assistindo, infelizmente, à destruição da própria democracia, à criminalização generalizada da política”.

Vanessa lembrou que é preciso respeitar a Constituição e as garantias invividuais, pois “nenhum cidadão ou nenhuma cidadã pode ser condenado, previamente, por mera presunção”.

“O contraditório e a apresentação de provas são essenciais no Estado democrático de direito, seja para comprovar a inocência ou para comprovar a culpa”, detacou a senadora, que manifestou indignação diante das ilações lançadas contra a sua trajetória política.

Confira a íntegra do discurso:

 

Agradeço a V. Exª, Senador, e aos Senadores que me permitem falar neste momento. Aliás, agradeço ao Senador Paim, que foi quem fez a inscrição para que eu pudesse falar logo no início desta sessão do dia de hoje.

E quero dizer, Sr. Presidente, que eu não poderia, sendo esta a primeira hora em que chego ao Senado Federal, depois da divulgação, desde a semana passada, de muitas notícias relativas a acusações, a inquéritos abertos contra vários Parlamentares, políticos, pessoas públicas, eu não poderia deixar de vir a esta tribuna, Sr. Presidente, sem que este fosse o meu primeiro pronunciamento.

O ditado popular diz que num mundo de verdades e mentiras, todos temos medo da mentira, mas apenas os tolos têm medo da verdade. Outra célebre frase diz que a verdade sempre aparece. É uma das regras fundamentais do tempo. No campo do Direito, a jurisprudência é pacífica no sentido de que as pessoas públicas estão sujeitas a críticas no desempenho de suas funções. Todavia, essas não podem ser infundadas e devem observar determinados limites. Se as acusações destinadas são graves e não são apresentadas provas de sua veracidade, configurado está o dano moral. Essa é a jurisprudência pacífica no Poder Judiciário brasileiro.

Sabe-se perfeitamente que ninguém, que nenhum cidadão ou nenhuma cidadã pode ser condenado, previamente, por mera presunção. O contraditório e a apresentação de provas são essenciais no Estado democrático de direito, seja para comprovar a inocência ou para comprovar a culpa.

Esses são alguns axiomas, alguns postulados, portanto, que trago à tribuna no dia de hoje, para revelar a minha profunda indignação pela forma como casos tão diferentes têm sido tratados em um mesmo contexto. Ou seja, têm sido tratados de uma mesma forma. A meu ver, isso é mais do que grave. Isso é gravíssimo, porque leva à criminalização generalizada da política, o que pode resultar em graves consequências para o país.

Aliás, eu estou falando do episódio da semana passada, mas temos outro episódio de que podemos falar, que aconteceu ontem, recentemente. Trata-se de um vídeo gravado por três procuradores, onde uma das procuradoras…

No vídeo, primeiro, ele pedem que seja viralizada aquela mensagem, aquele vídeo, que espalham o máximo que puderem, colocando a população contra os políticos, de forma generalizada. Isso significa colocar a população contra o próprio Parlamento. Então, não dá para a política ser tratada dessa forma. E quando generalizam, quando colocam problemas de gravidades distintas, problemas diferentes, tudo da mesma forma, eu desconfio até se essas pessoas querem, de fato, resolver o problema do combate à corrupção ou se querem acabar com a política correta, criminalizando-a de forma generalizada.

Eu quero, mais uma vez registrar o meu irrestrito apoio às investigações, às ações de combate à corrupção. Eu quero mais uma vez, para evitar qualquer tipo de deturpação daquilo que falamos diariamente nesta tribuna, registrar o meu mais irrestrito apoio à Operação Lava Jato, cujo objetivo é combater a corrupção. E digo que, se queremos que tenha sucesso essa ação de combate à corrupção, as coisas não podem continuar a ser tratadas como estão, porque no fundo estão todos envolvidos, a política toda, como falou um procurador, são os políticos, e não há nem como punir, efetivamente, aquilo que seja a corrupção. Então, desde já digo que, desde a primeira hora, desde o primeiro momento… Aliás, a história do nosso Partido tem sido essa, a luta pela ética. E repito também: lutar contra a corrupção não é apenas uma bandeira que se levanta diante de um microfone ou de uma tribuna. Combater a corrupção é um exercício diário, é uma postura diária de cada um de nós. E eu tenho tranquilidade absoluta para dizer que, nesses 40 anos de vida pública, quase 30 anos exercendo mandatos parlamentares, posso dizer, com muita tranquilidade, que busquei na política não benefícios pessoais; eu busquei na política um caminho para lutar em favor da nossa gente, em favor do nosso povo.

No ano de 2005, ainda na condição de Deputada Federal, eu apresentei o meu segundo projeto, que reformava o sistema eleitoral brasileiro, que atacava diretamente a contribuição de campanha, Sr. Presidente. O projeto que apresentei, à época, tomou o nº 5.826. Portanto, ninguém pode falar que, naquela época, já tenha havido oportunismo. Pelo contrário: apresentei um projeto num momento em que poucos questionavam o modelo de financiamento empresarial de campanhas. O Projeto nº 5.826, de 2005, que apresentei, não proibia o financiamento empresarial de campanha, mas determinava que essas doações empresariais deveriam ser feitas a um fundo geral. E esse fundo, de forma equitativa e proporcional, distribuiria para todos os partidos e candidatos. Ou seja, não haveria apadrinhamento de quem quer que seja.

Então, esse projeto, eu repito… E tenho muito orgulho de levantar, um a um, todos os projetos que eu tenha apresentado, mesmo porque, recentemente, relatando um projeto de minha autoria, o Senador Requião apresentou e aprovamos, na Comissão de Constituição e Justiça, a proibição do financiamento empresarial de campanha, que, infelizmente, não surtiu efeito; que, infelizmente, não foi à frente. Essa decisão foi tomada, é bom que todos lembrem, não a partir de uma decisão do Parlamento brasileiro, mas a partir de uma decisão do Poder Judiciário, que considerou, corretamente, justamente a contribuição por parte de empresas, pessoas jurídicas, como um fator que desequilibra um processo que deveria ser, antes de mais nada, igualitário e democrático.

Então, aqui, nesta Casa, eu também me referi já ao Projeto de Lei nº 60, que proibia a doação empresarial para as campanhas.
Enfim, Sr. Presidente, não podemos permitir que, por conta das investigações, que por conta das graves revelações, destrua-se a democracia. E nós estamos assistindo, infelizmente, à destruição da própria democracia, à criminalização generalizada da política. Assim como não podemos aceitar o desmantelamento de nossa economia, sobretudo, nos setores em que o Brasil avançou muito nos últimos anos – o setor naval, o setor de petróleo, a cadeia de petróleo e gás –, nós não podemos penalizar uma nação, nós não podemos penalizar um povo, nós não podemos penalizar a democracia em nome do combate à corrupção, porque a corrupção pode e deve ser combatida preservando-se as instituições. E é isso que eu quero levantar, de forma muito contundente e forte, neste meu pronunciamento.

Na última semana, Sr. Presidente, mesmo não estando aqui, nesta Casa, no Senado, porque eu me encontrava participando de uma missão oficial, eu acompanhei, mesmo que de longe, envolvida em outras atividades, de forma diuturna, todos os noticiários onde vários dirigentes da empresa Odebrecht levantaram, mais ou menos, nomes de que 415 pessoas, entre esses vários Parlamentares, políticos de 26 dos 35 partidos que são legalmente registrados hoje no Tribunal Superior Eleitoral.

Eu acompanhei e vi a forma irresponsável com que todos foram jogados na mesma vala comum. A espetacularização da notícia tem sido, infelizmente, o carro-chefe desse processo que conta com versões parciais, repetidas e de forma exaustiva, que deixam o cidadão espantado, indignado, deixam o cidadão irado com absolutamente tudo. Eles, então, são levados a concluir que nenhum político presta. Não é que existem, no meio da política, corruptos, não. Eles são levados a pensar que a política não presta, porque, de todos os políticos, nenhum deles presta.

A presunção de inocência, como eu disse, nessa fase que resguarda questões básicas como a dignidade da pessoa humana, tem sido desprezada. E, como vários dos meus colegas já falaram desta tribuna, nós somos pessoas públicas, nós chegamos aqui através do voto popular, nós tivemos a felicidade de contar com a confiança do povo. E agora estão quebrando essa confiança de uma forma, no meu entendimento, leviana e irresponsável. Digo isso com muita tranquilidade. Não quero atingir nenhuma autoridade, não quero atingir ninguém, mas não está correta a forma como tudo vem sendo divulgado em nosso País. Não há como, através da divulgação de um fato, através do pedido de abertura de uma investigação – de uma investigação – as pessoas já serem condenadas como estão sendo hoje.

Eu levanto essas considerações, Sr. Presidente, e faço essas ponderações a respeito da minha própria citação, porque eu fui citada, o meu nome foi envolvido. E, assim que tomei conhecimento dos fatos, imediatamente, de longe, eu emiti uma nota, na qual deixo muito claro que estou consciente, absolutamente consciente de que não cometi qualquer tipo de ilegalidade. Eu afirmei que isso será provado a partir das investigações. Ninguém mais do que eu, Senadora Lídice – V. Exª também tem uma situação extremamente delicada como a minha –, ninguém mais do que eu, ninguém mais do que a senhora – tenho convicção, porque a conheço – quer que a investigação siga, e siga rapidamente, porque ninguém pode nos transformar como reféns da dúvida. Não! Eu não quero ser transformada numa refém de dúvida de quem quer que seja. Quero que as Investigações aconteçam, sejam céleres e profundas, Sr. Presidente, porque tenho tranquilidade, certeza e convicção de que não cometi nenhuma ilegalidade, não cometi nenhum ato de corrupção.

Disse, na minha nota, que fala por mim a minha própria trajetória política… Deputado Chico, repito aqui, de mais de 40 anos de vida pública. Enquanto os jovens namoravam, eu, aos 17 anos, fazia política. Eu lutava, como lutava a Alice, como lutava a Jandira, como lutava a Perpétua. Aliás, não lutava certamente, porque lutou muito antes e, por isso, sofreu até a privação de liberdade, a Deputada Jô Moraes, que teve que ser exilada. Então, aos 17 anos, na flor da nossa juventude, todas nós, a Senadora Lídice, a Senadora Fátima, lutávamos já em favor de uma sociedade. E foi exatamente essa concepção que me trouxe ao Parlamento, lugar a que nunca pleiteei chegar. E fui chegando e cheguei por conta do reconhecimento da luta que travamos. E disse isso na nota, Sr. Presidente. Quem me conhece, quem convive comigo sabe que todos nós do Partido – eu, em particular; eu falo por todos – buscamos na política não a melhoria da qualidade de vida. Olhem o meu patrimônio!

Poderia ter crescido muito mais se eu tivesse permanecido na minha profissão e estivesse atuando na iniciativa privada, mas não foi esse o caminho que escolhi para a minha vida. Portanto, nunca reclamei, nunca reclamei de não ter juntado um patrimônio que me desse tranquilidade na velhice. Aliás, eu dependo da aposentadoria – da aposentadoria – para a qual eu contribuí e que, agora, esse senhor que está no Palácio do Planalto quer que nós mulheres trabalhemos o mesmo tanto que o homem para podermos ter o direito de nos aposentar. Eu dependo disto para seguir a minha vida: da aposentadoria de anos de trabalho e de vida pública que desempenhei.

Então, disse isso, que, com muita tranquilidade, Sr. Presidente, eu vou enfrentar todos esses problemas. O que me chateia são as pessoas que escutam, repetidas vezes, na televisão, casos serem misturados, porque sabem as senhoras e os senhores que o processo… a investigação solicitada e aberta em relação ao mim diz respeito a questões eleitorais. Eu não sou citada em nenhum caso de corrupção. Pelo contrário, esse senhor, que mal eu conheci, Diretor da Odebrecht… Aliás, na primeira vez em que estive com ele, perguntei a ele porque eu nem sabia que essa empresa Odebrecht Ambiental existia, nem sabia que essa empresa existia. Esse senhor mesmo, quando prestou o depoimento, disse: “Não houve nenhuma contrapartida.” A Odebrecht se aproximou, nós nos aproximamos porque queríamos investir em uma política jovem, promissora. Queríamos nos aproximar, Deputado Assis, de um partido com o qual não tínhamos proximidade, que era o PCdoB, Deputado Davidson. Ele mesmo diz isso, mas para os telejornais eu apareço lá como mais uma daquelas que pratica a corrupção. Dói.
Disposição eu nunca perco. Coragem eu nunca perco.

Enfrentar, enfrento e todos nós enfrentamos. Agora, V. Exªs não têm a noção do tamanho da dor que nós sentimos, do tanto que isso nos machuca, de tanto ver toda uma vida, toda uma vida de luta, de privações, inclusive do convívio com a própria família, ser tratado da forma como está.

Eu repito: a investigação solicitada em relação a mim diz respeito a questões eleitorais, não diz respeito à corrupção, mas eu sou colocada, em todos os telejornais, como alguém que tivesse cometido corrupção. É lamentável. Mais lamentável é ver pessoas também ligadas diretamente a nós serem denunciadas de forma leviana, como o Eron, por acaso, meu marido, mas Presidente de meu Partido, que jamais – jamais – pediria contribuição em caixa dois. Jamais faria isso – jamais.

Lamento que isso esteja acontecendo e por isso é que digo: faço questão de depor não uma vez, depor quantas vezes forem necessárias, faço questão de contribuir, de ajudar na busca de provas. O que não quero, o que não vou permitir que aconteça é que essa interrogação – essa interrogação – permaneça sobre mim. Não.

Para criar força-tarefa no âmbito da Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal crie, mas não deixe sem investigar. Não deixe por um ano, não deixe por dois anos, não deixe por três anos. Isso é a pior coisa que pode acometer a vida de uma pessoa, sobretudo, de uma pessoa pública, porque o que está sendo questionado é a minha dignidade, o que está sendo questionado é a minha honestidade. E eu quero ter a oportunidade de comprovar, como farei – como farei –, que não cometi nenhum ato de ilegalidade, que não cometi nenhum ato de corrupção.

Sr. Presidente, eu digo e concluo esse meu pronunciamento dizendo que da forma como eu iniciei, digo, e sempre repito aqui, que o tempo é o senhor da verdade. Posso dizer de outra forma: a verdade sempre aparece. É uma das regras fundamentais do tempo, porque é uma das regras fundamentais do tempo. Não há dúvida quanto a isso.

Depois, se V. Exª me permitir, Sr. Presidente, após ouvir o aparte da Senadora Fátima, eu gostaria de ter apenas um minuto para poder concluir.

 

Do Portal Vermelho

) afirmou que há uma campanha de “criminalização generalizada da política” que pode resultar em graves consequências para o pais.

 

Agência Senado

 

Sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de abrir um inquérito contra ela para apurar as afirmações de delatores, a senadora salientou que apoia as investigações e as ações de combate à corrupção, mas advertiu: “Não podemos permitir que, por conta das investigações, que por conta das graves revelações, destrua-se a democracia. E nós estamos assistindo, infelizmente, à destruição da própria democracia, à criminalização generalizada da política”.

Vanessa lembrou que é preciso respeitar a Constituição e as garantias invividuais, pois “nenhum cidadão ou nenhuma cidadã pode ser condenado, previamente, por mera presunção”.

“O contraditório e a apresentação de provas são essenciais no Estado democrático de direito, seja para comprovar a inocência ou para comprovar a culpa”, detacou a senadora, que manifestou indignação diante das ilações lançadas contra a sua trajetória política.

Confira a íntegra do discurso:

 

Agradeço a V. Exª, Senador, e aos Senadores que me permitem falar neste momento. Aliás, agradeço ao Senador Paim, que foi quem fez a inscrição para que eu pudesse falar logo no início desta sessão do dia de hoje.

E quero dizer, Sr. Presidente, que eu não poderia, sendo esta a primeira hora em que chego ao Senado Federal, depois da divulgação, desde a semana passada, de muitas notícias relativas a acusações, a inquéritos abertos contra vários Parlamentares, políticos, pessoas públicas, eu não poderia deixar de vir a esta tribuna, Sr. Presidente, sem que este fosse o meu primeiro pronunciamento.

O ditado popular diz que num mundo de verdades e mentiras, todos temos medo da mentira, mas apenas os tolos têm medo da verdade. Outra célebre frase diz que a verdade sempre aparece. É uma das regras fundamentais do tempo. No campo do Direito, a jurisprudência é pacífica no sentido de que as pessoas públicas estão sujeitas a críticas no desempenho de suas funções. Todavia, essas não podem ser infundadas e devem observar determinados limites. Se as acusações destinadas são graves e não são apresentadas provas de sua veracidade, configurado está o dano moral. Essa é a jurisprudência pacífica no Poder Judiciário brasileiro.

Sabe-se perfeitamente que ninguém, que nenhum cidadão ou nenhuma cidadã pode ser condenado, previamente, por mera presunção. O contraditório e a apresentação de provas são essenciais no Estado democrático de direito, seja para comprovar a inocência ou para comprovar a culpa.

Esses são alguns axiomas, alguns postulados, portanto, que trago à tribuna no dia de hoje, para revelar a minha profunda indignação pela forma como casos tão diferentes têm sido tratados em um mesmo contexto. Ou seja, têm sido tratados de uma mesma forma. A meu ver, isso é mais do que grave. Isso é gravíssimo, porque leva à criminalização generalizada da política, o que pode resultar em graves consequências para o país.

Aliás, eu estou falando do episódio da semana passada, mas temos outro episódio de que podemos falar, que aconteceu ontem, recentemente. Trata-se de um vídeo gravado por três procuradores, onde uma das procuradoras…

No vídeo, primeiro, ele pedem que seja viralizada aquela mensagem, aquele vídeo, que espalham o máximo que puderem, colocando a população contra os políticos, de forma generalizada. Isso significa colocar a população contra o próprio Parlamento. Então, não dá para a política ser tratada dessa forma. E quando generalizam, quando colocam problemas de gravidades distintas, problemas diferentes, tudo da mesma forma, eu desconfio até se essas pessoas querem, de fato, resolver o problema do combate à corrupção ou se querem acabar com a política correta, criminalizando-a de forma generalizada.

Eu quero, mais uma vez registrar o meu irrestrito apoio às investigações, às ações de combate à corrupção. Eu quero mais uma vez, para evitar qualquer tipo de deturpação daquilo que falamos diariamente nesta tribuna, registrar o meu mais irrestrito apoio à Operação Lava Jato, cujo objetivo é combater a corrupção. E digo que, se queremos que tenha sucesso essa ação de combate à corrupção, as coisas não podem continuar a ser tratadas como estão, porque no fundo estão todos envolvidos, a política toda, como falou um procurador, são os políticos, e não há nem como punir, efetivamente, aquilo que seja a corrupção. Então, desde já digo que, desde a primeira hora, desde o primeiro momento… Aliás, a história do nosso Partido tem sido essa, a luta pela ética. E repito também: lutar contra a corrupção não é apenas uma bandeira que se levanta diante de um microfone ou de uma tribuna. Combater a corrupção é um exercício diário, é uma postura diária de cada um de nós. E eu tenho tranquilidade absoluta para dizer que, nesses 40 anos de vida pública, quase 30 anos exercendo mandatos parlamentares, posso dizer, com muita tranquilidade, que busquei na política não benefícios pessoais; eu busquei na política um caminho para lutar em favor da nossa gente, em favor do nosso povo.

No ano de 2005, ainda na condição de Deputada Federal, eu apresentei o meu segundo projeto, que reformava o sistema eleitoral brasileiro, que atacava diretamente a contribuição de campanha, Sr. Presidente. O projeto que apresentei, à época, tomou o nº 5.826. Portanto, ninguém pode falar que, naquela época, já tenha havido oportunismo. Pelo contrário: apresentei um projeto num momento em que poucos questionavam o modelo de financiamento empresarial de campanhas. O Projeto nº 5.826, de 2005, que apresentei, não proibia o financiamento empresarial de campanha, mas determinava que essas doações empresariais deveriam ser feitas a um fundo geral. E esse fundo, de forma equitativa e proporcional, distribuiria para todos os partidos e candidatos. Ou seja, não haveria apadrinhamento de quem quer que seja.

Então, esse projeto, eu repito… E tenho muito orgulho de levantar, um a um, todos os projetos que eu tenha apresentado, mesmo porque, recentemente, relatando um projeto de minha autoria, o Senador Requião apresentou e aprovamos, na Comissão de Constituição e Justiça, a proibição do financiamento empresarial de campanha, que, infelizmente, não surtiu efeito; que, infelizmente, não foi à frente. Essa decisão foi tomada, é bom que todos lembrem, não a partir de uma decisão do Parlamento brasileiro, mas a partir de uma decisão do Poder Judiciário, que considerou, corretamente, justamente a contribuição por parte de empresas, pessoas jurídicas, como um fator que desequilibra um processo que deveria ser, antes de mais nada, igualitário e democrático.

Então, aqui, nesta Casa, eu também me referi já ao Projeto de Lei nº 60, que proibia a doação empresarial para as campanhas.
Enfim, Sr. Presidente, não podemos permitir que, por conta das investigações, que por conta das graves revelações, destrua-se a democracia. E nós estamos assistindo, infelizmente, à destruição da própria democracia, à criminalização generalizada da política. Assim como não podemos aceitar o desmantelamento de nossa economia, sobretudo, nos setores em que o Brasil avançou muito nos últimos anos – o setor naval, o setor de petróleo, a cadeia de petróleo e gás –, nós não podemos penalizar uma nação, nós não podemos penalizar um povo, nós não podemos penalizar a democracia em nome do combate à corrupção, porque a corrupção pode e deve ser combatida preservando-se as instituições. E é isso que eu quero levantar, de forma muito contundente e forte, neste meu pronunciamento.

Na última semana, Sr. Presidente, mesmo não estando aqui, nesta Casa, no Senado, porque eu me encontrava participando de uma missão oficial, eu acompanhei, mesmo que de longe, envolvida em outras atividades, de forma diuturna, todos os noticiários onde vários dirigentes da empresa Odebrecht levantaram, mais ou menos, nomes de que 415 pessoas, entre esses vários Parlamentares, políticos de 26 dos 35 partidos que são legalmente registrados hoje no Tribunal Superior Eleitoral.

Eu acompanhei e vi a forma irresponsável com que todos foram jogados na mesma vala comum. A espetacularização da notícia tem sido, infelizmente, o carro-chefe desse processo que conta com versões parciais, repetidas e de forma exaustiva, que deixam o cidadão espantado, indignado, deixam o cidadão irado com absolutamente tudo. Eles, então, são levados a concluir que nenhum político presta. Não é que existem, no meio da política, corruptos, não. Eles são levados a pensar que a política não presta, porque, de todos os políticos, nenhum deles presta.

A presunção de inocência, como eu disse, nessa fase que resguarda questões básicas como a dignidade da pessoa humana, tem sido desprezada. E, como vários dos meus colegas já falaram desta tribuna, nós somos pessoas públicas, nós chegamos aqui através do voto popular, nós tivemos a felicidade de contar com a confiança do povo. E agora estão quebrando essa confiança de uma forma, no meu entendimento, leviana e irresponsável. Digo isso com muita tranquilidade. Não quero atingir nenhuma autoridade, não quero atingir ninguém, mas não está correta a forma como tudo vem sendo divulgado em nosso País. Não há como, através da divulgação de um fato, através do pedido de abertura de uma investigação – de uma investigação – as pessoas já serem condenadas como estão sendo hoje.

Eu levanto essas considerações, Sr. Presidente, e faço essas ponderações a respeito da minha própria citação, porque eu fui citada, o meu nome foi envolvido. E, assim que tomei conhecimento dos fatos, imediatamente, de longe, eu emiti uma nota, na qual deixo muito claro que estou consciente, absolutamente consciente de que não cometi qualquer tipo de ilegalidade. Eu afirmei que isso será provado a partir das investigações. Ninguém mais do que eu, Senadora Lídice – V. Exª também tem uma situação extremamente delicada como a minha –, ninguém mais do que eu, ninguém mais do que a senhora – tenho convicção, porque a conheço – quer que a investigação siga, e siga rapidamente, porque ninguém pode nos transformar como reféns da dúvida. Não! Eu não quero ser transformada numa refém de dúvida de quem quer que seja. Quero que as Investigações aconteçam, sejam céleres e profundas, Sr. Presidente, porque tenho tranquilidade, certeza e convicção de que não cometi nenhuma ilegalidade, não cometi nenhum ato de corrupção.

Disse, na minha nota, que fala por mim a minha própria trajetória política… Deputado Chico, repito aqui, de mais de 40 anos de vida pública. Enquanto os jovens namoravam, eu, aos 17 anos, fazia política. Eu lutava, como lutava a Alice, como lutava a Jandira, como lutava a Perpétua. Aliás, não lutava certamente, porque lutou muito antes e, por isso, sofreu até a privação de liberdade, a Deputada Jô Moraes, que teve que ser exilada. Então, aos 17 anos, na flor da nossa juventude, todas nós, a Senadora Lídice, a Senadora Fátima, lutávamos já em favor de uma sociedade. E foi exatamente essa concepção que me trouxe ao Parlamento, lugar a que nunca pleiteei chegar. E fui chegando e cheguei por conta do reconhecimento da luta que travamos. E disse isso na nota, Sr. Presidente. Quem me conhece, quem convive comigo sabe que todos nós do Partido – eu, em particular; eu falo por todos – buscamos na política não a melhoria da qualidade de vida. Olhem o meu patrimônio!

Poderia ter crescido muito mais se eu tivesse permanecido na minha profissão e estivesse atuando na iniciativa privada, mas não foi esse o caminho que escolhi para a minha vida. Portanto, nunca reclamei, nunca reclamei de não ter juntado um patrimônio que me desse tranquilidade na velhice. Aliás, eu dependo da aposentadoria – da aposentadoria – para a qual eu contribuí e que, agora, esse senhor que está no Palácio do Planalto quer que nós mulheres trabalhemos o mesmo tanto que o homem para podermos ter o direito de nos aposentar. Eu dependo disto para seguir a minha vida: da aposentadoria de anos de trabalho e de vida pública que desempenhei.

Então, disse isso, que, com muita tranquilidade, Sr. Presidente, eu vou enfrentar todos esses problemas. O que me chateia são as pessoas que escutam, repetidas vezes, na televisão, casos serem misturados, porque sabem as senhoras e os senhores que o processo… a investigação solicitada e aberta em relação ao mim diz respeito a questões eleitorais. Eu não sou citada em nenhum caso de corrupção. Pelo contrário, esse senhor, que mal eu conheci, Diretor da Odebrecht… Aliás, na primeira vez em que estive com ele, perguntei a ele porque eu nem sabia que essa empresa Odebrecht Ambiental existia, nem sabia que essa empresa existia. Esse senhor mesmo, quando prestou o depoimento, disse: “Não houve nenhuma contrapartida.” A Odebrecht se aproximou, nós nos aproximamos porque queríamos investir em uma política jovem, promissora. Queríamos nos aproximar, Deputado Assis, de um partido com o qual não tínhamos proximidade, que era o PCdoB, Deputado Davidson. Ele mesmo diz isso, mas para os telejornais eu apareço lá como mais uma daquelas que pratica a corrupção. Dói.
Disposição eu nunca perco. Coragem eu nunca perco.

Enfrentar, enfrento e todos nós enfrentamos. Agora, V. Exªs não têm a noção do tamanho da dor que nós sentimos, do tanto que isso nos machuca, de tanto ver toda uma vida, toda uma vida de luta, de privações, inclusive do convívio com a própria família, ser tratado da forma como está.

Eu repito: a investigação solicitada em relação a mim diz respeito a questões eleitorais, não diz respeito à corrupção, mas eu sou colocada, em todos os telejornais, como alguém que tivesse cometido corrupção. É lamentável. Mais lamentável é ver pessoas também ligadas diretamente a nós serem denunciadas de forma leviana, como o Eron, por acaso, meu marido, mas Presidente de meu Partido, que jamais – jamais – pediria contribuição em caixa dois. Jamais faria isso – jamais.

Lamento que isso esteja acontecendo e por isso é que digo: faço questão de depor não uma vez, depor quantas vezes forem necessárias, faço questão de contribuir, de ajudar na busca de provas. O que não quero, o que não vou permitir que aconteça é que essa interrogação – essa interrogação – permaneça sobre mim. Não.

Para criar força-tarefa no âmbito da Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal crie, mas não deixe sem investigar. Não deixe por um ano, não deixe por dois anos, não deixe por três anos. Isso é a pior coisa que pode acometer a vida de uma pessoa, sobretudo, de uma pessoa pública, porque o que está sendo questionado é a minha dignidade, o que está sendo questionado é a minha honestidade. E eu quero ter a oportunidade de comprovar, como farei – como farei –, que não cometi nenhum ato de ilegalidade, que não cometi nenhum ato de corrupção.

Sr. Presidente, eu digo e concluo esse meu pronunciamento dizendo que da forma como eu iniciei, digo, e sempre repito aqui, que o tempo é o senhor da verdade. Posso dizer de outra forma: a verdade sempre aparece. É uma das regras fundamentais do tempo, porque é uma das regras fundamentais do tempo. Não há dúvida quanto a isso.

Depois, se V. Exª me permitir, Sr. Presidente, após ouvir o aparte da Senadora Fátima, eu gostaria de ter apenas um minuto para poder concluir.

 

Do Portal Vermelho

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