O Ciclo Lula-Dilma em análise abrangente

Durante a realização do seminário sobre os 100 anos da Revolução Russa, promovido pela Fundação Maurício Grabois, lançamos o livro “Governos Lula e Dilma: o ciclo golpeado — contexto internacional, realizações, lições e perspectivas”. O livro lida com o tema da perspectiva, das saídas para o Brasil se livrar da instabilidade, da crise entre os poderes, da criminalização da atividade política, da recessão econômica, do desemprego. Quais as alternativas face ao retrocesso provocado pelo golpe? Quais caminhos conduzirão o país à retomada do desenvolvimento soberano, com democracia e progresso social? Questões para as quais são apresentadas preciosos pontos de partida. Publico aqui no blog a apresentação que fiz no livro:

O CICLO LULA-DILMA EM ANÁLISE ABRANGENTE

Renato Rabelo*

Avaliar o ciclo dos governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff é tarefa complexa e essencial ao mesmo tempo. Abrange aspectos históricos, conjunturais e conceituais, e se insere no contexto internacional. Este livro tem esse espectro, uma contribuição de diferentes olhares — quadros partidários, professores universitários, especialistas em vários temas constantes desta coletânea — que buscam compreender o significado daquela experiência, procurando situar os acontecimentos em seus devidos contextos.

A síntese dessa abordagem é um painel que mostra o ciclo Lula-Dilma como acontecimento de grande amplitude, de notável legado ao país e ao povo, resultado do protagonismo da esquerda à frente de governo nacional constituído de construções políticas amplas, embora com limitações ditadas pelas circunstâncias da época — além de erros e insuficiências.

O livro segue os esforços do campo político democrático de situar os diagnósticos das causas do golpe que interrompeu esse ciclo, alicerçados em uma ampla constatação de dados sobre os diferentes temas abordados.

A começar pelas transformações que resultaram no surgimento de novos polos no sistema de poder mundial face à tendência de declínio relativo dos Estados Unidos da América que havia emergido como “potência única” após o triênio 1989-1991. A par de uma realidade que chegou com força na América Latina, inaugurando, em 1998 na Venezuela e em 2002 no Brasil, uma sucessão de governos de orientação progressista. A integração sul-americana, com parcerias comuns de desenvolvimento, ideal histórico de grande relevância para a região — fora do domínio imperialista —, começou a ser concretizado.

A onda conservadora que se espalhou na região recentemente foi uma resposta a essa tendência, conforme demonstram vários autores. Um movimento que também tem a ver com o peso do Brasil na constituição do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), a forma organizada da multipolaridade, com fortes polos em crescimento, que se defronta com a hegemonia das grandes potências. A política externa dos governos Lula e Dilma cumpriu papel decisivo no avanço das propostas de mudanças no sistema de poder mundial, tema bem exposto no livro. A ruptura institucional, contudo, interrompeu essa marcha e fez o golpe se voltar a ataques aos fundamentos da nação, expondo-a a uma forte investida neocolonial e ao desmonte da estrutura social alcançada.

Outro tema do livro explica como essa realidade se insere no atual estágio do capitalismo, um debate sobre a natureza da crise mundial e seus desdobramentos. Detalha, em um extenso diagnóstico, as visões de um vasto conjunto de especialistas e traça um perfil das crises e inovações que fizeram as transições nos diferentes estágios do sistema. E faz um comparativo do projeto de desenvolvimento do Brasil com o de algumas nações, notadamente Índia e Rússia, que criaram experiências econômicas dinâmicas no contexto de crise profunda do capitalismo, distintas do modelo neoliberal.

O livro faz um mergulho nas causas internas do agravamento da crise política, mostrando como uma combinação de fatores internos e externos corroeu o apoio à presidenta Dilma Rousseff. Após um período de relativo sucesso no enfrentamento dos efeitos da crise mundial, as contradições se agravaram e levaram à formação de uma coalização política, empresarial, midiática e jurídica que capitaneou o golpe jurídico-parlamentar.

O passo a passo dessa evolução é analisado mostrando como destaque questões como a débil competitividade do país, o relativo declínio industrial, o declínio do boom das commodities, o enfrentamento com a política de juro elevado, a concessão de crédito público, a política de concessões em infraestrutura e a orientação de subsídios fiscais.

No fundo da questão está o projeto neoliberal, outro tema também reiteradamente analisado no livro. Em um conjunto de artigos ele é esmiuçado, mostrando como o neoliberalismo sofreu um revés com a eleição de Lula em 2002 e como ele recobrou as forças após o esgotamento das políticas anticíclicas adotadas para enfrentar a primeira onda da crise mundial desencadeada em 2007-2008 que chegou ao Brasil entre 2010 e 2012. E, ainda, o papel simbólico das manifestações de junho de 2013, o ponto inicial da viragem para o declínio do governo.

Em 2014, de acordo com as análises do livro, a crise chegou com força e começou a reverter o processo de mudanças iniciado em 2003. Mas o país já enfrentava a manipulação que levou multidões às ruas a favor do golpe, uma combinação básica de ativismo midiático com o desencadeamento da Operação Lava Jato e a sabotagem às diretivas governamentais em vários setores.

O livro também mostra o outro lado da moeda ao fazer uma breve radiografia das debilidades desse ciclo, partindo do pressuposto de que nele se travou intensa luta política e ideológica com as forças conservadoras. Constata como foi corroída a hegemonia política da esquerda, expressa em quatro vitórias sucessivas nas eleições diretas à Presidência da República.

Mas indica que não foi dada a devida importância a um plano estratégico para sustentar as mudanças, ao mesmo tempo em que situa o golpe no âmbito do histórico de rupturas democráticas no Brasil. Em outras palavras, demonstra que o desenvolvimento desse ciclo sofreu o cerco conservador desde os seus primeiros passos, associado a interesses forâneos, sobretudo na fase final.

Ainda assim, de acordo com diversas análises desta coletânea, era necessário promover reformas estruturais, de conteúdo democratizante. Soma-se a isso certo menosprezo à questão da reforma da estrutura do Estado, o que ensejou a algumas corporações se lançarem na onda golpista, muitas vezes ocupando sua linha de frente. E ainda debilidades na consecução de bases de sustentação política e social do governo, na limitação e dificuldade em liderar e conduzir seu projeto de país.

A resultante pós-golpe, enfocada por vários artigos, demonstra que a grande crise em curso não apresenta sinais consistentes de superação. Em contraste, vem produzindo danos estruturais de médio e longo prazo, retardando a retomada. A nação entra em um período de desorientação e falta de rumo estratégico, numa situação de aguda polarização política entre os brasileiros.

Ademais, é salientado que o cenário pós-deposição de Dilma, ao contrário do prometido por seus promotores, não logrou a superação da crise, mas a agravou. E destaca o caos social que já se vislumbra no horizonte e provavelmente frustrará os intentos do consórcio golpista; a renda per capita retrocede ao nível de 2009 e aumenta as camadas pobres, resultantes da grande recessão, do avassalador desemprego.

A grande questão que se apresenta nesse cenário pós-golpe, aponta o livro, é o enfrentamento com a nova ordem estabelecida, ultraliberal, anti-nação e anti-povo. E a luta pela superação da grave crise. Superá-la implica a formação imediata de uma ampla frente democrática, tendo como alternativa de alcance maior a construção de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento. Impõe-se relançar esse projeto, plasmado nos ensinamentos do ciclo dos últimos 13 anos e com diretrizes atualizadas como base para definição da estratégia de desenvolvimento.

A resistência tende a se intensificar à medida que o programa regressivo em toda a linha do governo Temer revele seus efeitos altamente danosos à soberania do Brasil, à democracia e aos direitos do povo. Fato que vai se materializando com rapidez e impondo a exigência de consulta nas urnas, do resgate da soberania popular em curto prazo.

 

Neste sentido, o livro faz um chamamento comum a uma ampla unidade das forças da resistência, tomando como ensinamento os embates políticos e ideológicos do ciclo Lula-Dilma, ressaltando a busca de saídas viáveis para os impasses estruturais do país.

 

*Presidente da Fundação Maurício Grabois

 

Anúncios

O que você achou desta matéria?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s