Eron Bezerra: O risco da escalada autoritária

Um igarapé[1] jamais alterará o curso do rio Amazonas

A escalada golpista atingiu ontem, dia 24.05.2017, um novo patamar. A convocação das Forças Armadas para reprimir trabalhadores indefesos – legitimamente revoltados com as reformas de Temer e seus apoiadores que lhes arrancam os últimos direitos conquistados – revela, além do “vale tudo” para se manter no governo central, o caráter autoritário do consórcio golpista.

O viés autoritário e de completo descaso com os anseios populares, revelado por Temer e sua entourage, não deveria surpreender ninguém. Afinal, quem articulou um golpe para depor uma presidenta eleita por mais de 52 milhões de brasileiros, já deixava patente que não tinha qualquer respeito pela democracia, pela vontade popular e muito menos por regras legais.

Em perfeita sintonia com a máxima de que “o estado nada mais é do que um instrumento de dominação da classe dominante”, eles têm presente que todo o aparato do estado – legislativo, executivo, judiciário – está estruturado para atender aos seus interesses. Tal convicção se estende, igualmente, aos demais adereços do estado burguês, como os meios de comunicação.

Assim, eles só reivindicam respeito às normas legais e a defesa da democracia, quando percebem que seus privilégios estão ameaçados, como evidencia o cerco de Brasília.

O governo Temer já acabou. Sua equipe, ou o que restou dela, perambula pelos corredores de Brasília, tal qual “zombies”, tentando intimidar o povo com repressão, cooptar aliados com chantagens e loteamento de cargos, distribuindo sinecuras e vociferando contra tudo e todos que eventualmente fogem do roteiro pré-determinado do golpe.

O recurso às Forças Armadas é apenas um desses expedientes que, felizmente, recebeu uma contundente repulsa da sociedade e, ao que tudo indica, até mesmo dos militares mais lúcidos. Mas, a disposição deles para o vale tudo está explicita.

E aqui é preciso uma reflexão. Em 64 os militares não tomaram a iniciativa de ir pra rua. Eles foram “convidados”, instados a “defenderem a ordem” por parcelas da sociedade e lideranças de direita como o então governador Carlos Lacerda do Rio de Janeiro e Magalhães Pinto, de Minas Gerais, que viriam a ser as matrizes mambembes da orda golpista que deu o golpe atual e tenta, desesperadamente, continuar no governo para completar a retirada de direitos sociais.

Beira ao delírio. Ninguém pode governar exitosamente sem apoio popular, por mais violenta que eventualmente seja a repressão disposta em seu favor.

Assim como um igarapé, por mais caudaloso que seja, jamais poderá alterar o curso do majestoso rio Amazonas, o governo Temer jamais poderá conter a revolta popular, por mais virulenta que seja a sua repressão, salvo se atender as reivindicações povo.

E, nesse caso, o governo Temer já não teria mais sentido para a elite golpista.

[1] Igarapé, na língua nativa, significa caminho das canoas, ou seja, por onde andam as pequenas embarcações.

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