Walter Sorrentino: O momento político, caminhos a percorrer 

O momento político, caminhos a percorrerO presidente Temer foi posto em xeque e, em poucos movimentos mais, sabe que virá o xeque mate. Temer ainda se segura, tem ciência de sua fragilidade, procura ainda chantagear com as reformas (e a “caneta” para garantir apoios) para que o consórcio do impeachment o mantenha no cargo, mas teme por sua liberdade, que vai tentar negociar.
A Globo, com a Lava Jato minando o terreno da política, precipita essa solução. Age de modo exclusivista visando impor seu caminho – que é principalmente o de assegurar as reformas, mas também promover alternativas a 2018, que parecem ser decididamente o de nomes no campo da anti-política.
O país segue conflagrado na crise política e institucional. Ela foi aprofundada com o impeachment, que desmoralizou a nação e desnorteou a sociedade. Há um sistema de conflitos múltiplos, difíceis de alinhar entre as forças políticas e o protagonismo político indevido do Judiciário, no interior do próprio Judiciário, tendo o Congresso enfraquecido pela Lava Jato bem como sua inapetência para pensar a garantia democrática da institucionalidade.

Os parlamentares da base de apoio ao governo estão entre a cruz e a caldeirinha: sempre precisam de qualquer governo para se elegerem, mas votam medidas duríssimas contra o povo há pouco mais de ano e meio das eleições (se não forem antecipadas) sem chances reais de que essas medidas redundem em retomada do crescimento e minoração da crise social.
Enfim, o país chegou a um gargalo, um poderoso impasse, no momento com um vazio político a preencher. Quem tem em mente os acontecimentos da Argentina em torno do ano 2000, quando ocuparam a presidência cinco mandatários em algo como 18 meses, também aqui a saída de Temer da Presidência não é garantia total em termos de estabilidade, salvo se se levar a solução ao arbítrio do voto popular.
O impeachment, como já dizíamos, se voltou para uma agenda contra os interesses nacionais, democráticos e populares. O desmonte em curso da Constituição de 88 visa a implantar um ciclo conservador mais prolongado (derrotado nas urnas quatro vezes em eleições presidenciais) de índole liberal autoritária. 
A luta contra essa agenda neoliberal ainda será dura, tenaz e prolongada, faz parte da luta de classes em uma encruzilhada histórica no país, pela soberania, democracia e direitos do povo.
Está em curso a pactuação das forças que sustentaram o impeachment e Temer: que nomes para substituí-lo, como manter as reformas e como, talvez, garantir a situação futura de Temer. De modo algum eleições diretas agora. Ao mesmo tempo, o pacto visa a 2018, buscando manter o eixo PSDB e PMDB. Mas há muitas pontas soltas e há ainda que considerar, para isso, o papel resistência democrática progressista, que vai colhendo novos frutos com mobilizações e programas para tirar o país da crise. Está também em movimento forças políticas de espectro centrista que se descolam do governo – partidos e frações no interior de partidos. 
Para o campo da resistência, é necessário, em essência, unir vastas forças em frente ampla e unidade combativa, capaz de impulsionar a mobilização política do povo. O alvo, de todo modo, será paralisar a agenda do governo usurpador e buscar garantir normas do Estado de direito e das relações políticas, reordenando as condições de normalidade para a disputa em novas eleições gerais, o quanto antes. A esquerda tem o dever de capitanear e nuclear isso.
A forma de modificar o panorama imediato será esse largo movimento de massas nas ruas contra as reformas antipopulares e por Diretas Já, que é a chave maior. Não obstante, o tempo político aqui é fator crucial. Salvo fatores catalisadores outros, em tempo curto será difícil o êxito dessa jornada. O tempo político, aqui, é fator crucial. Mas não se pode nem se deve deixar de tratar isso como a questão central, pois a campanha é a força de que dispõem as forças da resistência em qualquer caso.
A defesa de Lula é um poderoso ativo da resistência, pela sua liderança e por encarnar a memória de um legado de realizações vivas na experiência do povo. Entretanto, nomes para candidaturas presidenciais nesta hora não somam forças, melhor será pôr no centro das proposições a nova agenda que o campo progressista preconiza para o Brasil sair da crise e retomar caminhos no rumo soberano, democrático e do interesse popular. Isso sim pode disputar novas esperanças para o povo; nomes, naturalmente, virão como consequência disso e de amplo debate entre forças que poderiam se unir em torno disso.
Apesar do acúmulo de nossa resistência, muito importante, não está dado ainda que passemos à contraofensiva. Sem isso, saídas predominantes nas relações de forças atuais vão no rumo de eleições indiretas pelo Congresso. Nem há regramento claro ainda para tal, mas a questão será posta na mesa de todo modo e exigirá descortino das forças políticas do campo político e social da oposição.
Também aqui não se trata de descartá-las por principismo, abster-se do jogo no Congresso se, nas condições de força, esse caminho predomine. Nada do que resultar de todo o processo radicalizado de luta política e ideológica nos é indiferente nesta hora. Ganhar tempo e prolongar a batalha quando se está em desvantagem é estratégico. 
Então, são necessários planos contingentes. Chegará logo o tempo para firmar quais são os parâmetros para influenciar no rumo dos acontecimentos em eleições indiretas. Depreende-se, pelo que se disse, que tentar paralisar e adiar as reformas até a legitimação da disputa política nas urnas, será ponto fundamental. Ao lado disso, o empenho em buscar reordenar a disputa de rumos para o Brasil no âmbito da política (e não da criminalização da política), recompondo as relações institucionais democráticas.

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