Aldo Arantes: Lição a se tirar da Marcha à Brasília

A Marcha à Brasília revelou importante crescimento da resistência popular ao ilegítimo governo Temer. Numa ação unitária das centrais sindicais, 200 mil trabalhadores acorreram à capital do país para lutar contra as reformas trabalhista, previdenciária e pelas Diretas Já. Foi o desdobramento da Greve Geral que mobilizou milhões de pessoas. Tais atos confirmam o que as pesquisas revelam: 95% do povo brasileiro se expressa contra o governo antipopular e mais de 75% se manifestou contra as reformas propostas.
A continuidade da luta exige a incorporação crescente de milhões de brasileiros. A união de amplas camadas do povo em defesa da democracia, contra as antirreformas e pelas Diretas Já, é essencial para barrar a onda conservadora que tomou conta do país.
As manifestações de Brasília foram pacíficas. Demonstraram a amplitude da oposição ao antidemocrático governo e sua política. Foi uma importante vitória.
Todavia um pequeno grupo de provocadores passou a depredar bens públicos. As forças de segurança, de forma conivente, nada fizeram para isola-los dos manifestantes. E a grande mídia se aproveitou das provocações para tentar confundir a opinião púbica procurando esconder a dimensão do protesto com uma exposição do fato de forma massiva e repetitiva. Com isto procurava colocar a responsabilidade das depredações nos participantes da marcha.
E governo antinacional, aproveitando-se desta mentirosa “cobertura jornalística” decretou, de forma inconstitucional, a intervenção das Forças Armadas sob o pretexto de “garantir a ordem”. O absurdo desta deliberação acarretou críticas de todos os lados. O próprio comandante do Exército veio a público declarando que as forças policiais do GDF tinham condições de dar a segurança necessária. O mesmo afirmou o governador do Distrito Federal.
As centrais sindicais foram enfáticas ao declararem que rejeitavam aquele tipo de prática e que a manifestação tinha um caráter pacífico. Mesmo assim, sem comprovar que os organizadores eram responsáveis por tais atos a Procuradora Geral da República anunciou que irá cobrar das centrais o valor correspondente aos prejuízos em mais uma medida de criminalização dos movimentos sociais.
Na análise das depredações seu significado tem sido subestimado por parte das forças de esquerda. Acho que não se trata de um problema menor. Talvez esta subestimação decorra de outra que é a subestimação da força do adversário.
É evidente que o ilegítimo governo Temer está totalmente fragilizado. Todavia o mesmo não se pode dizer das bases de sustentação do projeto neoliberal no país. Como é sabido compõem este arco de aliança os grandes empresários nacionais e estrangeiros, a grande mídia, setores do judiciário e do ministério público. Se isto não bastasse contam hoje com o apoio de importantes segmentos da sociedade, sobretudo, das camadas menos politizadas da sociedade e de setores médios da população, enganados com a falsa campanha contra a corrupção
A questão mais importante para a luta atual é retomar a hegemonia política na sociedade através da reconquista vastos segmentos perdidos no curso da ofensiva pelo impeachment. Avalio que para uma análise mais precisa sobre a importância das depredações devemos nos perguntar se elas prejudicam ou não a reaproximação dos setores que foram ganhos pela direita.
É evidente que tais atos distanciam a grandes massas das mobilizações não só porque discordam como também porque ficam intimidados com a repressão. E isto só interessa à direita. Ela se infiltra nas manifestações para tumultuá-las visando jogar a opinião púbica contra os manifestantes. A imprensa alardeia os acontecimentos e joga a culpa sobre os organizadores do movimento.
A esquerda não pode ter uma atitude ingênua em relação aos provocadores. O golpe militar deixou muitos exemplos da ação da direita infiltrada nos movimentos populares. Os acontecimentos passados devem servir de lição nos dias atuais.
Em momentos de crise, quando o mar está revolto, é essencial uma direção firme e sábia do processo político. É necessário saber valorizar o crescimento da luta popular. Mas, ao mesmo tempo, é indispensável enfrentar e adotar medidas em relação a eventuais problemas que surjam.
No caso concreto parece-me que a lição a tirar é a necessidade de se adotar medidas que garantam o controle das manifestações. É evidente que a tentativa de manter o controle através de orientações dadas através dos carros de som é insuficiente. Não têm nenhuma eficácia em relação aos provocadores. A adoção de medidas rigorosas, que visem manter o controle das manifestações, é essencial para impedir a ação dos provocadores.
Li nas redes sociais um chamamento à reflexão, feita pelo ex-ministro Gilberto Carvalho, num sentido semelhante ao que formulo. Este chamado me motivou a escrever este artigo.
O que está em jogo é a capacidade da esquerda de atrair as amplas massas de trabalhadores, estudantes, advogados, profissionais liberais, enfim todos aqueles que querem ver o país retornando aos trilhos da democracia e dos direitos dos trabalhadores e do povo.
E isto será obtido com a construção de uma ampla frente em defesa da democracia, da Constituição e contra as reformas antipopulares e antinacionais que pretendem implantar no país.

Brasília, 29 de maio de 2017
Aldo Arantes
Ex-deputado Constituinte
Membro da Comissão Política Nacional do PCdoB

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