Joan Edesson: Não é por Lula, é por nós


Perguntam-me, alguns, porque tanto empenho em defender Lula, face à condenação imposta a ele pelo juiz de exceção. Perguntam-me se eu não acho que ele errou, e que deve pagar pelos seus erros. Perguntam-me se não é hora de acabar com o Fla x Flu político das últimas décadas e abrir espaço para novidades (embora às vezes o que se apresenta como novidade não passe do velho com uma roupa moderninha e bacana).

Eu sei que cansa ter que responder a isso, ter que começar tudo de novo, pra ver se alguns entendem. Mas não há outra forma. Precisamos, pacientemente, explicar tudo. Precisamos explicar que não defendemos Lula por ele ser Lula, que reconhecemos que ele cometeu erros (como todos nós fazemos), que defendemos a pluralidade de opiniões e opções (e que isto inclui a opção pelo Lula), e que defendemos espaço para o novo (procurando sempre desmascarar as ideias e as práticas velhas travestidas de modernas).

Temos que explicar que o juiz de exceção não condenou apenas Lula. A condenação foi política, e não jurídica. Lula foi condenado por ter recebido um apartamento que não é seu, que não está no seu nome e no qual ele nunca morou. Pasmem, a ausência de provas de que ele é o dono do apartamento foi apresentada como prova de que ele ocultou o patrimônio. E essa aberração jurídica é apresentada como absolutamente normal, natural.

O juiz de exceção condenou o povo brasileiro. Condenou os trabalhadores, a democracia, os jovens, as mulheres, condenou todos aqueles que lutam por um Brasil melhor. Porque o juiz de exceção é a mais bem acabada expressão daquilo que é o judiciário brasileiro. Uma casta apartada do povo, uma casta apartada da nação, um punhado de homens e mulheres com salários, benesses e estilo de vida completamente distintos do povo brasileiro.

O judiciário no Brasil é o que sempre foi, ao longo da sua história, uma caixa de ressonância dos interesses mais escusos da elite brasileira. Um estrato daquilo que há de mais abjeto em termos de privilégios. O judiciário brasileiro tem nojo do povo. O juiz de exceção que condenou Lula condenou-o pelo que ele representa. Condenou-o para agradar aos que mandam. Condenou-o para mostrar que democracia e igualdade social, ainda que mínimas, são coisas com as quais o povo não pode sonhar. O juiz de exceção condenou Lula para mostrar quem é que manda, de fato, no Brasil.

Manifestar a mais profunda indignação com essa condenação não é defender Lula apenas pelo fato de que ele é Lula, um torneiro mecânico que se elegeu Presidente da República pelo voto popular e que tirou o Brasil do mapa da fome.
Ficar contra essa condenação é defender a democracia, o estado democrático de direito, o devido processo legal.

Lula foi condenado sem provas. Amanhã pode ser que qualquer um de nós também o seja. Não precisarão de provas. A delação do vizinho com o qual você discutiu no passado será suficiente para lhe condenar. A mera suspeita terá o valor de prova. A cor da sua roupa será a prova de que você merece ser condenado. A sua opinião nas redes sociais será suficiente para lhe condenar. Se não houver provas, isso será usado contra você, acusado de destruir e ocultar as evidências. Ninguém, ninguém mesmo, estará a salvo.

Quando isso acontece, quando uma sociedade permite que se acuse e se condene sem provas, não há como terminar bem. O judiciário brasileiro caminha, cada vez mais, para transformar o Brasil num grande campo de concentração nazista. Um campo de concentração para onde um magistrado envia uma mulher que roubou chicletes e liberta um criminoso que foge com uma mala de dinheiro. O judiciário brasileiro terminará por nos prender a todos nesse imenso campo de concentração, impedidos de falar, de protestar, de opinar e de votar.

Aos que me questionam tanto, entendam de uma vez por todas: não é por Lula, é por nós, é por vocês. É pelo Brasil, é pela democracia. É contra o arbítrio galopante que já escurece o horizonte.

Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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