Luciano Siqueira: Uma agenda crucial

Na complexa situação em que o país está mergulhado, há uma dissonância evidente entre a dimensão dos problemas (e a envergadura das medidas corretivas) e o discurso meramente imediatista.

A rigor, isso acontece de ambos os lados — no governo e na oposição.

No governo, encabeçado pela minúscula e desmoralizada figura de Michel Temer, mas verdadeiramente conduzido pelo ministro Henrique Meirelles (em nome do Deus Mercado), a fala se concentra no "agora" e manipula indicadores econômicos para sustentar a balela de que a economia está se recuperando.

Mesmo o futuro mediato aparece borrado no discurso governamental.

Na verdade, Temer, Meirelles et caterva evitam expor os verdadeiros fundamentos de sua agenda regressiva, sintonizada com os ditames do capital financeiro internacional, que gerou a atual crise global e a administra à revelia das necessidades e dos interesses dos povos.

Mutatis mutandis, sob a direção dessa gente o Brasil caminha para se tornar uma imensa Grécia.

No campo oposicionista, devemos reconhecer, o que sobra em justa indignação e contundentes protestos, falta em debate consistente sobre possíveis saídas para a crise.

Ainda são tímidas as iniciativas com esse teor.

Nesse sentido, o PCdoB esboça uma importante contribuição no Projeto de Resolução do seu 14º Congresso, recém-lançado (http://zip.net/bbtLX4).

Nele, sobre a base de uma multilateral análise das atuais circunstâncias do mundo e do Brasil e de uma bem fundamentada avaliação dos governos Lula e Dilma e da natureza e dos propósitos do golpe institucional em curso, propõe-se uma ampla, plural e convergente conjugação de forças, assentada numa agenda comum.

Uma agenda hoje crucial para os destinos do país – sob a primazia da questão nacional – que envolve a restauração da democracia e do estado democrático de direito, incluindo garantias constitucionais no combate à corrupção; a retomada do desenvolvimento econômico em bases soberanas, o estímulo à produção; a defesa da Petrobras e do regime de partilha do pré-sal e da engenharia nacional; a manutenção e a ampliação dos direitos do povo, a valorização do trabalho, a distribuição de renda e a inclusão social.

Uma agenda assim tão ousada acena tanto para o estancamento da atual regressão neoliberal como para o redesenho de um novo projeto nacional de desenvolvimento.

Implica, entre muitas empreitadas complexas, o desmonte da engrenagem macroeconômica que em mais de três décadas vem obstaculando o progresso do país.

Daí a irrecusável tarefa de combinar a resistência imediata, no nível em que se apresenta, com a construção técnica e política que a agenda sugerida pelo PCdoB requer.

Luciano Siqueira

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