Sem espaço para a Ciência

Em palestra na 69º reunião anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece no campus Pampulha, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o presidente da Fundação Maurício Grabois e ex-presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo acusou afronta ao desenvolvimento ao destacar que “em um governo que defende uma economia subalterna, como o de Michel Temer, não há espaço para a Ciência. É um governo que entrega a Nação e tudo quanto nela existe – solo, subsolo, pesquisas, avanços tecnológicos”, afirmou sob aplausos do público presente. Neste sentido, ele defendeu a reestatização dos polos nevrálgicos da economia nacional para viabilizar o desenvolvimento econômico com progresso científico, tecnológico e da inovação. “O sistema financeiro tem de estar sob o controle do Estado. O monopólio do comércio exterior tem de ser estatal. É assim na Índia, é assim na China, esta a nação que mais cresce no mundo”, exemplificou .

Rabelo foi palestrante da mesa “Estado Democrático de Direito e a Retomada do Desenvolvimento Nacional”, e teve o cientista ex-presidente e presidente de honra da SBPC, físico Ênio Candotti, fazendo contraponto a algumas de suas teses e como intermediadora das discussões a deputada federal Jô Moraes (PCdoB/MG).

Para Rabelo, uma economia em desenvolvimento como a nacional, que há bem pouco tempo cresceu e se incorporou ao mercado externo de forma jamais vista, pois não somente como exportadora de produtos primários, precisa da condução do Estado para ser forte, eficiente, geradora de emprego e renda, de inclusão, de ciência, tecnologia e inovação “O problema do Brasil é reerguer a estratégia nacional de industrialização de forma sólida, pois esta é a base da mobilidade social”.

Extrativismo

Ele entende que o País só crescerá e se desenvolverá com a população gerando e participando da riqueza nacional e isto só é possível com um Estado forte, definindo os rumos a seguir. “É preciso deixar claro que a mobilidade social depende da industrialização e é também a indústria que puxa o setor de serviços, os demais setores. Há um engajamento, uma inter-relação”. Para ele, o novo extrativismo com base na exportação primária, como os ocupantes do poder no Brasil novamente tentam fazer não se sustenta, é um retrocesso a ser combatido. “Hoje a neocolonização está levando às guerras que destruíram e dividiram a Líbia em várias regiões e agora estão tentando com a Síria. É um movimento expansionista e que tem de ser combatido”, defendeu.

Ao citar o predomínio do financismo, do ganho pela exploração do capital, dos juros por poucos em detrimento da imensa maioria, do desenvolvimento nacional, da geração de emprego e renda e da industrialização, Renato Rabelo citou o fato de o presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o empresário Benjamin Steinbruch ter em caixa R$ 2 bilhões. “Então, ele prefere ganhar em títulos do tesouro, em exploração do capital, a investir e reinvestir no desenvolvimento nacional, na CSN. Esta é a lógica perversa do capital em benefício de uns poucos”, afirmou.

O presidente da Fundação Maurício Grabois também fez a defesa intransigente da participação popular em prol das Diretas Já! para mudar o atual quadro que “atrasa o Brasil, que aniquila com as conquistas sociais, com a democracia, com o desenvolvimento tecnológico já conquistados. A prioridade do Brasil tem de ser o desenvolvimento com democracia, com autonomia”, enfatizou.

Corrupção

Para o cientista Ênio Candotti falta coragem para dizer que não é o combate à corrupção que une a Nação. Há determinados momentos em que temos de fazer escolhas contundentes e uma delas é dizer que desenvolvimento com ditadura, não! Este pensamento monetarista vem de longe. Temos de avançar nas teses, nas discussões, incluir todos e principalmente novos atores nas discussões. Faltou incluir, recorrer às forças que se organizaram com e a partir da Constituição de 88 e que não foram incorporadas, não estão ouvidas e nem participam. Elas têm contribuições a dar, disse ao citar exemplos de organizações existentes na Amazônia, onde reside.

Alavanca dos movimentos sociais

Candotti e a teoria do equilíbrio
“Em um barco, o ponto de apoio da forquilha não é o barco, mas a água. Então o barco está como peso e para levantar este peso eu preciso ampliar este braço, demonstrou com um metro articulado de madeira, e reduzir a outra parte, o outro lado do braço, antes da forquilha. Assim eu poderei aliviar a fadiga humana. Mas os economistas teimam em dizer que a forquilha está aqui (mostrando o barco)”. Ele lembrou que em 1500, Galileu Galilei descobriu isto. Todos os barcos eram construídos pensando que o ponto de apoio era a forquilha. Com esta descoberta, de que era a água, esta aplicação da ciência pôde aliviar a fadiga de muitos barqueiros que acreditavam na teoria errada, ponderou.

“Nossos economistas, ainda hoje teimam e estão colocando o ponto de apoio na forquilha do barco do desenvolvimento. Eles estão excluindo, a sociedade, os movimentos sociais, os protagonistas, aqueles que criam a riqueza do País e que são a riqueza do País, da discussão econômica”, acusou. “Colocar o remo na água significa apoiar a alavanca dos movimentos sociais. E vocês não encontram nem nos movimentos de governo, nem passa por perto apoiar o ponto de apoio da alavanca. O que me preocupa e que mesmo os mais progressistas insistem em manter o ponto de apoio na forquilha. Não se encontra nos documentos deles lições sólidas sobre o papel dos movimentos sociais, da sociedade em geral. Como reconstruir uma linha democrática para o nosso País se o projeto de desenvolvimento não colocar como ponto de apoio do remo do barco da Nação, a sociedade? Não dará certo. Temos de construir juntos”, disse.

Dosimetria da pena

Durante a sua exposição, Candotti fez a defesa do ex-presidente da Eletronuclear, um dos mais importantes cientistas da área nuclear do Brasil, o almirante Othon Silva, responsável pelo projeto do submarino nuclear brasileiro e condenado na Lava Jato a 43 anos de prisão. Candotti disse que foi contrário ao desenvolvimento e às pesquisas nucleares à época da Ditadura Militar, porque não se pode dar este poder a ditadores. Imagine-os com conhecimento para desenvolver uma bomba atômica? Mas se disse indignado com o que aconteceu ao almirante, um pesquisador, um físico, um homem da ciência reconhecido como tal. Hoje temos um Geddel solto e um cientista preso, disse.

Jô Moraes destacou a denúncia de Candotti em relação à parcialidade da Justiça: “A dosimetria da pena ao almirante não é pelo crime que ele possa ter cometido. É pela ousadia de querer fazer com que o País domine a ciência nuclear como passo fundamental da soberania. É por isto que ele está sendo condenado. Um homem de 70 anos, quando malas de R$ 500 mil estão soltas por ai”, criticou.

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