Ana Rocha: Bravas lutadoras numa maioria masculina

A história dos metalúrgicos brasileiros talvez se coloque entre as experiências mais significativas no processo de formação da classe trabalhadora no país. No início do século XX, a categoria passou a assumir papéis decisivos nos principais eventos político-sindicais, sobrevivendo e recriando sua identidade através de conjunturas econômicas e políticas diversas, nas quais foi chamada a responder pelos desafios da sua representação e em função da contestação de políticas e práticas lesivas aos trabalhadores (Ramalho e Santana, 2001).

 

As lutas do ABC paulista nos anos 70 e 80, concreta e simbolicamente, coroaram a trajetória percorrida pelos metalúrgicos brasileiros ao longo do século XX, dando-lhes visibilidade e revelando o alcance de sua atuação. O movimento operário reaparece e se organiza a partir das fábricas, reivindicando sua autonomia em relação ao Estado e às organizações políticas. Nesse quadro marcado por um movimento operário emergente e um sindicalismo em vias de reestruturação em São Bernardo, é que se começa a questionar que nível de desenvolvimento atingiram as práticas reivindicatórias das operárias metalúrgicas e em que medida o movimento operário sindical de São Bernardo se redefiniu em face das práticas das operárias.

 

Nesse período foi realizado o 1º Congresso da Mulher Metalúrgica de São Bernardo do Campo, de 21 a 28 de janeiro de 1978. Organizado pela direção sindical, o Congresso tinha com o objetivo estimular a participação das mulheres nas lutas sindicais pois, apesar do aumento do seu número nessa categoria, elas permaneciam praticamente ausentes das atividades sindicais, das assembleias e dos congressos. A pauta do Congresso tratou de “As mulheres e a legislação do trabalho”, “As mulheres e as condições de trabalho” e “As mulheres e o sindicato”. Vieram à tona nas discussões, questões como a desigualdade salarial, as más condições de trabalho”, as punições frequentes, o controle dos chefes sobre o uso do banheiro, o aumento dos ritmos de produção, os preconceitos raciais, a necessidade de creche, dentre outras. Esse Congresso foi o ponto de partida para um ciclo de congresso de mulheres de outros sindicatos. Em 1986, realiza-se em São Paulo o 1º Encontro Nacional da Mulher Trabalhadora.

 

No Rio de Janeiro, trabalhos têm demonstrado a importância política e social da categoria. A sede do sindicato do Rio de Janeiro foi local de eventos significativos para o país e para a cidade. Foi palco, por exemplo, da famosa assembleia dos marinheiros, às vésperas do golpe militar de 64.Também foi centro de recolhimento de doações para as vítimas da enchente que flagelou a cidade em 1966. Justamente por seu papel político proeminente, durante o período da ditadura, a sede do sindicato sofreu invasões e depredações. Houve fechamento temporário e perseguição política a militantes metalúrgicos, bem como depredação de suas instalações e arquivos.

 

Os metalúrgicos do Rio de Janeiro sempre tiveram uma situação particular no que diz respeito às empresas de sua base territorial. Com exceção do setor naval, a maioria das firmas ao longo dos anos 80 e 90 manteve suas características: porte médio ou pequeno e tecnologicamente ultrapassadas. Quanto ao número de trabalhadores, a categoria foi considerada, durante muito tempo, a segunda em tamanho em todo país (Ramalho e Santana,2001). Mas teve uma redução drástica devido aos efeitos da reestruturação do setor…. Assim de uma categoria de 150 mil em 1979, passou para 40.000….

 

Constata-se, por sua vez, uma baixa presença feminina, de apenas 15% contra 85% masculina. Idade média de 30 a 49 anos e a escolaridade concentrada no 1º e 2º graus. Observa-se ainda um baixo índice de sindicalização feminina. Do total se sócios do sindicato, apenas 5,17% são mulheres, enquanto a média nacional é de 20%. Também se verifica diferença salarial entre homens e mulheres e o maior índice demissão entre mulheres sócias.

 

Em pesquisa realizada entre trabalhadoras metalúrgicas da FAET, conseguiu-se aferir sua percepção sobre o significado do trabalho e da sobrecarga doméstica em suas vidas. Para elas, o trabalho apresenta-se como fundamental, sobretudo no aspecto da sobrevivência pessoal e familiar, valorizado para algumas como fator de autonomia econômica. Elas admitem a sobrecarga doméstica, já que a maioria executa todas as tarefas em casa, aí incluído o cuidado com os filhos e, em alguns casos, com os netos.

 

É justamente a tensão provocada pela necessidade de conciliar as exigências dos cuidados com a maior participação da mulher no mundo do trabalho é que vem impulsionando mudanças no comportamento reprodutivo das mulheres, com repercussões demográficas e sociais. O adiamento da maternidade ou a opção de não ter filhos, bem como a diminuição do número destes são algumas das mudanças. O novo perfil da mulher trabalhadora também tem a ver com essa realidade. A pesquisa na FAET confirmou este novo perfil da mulher trabalhadora mais velha, com filhos. Por outro lado, a falta de perspectiva de mudança no âmbito do trabalho e da vida é uma das questões que chama atenção entre as trabalhadoras pesquisadas na FAET.  Talvez aí esteja o motivo da baixa sindicalização, da dificuldade de uma luta organizada por seus direitos e por demandas mais sentidas nas suas condições de vida e trabalho, como creche e plano de saúde.

 

Nos 100 do sindicato dos metalúrgicos, se houve uma redução da base da categoria, se as mulheres são minoria, se enfrentam a desigualdade salarial e a sobrecarga doméstica, não faltou espirito de luta e resistência contra as investidas dos patrões, contra os ataques à democracia e aos direitos dos trabalhadores. Apesar da baixa sindicalização das mulheres devido aos obstáculos e sobrecargas em sua caminhada, muitas metalúrgicas se tornaram diretoras sindicais e tiveram papel de destaque nesses 100 anos do sindicato, em defesa dos direitos, contra as desigualdades e todo tipo de opressão.

 

Este jubileu ocorre, de um lado, no Brasil pós-golpe e no mundo capitalista em crise, onde uma onda conservadora visa a retirada de direitos, com a ameaça de reforma trabalhista e previdenciária e frear a caminhada libertadora das mulheres. Por outro, simbolicamente, coincide com os 100 anos da Revolução Russa, que descortinou a perspectiva socialista, de um mundo sem exploração.

 

Ao comemorar estas duas datas, as metalúrgicas buscam a garra de sempre para resistir às armadilhas do capitalismo em crise, acreditando na unidade de classe, na luta, para superar essa onda perversa e desigual.

 

 

 

Ana Rocha – jornalista e psicóloga, mestra em Serviço Social, Coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisa da UBM. Fez mestrado em Mulher e Trabalho na UERJ e publicou em livro sua dissertação: Trabalhadoras da FAET: Condições de Trabalho e Sobrecarga Doméstica. Foi Secretária da Mu7lher do Município do Rio. Atualmente é Assessora de Gênero do Sindicato dos Comerciários do Rio.

Este Artigo foi publicado na Revista Comemorativa dos 100 anos do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio.

 

 

 

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