Joan Edesson: Lampião e a Grota de 2018

Há exatos 79 anos, ao amanhecer de 28 de julho de 1938, tombou na grota de Angicos Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião. Aos quarenta anos, metade deles dedicados ao cangaço, morria ali o mais célebre dos cangaceiros, tocaiado num coito com uma única saída, exatamente um daqueles locais que ele dizia que não se devia ficar.
O Capitão Lampião demonstrou, nas duas décadas em que governou os sertões, ser um competente comandante de guerrilha, escapando das forças policiais e de outros bandos armados de sete dos nove estados nordestinos. Navegando entre a história e a lenda compõe, no imaginário popular do nordeste, a santíssima trindade sertaneja, ao lado do mestre Luiz “Lua” Gonzaga e do “padim” Padre Cícero.
Ao longo da vida Lampião cometeu dois erros muito graves, erros para os quais ele mesmo alertava que não se devia cometê-los. O Capitão dizia sempre que não atacava cidade com duas torres de igreja. Não se tratava, como pensam alguns, de simples superstição. Na avaliação do comandante da caatinga, cidade com duas igrejas era cidade de porte maior, sendo maiores os riscos de uma derrota ao se atacá-la.
Mesmo dizendo isso, Lampião incorreu no erro de um ataque a Mossoró, no Rio Grande do Norte, cidade grande para os padrões sertanejos da época. Sofreu ali a sua pior derrota, até hoje celebrada pelos moradores da cidade. Sabia que era um erro e mesmo assim o fez, a um custo alto.
Seu segundo grande erro foi fatal. Dizia que não ficava em coito de uma só saída, ratoeira, como ele chamava. Mas entrou naquela grota em Angicos, com uma só saída, mesmo alertado por alguns, como Luís Pedro, que ali permaneceu a contragosto. Esse segundo erro lhe custou a vida, e Lampião foi dos primeiros a tombar, fulminado pela metralha da “bordadeira” que acordou os sertões naquela manhã, semeando pânico e terror.
Admirador confesso do Capitão, sempre cito esses dois exemplos, procurando não cometer os mesmos erros. Arremeter contra cidade com duas torres de igreja, sem ter forças suficientes para isso, é ter a certeza da derrota. Da mesma forma, ir para uma batalha com apenas uma saída é suicídio puro.
Nas discussões sobre o enfrentamento e as formas de derrotar o golpe e a direita que o perpetrou, 2018 aparece, quase sempre, como a cidade com duas igrejas e a grota de Angicos a um só tempo.
Por mais que as forças conservadoras que se associaram para golpear a democracia, barrar avanços sociais e impor um duro pacote de reformas que penalizam os trabalhadores e os mais pobres apresentem contradições internas e não sejam um bloco coeso, no fundamental essas forças estão unidas. No fundamental, que é impor a agenda do grande capital, essas forças estão unidas. Elas são uma cidadela com duas igrejas. Não dá para achar que esse bloco será derrotado facilmente. Na verdade, acho que já tivemos o nosso Mossoró e fomos derrotados pela direita, e alguns de nós ainda não se deram conta disso.
Mais grave ainda é que setores consideráveis das forças democráticas e populares têm 2018 e a candidatura de Lula como única saída. Mesmo considerando que Lula é o nome mais forte no campo popular para um enfrentamento eleitoral, considerar que essa é a única saída pode corresponder ao pernoite do Capitão na grota de Angicos.
Naquela manhã, antes mesmo que os pássaros dessem bom dia, a fúria da tropa comandada por João Bezerra se abateu sobre Lampião, Dona Maria, Luís Pedro e tantos outros. A metralhadora ocupou a única saída do coito, não havia escapatória.
Se agirmos assim, se considerarmos que só temos uma saída, uma opção de enfrentamento, talvez sejamos presas fáceis da metralha da direita, mais nefasta e cruel que os “macacos” do tenente João Bezerra e do sargento Anacleto.
Ou gastamos nosso “juízo” para encontrar múltiplas formas de enfrentamento e resistência ao golpe, ou ficaremos presos à palavra de ordem de “Lula 2018”. E 2018, cada vez mais, parece uma ilusão.

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