Haroldo Lima: Sinais que afetam a produção de petróleo no mundo

A manchete do Valor de 1 º de agosto passado, “Licença ambiental bloqueia investimentos em petróleo”, mostra que o desenvolvimento do Brasil não é um objetivo perseguido com firmeza. Empresas não conseguiram perfurar um único poço em áreas que arremataram com este objetivo em 201 3, por problemas ambientais não equacionados.

É uma leniência significativa com o desenvolvimento do país, de resto presente em outros procedimentos. Em 2008, suspendemos toda licitação de blocos exploratórios no país por cinco anos, não permitindo qualquer exploração petrolífera em área nova. Também, após 1 1 anos da descoberta do pré-sal, só fizemos um leilão, e de um único bloco.

Essa política de contenção exploratória no setor petrolífero não é de interesse nacional. Agora, choca-se com a situação que surge no mundo, onde a demanda por petróleo tende a cair. Para realçar a questão, v ale uma breve referência histórica.

Foi avassalador o crescimento da indústria do petróleo nos Estados Unidos logo após o êxito do famoso poço do “coronel” Drake, na Pensilvânia, em 1 859. Cinco anos depois, já existiam 543 empresas no ramo petrolífero, todas trabalhando para produzir e vender o combustível iluminante, o querosene.

Eis que, em 1 882, surge a lâmpada incandescente e a iluminação a querosene fica sem futuro. A indústria do petróleo, com seu principal produto desbancado, não sobreviveria como grande indústria se duas inovações não tivessem aparecido: os motores dos ciclos Otto e Diesel, criados respectivamente em 1878 e 1894, e que usavam como combustível a gasolina e um óleo derivado do petróleo.

Em torno desses dois motores, desenvolveu-se enormemente a indústria automobilística mundial e o petróleo encontrou seu amplo escoadouro, passando a ser usado basicamente para movimentar veículos pelo mundo afora, hoje em número que ultrapassa um bilhão.

V em então a nov idade do momento: esses v eículos passam agora por um ponto de inflex ão e sua produção av izinha- se do declínio.

No dia 5 de julho passado, a montadora sueca Volvo anunciou que “todos os seus veículos a partir de 201 9 terão motores elétricos”.

A Bloomberg New Energy Finance mostrou que hoje, na Noruega, “mais de um terço de todos os carros nov os são elétricos” e que o país “planeja, para 2025, não mais vender carros nov os a gasolina ou a diesel”.

A China, a gigante socialista da Ásia, prepara-se para liderar o futuro mercado de carros elétricos, já estando, em números absolutos na dianteira no mundo, com os EUA e o Japão.

Em julho deste ano, o presidente francês, Emmanuel Macron, informou que seu país “v ai encerrar as vendas de veículos a gasolina e diesel até 2040”.

Se o crescimento se mantiver, em 2030 cerca de 80% dos veículos novos vendidos no planeta serão elétricos

Nos Estados Unidos, a Tesla, que fabrica só carros elétricos, vendeu no ano passado 7 6 mil desses carros e no primeiro trimestre deste ano 7 0% a mais que no mesmo período do ano anterior.

Em abril passado, um fato surpreendente foi noticiado: o v alor de mercado da Tesla, fundada em 2003, chegou a US$ 58 bilhões, maior que o da Ford e maior que o da GM, as duas mais tradicionais empresas automobilísticas da América.

A Jaguar Land Rover e as alemãs Audi e Mercedes Benz anunciaram que lançarão modelos elétricos em 201 8 e 201 9, a alemã BMW divulgará o seu carro em setembro próximo e a Chevrolet lançou o seu “elétrico popular”, batizado de “Bolt”.

O número de carros elétricos em circulação ainda é incomparavelmente menor que o dos tradicionais. O petróleo, ademais, tem muitos outros usos. Mas os fatos indicam uma reorientação, a curto prazo, da indústria automobilística. Projeções dão conta de que, se o crescimento de 201 3 para cá se mantiver, em 2030 cerca de 80% dos veículos novos vendidos no planeta serão elétricos. Daí a Bloomberg afirmar que não estamos em uma “época de mudanças, mas ante a mudança de uma época”. Isto deve nos levar a rever planos e atitudes.

Inicialmente constatar que essa provável retração na demanda de petróleo acontece justo quando passamos a ter muito petróleo. E acontece no quadro da chamada Quarta Revolução Industrial, que aponta para uma grande conectividade digital e para a automação. Os fatos nos remetem ao ex -ministro de Energia da Arábia Saudita, Sheik Ahmed Yamani, para quem “a idade da pedra terminou não por falta de pedra, mas porque mudou a tecnologia, e a idade do petróleo acabará não por falta de petróleo, mas também pela mudança tecnológica”. Impõem-se mudanças.

A primeira delas é de atitude: certa leniência na busca do desenvolvimento deve ser afastada. Interessa-nos aproveitar o petróleo que temos o mais rápido possível, sem o que o tempo passará e poderemos ficar “pendurados na brocha”.

A Petrobras deve procurar aprofundar sua condição de empresa “verticalizada”, que atua do poço ao posto; “integrada”, presente em petroquímica, fertilizantes, distribuição, biocombustíveis etc.; internacionalizada.

Em exploração e produção, seu esforço deve ser voltado para o pré-sal e em campos estratégicos. Seu endividamento não deveria ter-lhe levado a vender, por exemplo, os campos de Carcará, no pré-sal, onde já era operadora. As grandes empresas frequentemente têm dívidas, grandes dívidas. Fazem certos desinvestimentos, mas, tendo grande geração de caixa e sendo estatal, procuram “rolar” a dívida.

Assim como grandes companhias que estiveram durante quatro décadas no Mar do Norte e de lá saíram quando campos outrora gigantes entraram em declínio, também a Petrobras deveria passar para grupos menores, especialmente brasileiros, a continuidade da produção em campos que lhe foram fundamentais há décadas, mas que hoje já estão em declínio.

A Petrobras não deve fazer investimentos em campos que já se encontram em declínio, porque precisa fazê-los no pré-sal, muito mais produtivo. Esses campos, na Bacia de Campos, no Nordeste e em outras bacias podem ser base para crescimento de empresas menores que, fazendo aí investimentos, podem revitalizá-los, aumentando a produção, emprego e rendas. Ganharia a União, Estados e municípios e, com os royalties aumentados, a educação e saúde dos brasileiros.

Haroldo Lim a é engenheiro, consultor na área de petróleo, ex -diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocom bustív eis (ANP)

Publicado no jornal Valor Econômico

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