“O Capital” foi impactante na luta e para o Brasil se compreender

 

 

Palestrantes no segundo dia do Seminário Os 150 anos do Capital

Palestrantes no segundo dia do Seminário Os 150 anos do Capital

 

A obra central do filósifo alemão Karl Marx (1818 – 1883 ), teve grande impacto no debate sobre a sociedade, a economia e a política no mundo inteiro. “O Capital” ainda é extremamente atual, principalmente por trazer respostas robustas sobre o funcionamneto do sistema capitalista e suas crises. Tanto é verdade que a obra chega a ser considerada “profética”, tendo em vista que grande parte das suas previsões acabaram se tornando bastante semelhantes ao mundo que hoje vivemos.

O surgimento dos enormes conglomerados financeiros e industriais, que subverte a lógica da concorrência do capitalismo do século 19; o processo de substituição de mão-de-obra por máquinas cada vez mais sofisticadas; a irradiação da forma de mercadoria para quase todos os produtos e relações sociais; as crises econômicas sucessivas; a política como manifestação de conflitos sociais distributivos; o predomínio crescente da especulação financeira sobre a criação de valores efetivos, com a conseqüente projeção para um futuro incerto de todos os preços e expectativas – tudo isso está em “O Capital”.

“O Capital” e sua influência no pensamento brasileiro

O professor Pedro Fonseca teve como foco de sua palestra as repercussões geradas pela obra fundamental de Karl Marx no pensamento político brasileiro. Com a tese de que os estudos sobre a obra, em maior profundidade, deram-se somente a partir das décadas de 1950 e 1960, Fonseca apresentou uma linha do tempo dos pensadores e escolas de influência marxista no Brasil, tais como Caio Prado Jr. (1907-1990), Nelson Werneck Sodré (1911-1999), Alberto Passos Guimarães (1908-1993), as escolas da USP e Unicamp. Para Fonseca, o marxismo no Brasil acabou adquirindo uma ênfase acadêmica muito marcante. Teria, assim, deixado às ruas para se tornar “metodo de análise sociológica”.

Um dos primeiros debates de maior profundidade ocorrido entre os marxistas brasileiros foi a polêmica sobre o entendimento acerca das condições históricas da formação do Brasil na primeira metade do século XX: se era uma sociedade feudal ou semi-feudal, se era capitalista ou até se era uma mistura das duas coisas. Este debate adquiriu grande relevância exatamente porque seria definidor para a estratégia da luta política real daquele momento, ou seja, o que se procurava esclarecer era qual o tipo e em que circuntâncias concretas seria construída a revolução brasileira?

Para Fonseca, a obra marxista teve, e ainda tem, grande relevância no debate de ideias no país. Porém, segundo ele, a obra O Capital teve uma leitura tardia no Brasil. Uma das hipóteses levantadas é a predominância do pensamento anarquista na esquesda brasileira do final do séc XIX e início do século XX. Outra é o fato de que o Partido Comunista, após sua fundação, em 1922, teria se concentrado com mais ênfase nas obras de Lênin, como “O Estado e a Revolução”. Além disso, cita a dificuldade do estudo de “O Capital” devido a sua complexidade.

Uma arma poderosa na mão dos operários

Já o historiador Diorge Konrad fez questão de registrar as inúmeras confirmações, no estudo da história do Brasil, da influência de O Capital sobre os nossos operários, o que se deu, segundo ele, desde o final da segunda metade do século XIX.

A influência exercida no mundo pela Revolução Russa, de 1917, soma-se ao impacto da literatura marxista, e o seu estudo por parte dos trabalhadores. Foram elementos fundamentais de emulação da luta política e social também no Brasil. Konrad vai mais além: “A obra O Capital contribuiu decisivamehte para iluminar nossos pensadores, assim como o conjunto da literatura marxista. Essas obras foram (e continuam sendo) fundamentais para a análise do Brasil. Para o Brasil se reconhecer na história e para avançar na história”.

Para o economista Eduardo Costa Pinto, é inquestionável que o marxismo exerceu (e exerce) grande influência. “Não o Marx perfeito, dono da verdade, segundo as interpretações”. Mas, segundo ele, principalmente na sua essência, como ferramenta capaz de produzir outras leituras e um pensamento político, econômico e filosófico avançados.

Pinto defendeu que as categorias de análise do capital e da sociedade elaboradas por Marx estão mais atuais do que nunca, no atual cenário de mais (prevista) crise do sistema capitalista na sua forma neoliberal.

Como foi a mesa anterior

A mesa que inaugurou o Seminário, no dia 18, foi “O Capital e a Concentração da Riqueza e do Poder”, com a participação do economista Márcio Pochmann (UNICAMP), do historiador Paulo Visentini (UFRGS) e do cientista social José Vieira Loguércio (FMG/RS).

Os palestrantes analisaram o processo de desenvolvimento do capitalismo, desde a chamada “acumulação primitiva”, passando por sua fase concorrencial, até chegar à sua atual etapa monopolista e financeirizada, na qual o capital produtivo é cada vez mais subordinado pelo capital “fictício”, levando à estagnação crônica da produção e as crises cada vez mais impactantes e de difícil solução.

O seminário “150 anos de O Capital” conta com a participação de renomados estudiosos das áreas de economia, história, ciências sociais e filosofia, oriundos de seis universidades, de três diferentes Estados. Seguirá nos dias 25 e 27 de setembro, sempre às 18h30, no auditório da Fetrafi Sul (Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Instituições Financeiras do RS), rua Fernando Machado, 820, Porto Alegre.

É organizado pela Fundação Maurício Grabois, pelo Instituto Histórico Geográfico do RS, Sindicato dos Economistas, Departamento de Economia e Relações Internacionais da FCE/UFRGS, DCE/UFRGS e DAECA e pela Sociedade de Economia. Outras vinte entidades sindicais, populares e de ensino são co-promotoras do evento.

Confira a programação:

25 de setembro – segunda-feira
Mesa: Estrutura, método e teoria do capital
Palestrantes: economista Luiz G. Belluzzo (UNICAMP), filósofa Madalena Guasco (PUCSP) e economista Gláucia Campregher (UFRGS).
Coordenação: economista Claudio Accurso.

27 de setembro – quarta-feira
Mesa: As crises capitalistas e a atualidade do capital
Palestrantes: economista Leda Maria Paulani (USP), economista Aloísio Barroso (FMG) e economista Marcelo Milan (UFRGS).
Coordenação: economista Mark Kuschick.

Por Clomar Porto

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