Luciano Coutinho e o papel desenvolvimentista do Estado

Em visita a Fundação Maurício Grabois, o economista Luciano Coutinho, presidente do BNDES durante todo o ciclo de governos de Lula e Dilma, discutiu problemas e perspectivas da economia com economistas e quadros do PCdoB.

Luciano Coutinho, Renato Rabelo e Nádia Campeão durante colóquio Foto: Cezar Xavier

O presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo, explicou a iniciativa de reunir economistas de relevo nacional para subsidiar o Partido com análises e opiniões sobre a conjuntura política e econômica. Ele aproveitou para apontar os principais questionamentos que gostaria de ver comentados por Coutinho, tocando em questões da crise econômica mundial, as perspectivas econômicas do atual governo e os significados e impactos da indústria 4.0 no mundo do trabalho.

Coutinho fez um resgate da ordem econômica capitalista que se constituiu desde a crise do final dos anos 1920, com o objetivo de regular o sistema financeiro e produzir riquezas. Após os 30 anos dourados, após a Segunda Guerra Mundial, com intensa intervenção dos estados nacionais para controlar o fluxo de capitais e distribuir riquezas, ele mostra como a ruptura com o acordo de Bretton Woods faz com que os EUA assumam gradualmente o protagonismo do sistema financeiro, assim como sua desregulamentação. “Com Bretton Woods, houve um grande crescimento econômico e criação de uma importante classe trabalhadora na indústria, além da intensa urbanização ocorrida nos anos 50, 60 e 70”, disse.

O período neoliberal

“A partir dos anos 1970 e 1980, é feito um diagnóstico errado que prevaleceu: o problema é o estado”, diz ele, sobre a assunção de Reagan e Thatcher, líderes políticos de EUA e Inglaterra, que liberam os fluxos financeiros. Quando a crise econômica eclode em 2008, já havia mais de trinta anos com gestão neoliberal e desregulamentação crescente do sistema bancário e o livre movimento de capitais internacionais. “No período anterior, a entrada de capital produtivo era bem vinda. Foi assim que Getúlio financiou a produção no Brasil”, disse. Depois, já nos anos 1990, a desregulamentação e abertura econômica crescente, acompanhada de desproteção da indústria, com predomínio de ideias que vieram do Consenso de Washington, forçaram a abertura econômica e financeira dos países, tornando-os campo de operação dos mercados e de grandes empréstimos.

Coutinho destaca que, nesse período, Coreia do Sul e China, como integrantes de um pequeno elenco de países, entenderam a “natureza do jogo” e souberam adotar estratégias que beneficiaram o desenvolvimento desses países. “A China não se abriu ao movimento de capitais, com manutenção de monopólio e taxa de câmbio perenemente depreciada, portanto, competitiva”, mencionou.

Foi um período de sucessivas internacionalizações de grandes bancos e integração do sistema financeiro, que termina em 2008, na opinião de Coutinho, com cerca de 20 bancos globais de importância sistêmica. “Foi um ciclo de avanço heterogêneo, pois para os países desenvolvidos, houve acumulação de riqueza financeira, mas não de avanço da estrutura produtiva, enquanto em países em desenvolvimento foi um período de de avanço produtivo na China, por exemplo”, sinaliza ele.

Coutinho também destaca que foi um período de muito progresso tecnológico das primeiras etapas das tecnologias de informação, com liderança de americanos e japoneses, e depois coreanos.

Países eram devedores desse sistema financeiro globalizado, ou uns poucos países eram credores nesse sistema. Com exceção da China, que manteve rígido controle de seu setor financeiro, com tudo muito observado e controlado, resultado de decisão soberana e política. Assim, ela não estava integrada inapelavelmente ao mercado internacional, “afinal, contra ele você pode fazer muito pouco”.

Aquele foi um ciclo que levou à criação de bolhas de crescimento, dos anos 1990, até 2008, com capitalismo permitindo e estimulando essas bolhas especulativas e a alavancagem dos agentes de endividamento. “As bolhas são autorreferenciadas e autoalimentadas. Os agentes econômicos veem que determinada área financeira esta expandindo seus preços, e, mesmo não sendo sustentável a expansão, estimulavam isso, com sangue frio para sair antes da queda dos preços”, explicou. Reinante nesse período eram as operações com mercado de derivativos, aposta feita num índice de preços, numa variável derivada de outra. O mercado se tornou enorme e os bancos especulavam muito em derivativos.

O fim de uma era

Nos EUA, ele lembrou que a bolha imobiliária do início dos anos 2000, contou com a conivência das agências de risco. Quando a bolha estourou, os bancos começam a travar o crédito. “O banco Lehman Brothers quebra em 15 de setembro de 2008 e para completamente o sistema financeiro internacional. O sistema ficou literalmente paralisado com medo de fazer transações bancárias normais, como emprestar de ou para outro banco. Ninguém sabia o grau de comprometimento da contraparte”, contou.

“Já são nove anos de crise sem que o sistema capitalista tenha saído dela”. Segundo Coutinho, isso obrigou os países a utilizarem no limite os bancos centrais. A princípio, os países tentaram reagir fazendo o déficit fiscal. A crise derrubou a receita tributária e a simples manutenção do gasto público normal, que não é fácil de comprimir, provocou um déficit muito alto.

Depois veio a política de superliquidez dos bancos centrais, que já havia começado com a redução rápida da taxa de juros. Não era sustentável a política fiscal com juros muito altos e baixaram a zero. “Tornaram os bancos centrais salvaguarda do sistema, comprando os papéis micados do mercado”, contou.

O Federal Reserv sempre teve aplicado seus recursos nos melhores e mais seguros papeis. Começa a comprar papéis no mercado do subprime e chegou a ter 6 trilhões de dólares em papeis imobiliários. “Entraram no mercado para salvar a banca pesadamente”, diz Coutinho. Houve estatização de bancos na Inglaterra, na Espanha, além de haver injeções de capitalização dos bancos e compras de papeis.

Um dos poucos países não afetados pela crise bancária foi a China, que tinha mantido controles e impedido operações especulativas. “A China tem problemas com bancos pelo papel superdesenvolvimentista, com empreendimentos duvidosos, mas, estes, são problemas que se resolve em casa.”

O Brasil também sofreu pouco impacto. “Quando vivia de explorar a inflação alta e esta caiu com o Plano Real, vários bancos quebraram”, lembrou ele. Coutinho afirma que a legislação brasileira era conservadora, porque impedia alavancagens exageradas, por isso nao sofreu tanto a banca nacional, “mas várias empresas que investiram em derivativos sofreram duramente”.

Crise perene

“No governo, eu defendia que a crise era uma oportunidade para reduzir a taxa de juros. Ao viajar para entender isso, nos EUA e Japão, percebi que estava tudo parado e com medo nos bancos. Se não fizéssemos política compensatória do crédito no Brasil, entraríamos em recessão”, relata ele. Foi quando ele percebeu que essas políticas internacionais não passavam de paliativos.

O quantitative easing veio, então, para irrigar e oferecer liquidez comprando papéis no mercado, numa escala sem limites para além do juro zero. Com isso, deliberadamente manipulando a taxa de juros de papéis de longo prazo para criar uma superdemanda. Coutinho considera chocante a escala e a arbitrariedade dessas medidas adotadas, do ponto de vista das regras de mercado.

Nove anos depois, observa ele, esse processo de juro zero e negativo e expansão dos bancos centrais ainda não acabou. Ao longo do caminho, a Europa resistiu a isso pelo conservadorismo alemão, já que a Alemanha tem um sistema bancário predominantemente estatal. “O crédito na Alemanha é muito mais voltado para o produtivismo do que para a especulação”. Apesar disso, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, conseguiu o subterfúgio de fazer o quantitative easing para salvar o euro e forçou a primeira ministra alemã a entrar, apesar das resistências.

“O mundo ainda não saiu dessa política absolutamente extraordinária com 15 a 20 trilhões de dólares intervindo para salvar as finanças do sistema”, diagnostica o economista. O juro baixo ajuda a rolar dívidas, beneficiando os devedores. Ele também explica que essa política de juros zero e superliquidez também foi fundamental para evitar e sustentar que as bolsas tivessem espiral deflacionária. As políticas de forte liquidez atenuam a fuga massiva e o colapso das bolsas. No fim de 2010, a deflação e a perda de valor já está revertida e o total de riqueza financeira já está se recuperando.

Esta política não só salva os bancos, mas os grandes investidores e detentores de riquezas financeiras, pois inibe e recupera as bolsas e mercados de valores, parcela que está sob papéis financeiros e ações. “Faz-se tudo para preservar a bolha e o balanço dos bancos. A bolha começa a subir de novo com essa preservação do sistema como era. Assim, o dilema hoje é como os bancos centrais vão desfazer esse sistema devagar, sem promover um furo na bolha, afinal, esse sistema não pode durar para sempre”, analisa Coutinho.

Continuando sua análise do cenário econômico mundial, Coutinho afirma que essa crise destruiu muito emprego na produção, aumentou as dívidas públicas nos países desenvolvidos e produziu um sentimento de revolta e exclusão em vários segmentos na classe média. “A conta do neoliberalismo e o sacrifício de emprego começa a ser cobrados”, diz ele, referindo-se a um desgaste no sistema de representação política. “Esse processo não vai se normalizar. Pode colocar mais dez anos pela frente para digerir isso”, prevê ele.

Retomada não será espetacular

Após discorrer sobre o período dos Governos Lula e Dilma, o economista fez considerações sobre o atual momento político brasileiro. Em relação aos dados que indicam certo reaquecimento da economia e prognósticos, Coutinho opina que a recuperação em curso é muito lenta, em que a inflação baixa aumenta o poder de compra, observa-se um aumento do emprego informal, o que ameniza a agudeza do desemprego. As vendas de veículos começam a melhorar.

“Setores de classe média mais abastada ganharam muito dinheiro com altos juros. Uma camada social blindada a recessões. O topo da classe média que havia se endividado no ciclo econômico, já começou a reduzir a dívida. Quem continua estrangulada é a base da pirâmide, que perdeu emprego e remói dívidas”, destaca Coutinho. Desta forma, a desigualdade de renda deve ter aumentado muito nos últimos dois anos, em sua opinião. O economista acredita que em 2018 não haverá um “crescimento espetacular”.

Futuro tecnológico

Aproveitando-se da conhecimento sobre tecnologia e inovação acumulado por Coutinho pelo mundo, foi-lhe questionado, por último, as perspectivas para o mundo do trabalho com os avanços da indústria 4.0. “O capitalismo não sai da crise da noite para o dia, mas nos próximos dez anos vamos assistir transformações tecnológicas muito profundas, com impactos fortes sobre a sociabilidade humana e sobre a produção e a qualidade de vida”, antecipou.

Coutinho conta que o primeiro smartphone que se ligava à internet foi lançado dez anos atrás, e, hoje, temos um bilhão de celulares pelo mundo. A estimativa é que em 2030, daqui a treze anos, oito bilhões e 500 milhões, 95% das pessoas do mundo, terão smartphones. “Eles farão tudo, desde o entretenimento, até aspectos práticos da vida como as finanças, pois estamos digitalizando tudo. Com as pessoas crescentemente conectadas à internet, as projeções são de que todo e qualquer objeto poderá se conectar à internet”, diz ele, sobre a chamada “internet das coisas”.

Isso vai permitir sistemas de gestão do tráfego urbano, acabando com a cobrança de pedágio em cancelas, por exemplo. “As cidades inteligentes vão gerir o saneamento, a energia, o tráfego e a iluminação, por exemplo, de forma inteligente.”

Com a manufatura 4.0, o fluxo fabril será informatizado com eficiência, interligando cadeias produtivas conectadas e gerenciadas por sistemas de otimização. Os preços da robotização e da informatização do maquinário de fábricas tem caído possibilitando que elas façam não apenas o serviço menos qualificado do operário, como também do mais qualificado. “As fábricas já mantém funcionário especializado apenas no final do processo”, revela.

Já existem robôs colaborativos, que são aqueles que têm sensibilidade para perceber a presença humana no local de fábrica, diferente daqueles que impediam a circulação humana no local da fábrica por motivos de segurança. “A Kuka, fábrica alemã de robótica, foi vendida para a China sob protestos, já que o país asiático botou a mão na tecnologia mais avançada de robótica alemã”, noticiou ele.

Aliás, a China se percebe como líder nesse processo. Por isso, o país asiático mantém a conexão das massas na internet apenas com empresas chinesas campeãs, que nao possibilitam a entrada significativa das demais empresas estrangeiras, como Facebook e Google, consideradas vulneráveis à espionagem americana. “A China tem um programa de avanço na quarta revolução industrial, assim como a Coreia do Sul e o Japão têm estratégia nacional nesse sentido”, enfatiza. Segundo Coutinho, Obama criou 14 novos laboratórios de tecnologia com manufatura avançada, que Trump ainda não desativou. A Alemanha, por sua vez, é a maior produtora de bens de capital, mas a cadeia produtiva não está totalmente integrada.

Coutinho testemunhou como os japoneses estão lidando com a dificuldade de cuidar de uma população muito idosa e longeva, em que os filhos também são velhos e impossibilitados de cuidar dos pais. Por isso, criaram robôs enfermeiras humanoides, que lembram informações como aniversários dos filhos, filmes na TV, o horário do lanche e dos remédios, por exemplo. Outra aplicação óbvia do robô inteligente é o “automóvel autoguiado”, que Coutinho acredita que terá sua entrada no mercado controlada pela indústria. “Talvez venha o veículo elétrico antes do autônomo. Há muita pesquisa em baterias de ion de lítio para essa funcionalidade”.

Outros avanços já em aplicação são a manufatura aditiva, ou seja, as impressoras 3D para manufatura de objetos mais complexos. Além disso, a inteligência artificial propicia o “aprendizado das máquinas”, conforme o acúmulo de dados gera novas bases, a partir de algoritmos estatísticos, que organizam mostras, regularidades e perfis de comportamento. Esse novo perfil de inteligência artificial permite avanços médicos e na manutenção preventiva da fábrica, conforme as máquinas acumulam informação sobre seu desgaste e percebe que haverá um enguiço. “Virou coqueluche desenvolver algoritmos de inteligência artificial”, disse ele, sobre a importância dos profissionais de tecnologia da informação.

Com a microscopia atômica e eletrônica, cientistas conseguem enxergar moléculas e estruturas atômicas, o que tem possibilitado avanços na técnica de manipulação genética. “Uma nova técnica descoberta em 2015 tornou capaz a intervenção no DNA e a troca de uma letrinha, o que permite a edição genética e a correção de demarcador genético que esteja associado à doença ou característica do indivíduo, com a vantagem de não ser uma técnica transgênica, quando gene de outro animal é enxertado no DNA humano, por exemplo”, explica ele.

Coutinho revela que o custo do mapeamento genético de uma pessoa, que chegava a 100 milhões de dólares, pode ser feito hoje por mil dólares. Essas tecnologias devem favorecer que os animais ou plantas tenham matrizes mais saudáveis, que demandem menos cuidados. “A medicina passa a ser mais personalizada e preventiva do que curativa”, disse, mencionando ainda avanços na nanotecnologia, que se interligam com a inteligência artificial e a microscopia.

Dito isso, Coutinho afirma que o Brasil se desindustrializou prematuramente no ciclo neoliberal, quando de 25% de participação da indústria no PIB, caiu para 10%. Os empregos na indústria minguaram e migraram para baixa qualificação e serviços. “Os poucos que tentaram fortalecer a indústria nacional nos últimos anos são apedrejados hoje”, disse ele, sobre ataques da imprensa e investigações sobre agentes do governo que contribuíram para o financiamento da indústria, como o BNDES.

Questionado sobre o assunto, Coutinho defendeu que a integração de cadeias produtivas, hoje, pode ser uma ameaça à soberania nacional. “O BNDES tinha capacidade de controlar uma agenda positiva de integração de cadeias produtivas. Hoje, isso não é mais possível, deixando a indústria nacional vulnerável a espionagem industrial, por exemplo”.

“Todos os países estão reforçando suas estruturas tecnológicas e não estamos inventando a roda em defender isso no Brasil. Precisamos superar isso o quanto antes”, declarou, antecipando que tem trabalho em estudos e pesquisas sobre a aspectos da indústria nacional que podem ser estimulados para elevar o país a níveis internacionais.

Por outro lado, o sindicalismo vai ter que lidar com um mundo do trabalho em que a robótica substitui o trabalhador menos qualificado e a inteligência artificial substitui o trabalhador qualificado. “As implicações para a politica no mundo do trabalho são muito importantes”, mencionou.

 

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