Almirante Othon: minha prisão interessa ao sistema internacional

 

 

Almirante Othon e a ultracentrífuga idealizada por ele

Almirante Othon e a ultracentrífuga idealizada por ele

 

Pouco antes de ser libertado da prisão na Base de Fuzileiros Navais de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, na quarta-feira 11, pelo Tribunal Regional Federal da 2a Região, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, 78 anos, encaminhou a CartaCapita/ as respostas às questões da entrevista a seguir.

Segundo o advogado Fernando Augusto Fernandes, o seu cliente, que é considerado o Pai do Programa Nuclear Brasileiro, é inocente de todas as acusações que levaram à sua condenação a 43 anos de reclusão pela Lava Jato, na ação penal que investiga supostos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, embaraço a investigações, evasão de divisas e organização criminosa na construção da usina nuclear de Angra 3. Como é comum na operação, chama atenção Fernandes, um “ouvi dizer” pronunciado por um delator premiado bastou para mandar à cadeia e com pena recorde na Lava Jato, só equiparável àquela do ex-governador Sérgio Cabral, um pesquisador e inventor que dedicou a vida ao País e à alta tecnologia nacional. “O almirante Othon de fato recebeu cerca de 3 milhões de reais quando era presidente da Eletronuclear, não por ato realizado na presidência da empresa nem relacionado à obra de Angra 3, mas por um estudo feito anteriormente
em que empenhou seu conhecimento científico. O detalhe fundamental está aí”, sublinha Fernandes. “Para constituir crime de corrupção, teria de haver a indicação, pelos delatores, de algum ato que ele tenha realizado como presidente da Eletronuclear, ou anterior a isso, na forma de promessa, que gerasse alguma vantagem. Não existe”, acrescenta o advogado.

A carreira em prol do País, as honrarias que lhe foram conferidas no Brasil e no exterior, a importância estratégica das suas descobertas e a truculência dos inquisidores, que o levaram a uma tentativa de suicídio na cadeia, são narradas abaixo pelo almirante.

CartaCapital: A que atribui a existência das acusações que lhe são feitas?

Othon Luiz Pinheiro da Silva: Não tenho dúvida de que, no seu processo inquisitório sobre os empreiteiros para conduzi-los à delação premiada, o
Ministério Público da força-tarefa de Curitiba fez todo esforço para vir à baila
o meu nome. Perguntavam especificamente sobre a minha eventual
participação. O “ouvi dizer” do Danton Avancini ( diretor da Camargo Corrêa,
autor de delação premiada) foi a consequência desse direcionamento
inquisitivo, pois estavam em pauta apenas as licitações da Petrobras.

A quem interessa a sua condenação a 43 anos de reclusão?

Certamente, interessa ao sistema internacional preocupado com o
fortalecimento de um dos países integrantes dos BRICS. Os brasileiros
transnacionais, muito provavelmente, ficaram satisfeitos com o meu processo
e a minha saída do cenário. Considero como brasileiros transnacionais
aqueles que, embora tenham nascido neste belo país, gostariam de ser
cidadãos de outros países, em particular dos Estados Unidos. Não dão
importância aos grandes problemas e desafios nacionais, não se preocupam
em resolvê-los e, às vezes, em proveito próprio, não se importam em agravá-
los.

Como resumiria a importância do seu trabalho para o País?

Fui o gerente-coordenador do programa de desenvolvimento
tecnológico que assegurou ao Brasil, com esforço nacional, o domínio das
tecnologias de todos os aspectos estratégicos da energia nuclear. Coordenei
simultaneamente dois grandes projetos denominados pela Marinha, na fase
sigilosa, de Ciclone e Remo. São dois desenvolvimentos diferentes: o
primeiro implicou a viabilização, com tecnologia nacional, do enriquecimento
isotópico de urânio e de todas as demais etapas do ciclo do combustível
nuclear. O segundo consistiu no desenvolvimento e instalação nuclear para
submarinos, incluindo a fabricação, no Brasil, de todos os equipamentos e
componentes necessários. Para garantir a qualidade da instalação de
propulsão nuclear, foi realizado um programa de testes e verificação
experimental sem precedentes na história tecnológica brasileira. Em
nenhuma outra nação a mesma pessoa gerenciou simultaneamente esses
dois projetos, ambos com sucesso. Nos outros países, as Marinhas trataram
apenas do desenvolvimento da propulsão nuclear. Na diretoria da
Eletronuclear, gerenciei a definição do mais moderno programa de construção
de centrais nucleares e armazenamento de rejeitos. Esse programa provocou
grande impacto no cenário internacional. Uma evidência disso é o fato de eu
ter recebido, em um mesmo dia, na sede da Eletronuclear, as visitas do
subsecretário de Energia dos Estados Unidos e do ex-primeiro-ministro da
Rússia e presidente da empresa estatal de energia atômica Rosatom, Sergey
Kiriyenko.

Os valores envolvidos nos pagamentos arrolados pela acusação são
atípicos para o tipo de consultoria que o senhor costuma prestar?

Se forem considerados atípicos é por terem sido muito mais baratos.
O estudo inovador Um Porto de Destino para o Sistema Elétrico Brasileiro
interpreta as peculiaridades do sistema elétrico do País difíceis de ser
entendidas. Implicou transformar matematicamente as vazões de todos os
rios nacionais, levando em conta sua variação temporal, na vazão de um
único rio hipotético. O mesmo estudo foi feito transformando o estoque de
água existente em todos os reservatórios das hidrelétricas nacionais em um
único reservatório hipotético. Esse único reservatório hipotético constitui o
estoque regulador de energia elétrica do sistema elétrico nacional. O estudo
analisou o consumo de energia brasileiro, que vem aumentando, e
estabeleceu hipóteses sobre o crescimento dessa demanda no futuro.
Examinou a utilização da energia das fontes alternativas e demonstrou a
necessidade de construção de termoelétricas nucleares ou que usam carvão
combustível para, eventualmente, aumentar o estoque regulador de energia e
minimizar a utilização de termoelétricas que utilizam óleo e gás como
combustível e que conduzem a altos preços da eletricidade. O preço cobrado
por esse estudo foi de 3 milhões de reais, os mesmos referidos na data de
entrega do relatório, em dezembro de 2004. Se compararmos esse preço
com os valores cobrados pela equipe de ingleses que modelou o sistema
elétrico brasileiro na década de 1990, concluiremos que foi muitíssimo baixo.
Além de que, diferentemente dos ingleses, que transplantaram para o Brasil
soluções similares às utilizadas na Inglaterra, onde o sistema é quase 1 OOo/o
térmico e controlado pelo homem, no sistema elétrico brasileiro a maior parte
da energia é proveniente de hidrelétricas e fontes renováveis que sofrem as
variações que a natureza impõe. Um Porto de Destino para o Sistema Elétrico
Brasileiro preconiza a construção de centrais nucleares para evitar o aumento
abusivo dos preços da eletricidade e estabilizar o sistema. Nos trabalhos de
consultoria por mim realizados nos 11 anos na Aratec (empresa de
consultoria), o valor do homem-dia de consultoria foi sempre dentro da
mesma faixa. Os altos valores pagos pela eletricidade pelos brasileiros em
2017 comprovam o estudo por mim realizado em 2004.

O senhor foi chamado para explicar à Justiça os valores faturados por
sua empresa de consultoria?

Durante o julgamento, em dezembro de 2015, expliquei os valores que
foram questionados. Os representantes da força-tarefa do Ministério Público
não demonstraram a menor vontade de entender e um deles considerou Um
Porto de Destino para o Sistema Elétrico Brasileiro um pequeno estudo sem
relevância que o réu usava como desculpa. No julgamento, tive a sensação
de que havia uma sanha condenatória com motivações diferentes das
acusações apresentadas.


O Laboratório de Geração Nucleoelétrica e o restante do complexo da Marinha em lperó, São Paulo, concebidos por Othon

Quais as principais evidências do seu reconhecimento científico nacional
e internacional acumuladas na carreira?

Os resultados atingidos nos projetos do ciclo do combustível nuclear e
na propulsão nuclear constituem evidências indiscutíveis. O general Douglas
MacArthur dizia que na guerra não há substituto para a vitória. Sempre achei
que na engenharia e no desenvolvimento científico e tecnológico não há
substituto para o atingimento das metas e dos resultados. Recebi a Grã-Cruz
do Mérito Nacional, assim como Cesar Lattes, brasileiro indicado para o
Prêmio Nobel, e o brigadeiro Casimiro Montenegro Filho , fundador do Instituto
Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e precursor da indústria aeronáutica
brasileira. Fui agraciado também com o título de Pesquisador Emérito do
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, em São Paulo, concedido a
poucos ao longo da história do lpen. Recebi ainda a medalha Carneiro
Felippe, da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Quando me aposentei da
Marinha, fui convidado por Pai Schiffer, então um alto dirigente da Agência
Internacional de Energia Atômica, em Viena, para trabalhar nessa instituição.
Não aceitei porque não seria ético. Eu havia trabalhado por muito tempo no
programa nuclear que desenvolvia aspectos estratégicos brasileiros e era
considerado, na sua fase inicial, secreto pelo governo do País. Considerava
incongruente trabalhar na AIEA, que inspeciona as atividades nucleares de
todos os países. Fui convidado também pelo internacionalmente renomado
doutor Hans Blix, diretor-geral da AIEA de 1981 a 1997, para proferir palestra
sobre a história da energia nuclear no Brasil desde os seus primórdios. Além
disso, recebi convite para representá-lo em um seminário mundial de energia
nuclear na Bulgária. A convite de Bernard Bigot , presidente da Comissão de
Energia Nuclear e Energias Alternativas da França, visitei as instalações de
Grenoble, onde estavam em curso as principais pesquisas francesas sobre o
desenvolvimento de componentes para aproveitamento da energia solar. Com
Bigot conseguimos o acordo Brasil-França para o desenvolvimento de
componentes e aplicação da energia solar usando o silício de boa qualidade
existente no Brasil.

Quais as oportunidades de desenvolvimento científico, como consultor, à
sua disposição no Brasil e no exterior ao longo da sua carreira?

No segundo semestre de 1994, logo depois do término do tempo de
serviço como vice-almirante no serviço ativo da Marinha, após recusar o
convite da AIEA, realizei o concurso para pesquisador sênior do Instituto de
Pesquisas Energéticas e Nucleares (lpen), elaborado pela Comissão
Nacional de Energia Nuclear, e classifiquei-me em primeiro lugar na
competição com 16 Ph.D. formados em universidades de outros países. A
CNEN, contrariando a lógica, não me empregou. Como a área nuclear no
Brasil, naquele clima de globalização da década de 1990, estava fechada
para mim, pelos meus pensamentos nacionalistas conflitantes com o clima
“globalizante” do período, resolvi abandoná-la e iniciei as atividades como
pequeno empresário. Durante 11 anos , não me faltaram trabalhos de
engenharia e consultoria. Um deles foi o mencionado Um Porto de Destino
para o Sistema Elétrico Brasileiro. Nesse período, o trabalho que mais me
empolgou foi um encomendado pela Socicam, proprietária dos terminais
rodoviários de São Paulo e Rio de Janeiro, entre vários outros. Tratava da
concepção de um sistema nacional para transporte de cargas que usasse
como célula mater contêineres e explorasse ao máximo a utilização de todos
os meios de transporte do País, com ênfase na navegação de cabotagem,
subutilizada. Em 2001, a pedido do professor José Goldemberg,
representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Política Energética,
coordenei o trabalho de um grupo de engenheiros e técnicos da Fundação da
Universidade de São Paulo, que analisou a viabilidade de retomada da
construção da Usina Nuclear Angra 3. O estudo consumiu nove meses de
trabalho, foi muito elogiado pelo professor Goldemberg e considerado de
melhor qualidade do que os trabalhos equivalentes realizados pelas
empresas lberdrola, da Espanha, e Electric Power Research lnstitute (Epri),
dos Estados Unidos.

Por que a inovação introduzida pelo senhor no setor nuclear é importante
para o País?

Sozinho, nada realizei. O destino deu-me a sorte de compor uma
miríade de pequenas e muito competentes equipes, cujo trabalho deixou o
Brasil em patamar igual ou próximo dos países mais desenvolvidos na área
de energia nuclear. Quando o Alto-Comando da Marinha me designou para
desenvolver o submarino nuclear brasileiro e o combustível necessário para
tal, eu era o único oficial com especialização nuclear. Todo o esforço inicial foi
compor equipes e concentrar o trabalho no desafio principal, que era o
enriquecimento isotópico de urânio. Fizemos uma opção arrojada na época,
que era a tecnologia adotada para as ultracentrífugas, de minha concepção.
Ainda como aluno de pós-graduação no MIT, comecei a conceber a
ultracentrífuga logo depois de assistir a uma aula do emérito professor doutor
Manson Benedict, o primeiro diretor do Departamento de Energia Nuclear
daquela universidade, que, no final, fez um comentário jocoso: “Os brasileiros
acreditaram e compraram da Alemanha esse método. O Brasil gastou mais
de 1 bilhão de dólares desenvolvendo e construindo em Resende uma usina
piloto que usava a técnica jet nozzle e nunca enriqueceu nem 1 miligrama de
urânio”. Com as ideias que tinha sobre ultracentrífugas, a pequena e
maravilhosa equipe que tive a sorte de constituir projetou e construiu três
ultracentrífugas no Brasil com tecnologia de vanguarda. O trabalho foi iniciado
no segundo semestre de 1979 e, em setembro de 1982, produzimos uma
pequena ampola de urânio enriquecido e outra de urânio empobrecido. Foi o
maior evento tecnológico do Hemisfério Sul naquele ano. Com um avançado
método de gerenciamento de pesquisas que desenvolvi e denominei Sistema
Matricial Dinâmico de Gerenciamento de Pesquisas, o aumento do número de
equipes e o auxílio da comunidade científica brasileira, o País atingiu a
maturidade na tecnologia nuclear. Nada como uma equipe dedicada
trabalhando em um ambiente saudável para atingir os resultados. Quando fui
transferido para a reserva, em 1994, a Coordenação de Projetos Especiais da
Marinha tinha um quadro de 600 engenheiros e físicos que, somados às
equipes do lpen, totalizavam uma elite de 980 engenheiros e físicos de alto
nível. Isso foi muito importante para o País.

Como a sua descoberta repercutiu na comunidade científica
internacional?

Em 1987, o governo brasileiro, em cerimônia oficial no Palácio do
Planalto, comunicou oficialmente o domínio, pelo País, do ciclo do
combustível nuclear. Até aquele momento, as atividades tinham caráter
sigiloso. Essa comunicação oficial teve grande repercussão internacional. Em
8 de abril de 1988, com a presença do então presidente da Argentina Raúl
Alfonsín e do presidente José Sarney, foi inaugurado o Centro Experimental
de Aramar, em lperó, no estado de São Paulo – onde funcionava o primeiro
módulo da usina de demonstração industrial de enriquecimento de urânio -, e
assinado um tratado com a Argentina, que previa a inspeção mútua das
instalações nucleares dos dois países. Esse evento teve a mais ampla
repercussão na comunidade científica internacional. O pequeno discurso que
proferi na ocasião foi o cume da minha vida profissional e da minha
realização pessoal.

Como as realizações e o potencial do Brasil na área nuclear são
encarados no exterior?

O domínio da tecnologia de enriquecimento de urânio e de todas as
etapas do combustível, mesmo tendo optado por não produzir artefatos
nucleares, tem um valor estratégico militar muito grande. As grandes reservas
uraníferas brasileiras e o domínio da tecnologia têm um significado
econômico ainda não percebido pela maior parte dos que trabalham no setor
energético brasileiro. Nas reuniões internacionais sobre energia nuclear e em
uma reunião para a qual fui convidado na Energy Research and Development
Agency (Erda), nos Estados Unidos, em 201 O, tive a clara percepção de que
as nossas pródigas reservas de urânio e a capacidade tecnológica de utilizá-
lo são consideradas muito importantes internacionalmente .


O protótipo em tamanho natural do submarino nuclear com projeto encomendado a Othon, no complexo de lperó

No momento da sua prisão, a quais atividades de estudo e pesquisa
necessárias ao seu trabalho de consultor o senhor vinha se dedicando
?

O trabalho mais entusiasmante era um sistema de armazenamento de
combustível nuclear queimado nos reatores, por mim concebido, que estava
sendo coordenado pelo brilhante doutor Sergio de Queiroz Bagado Leite, à
frente de um grupo de engenheiros da Eletronuclear. Acredito firmemente que
a adoção desse novo sistema de armazenamento de rejeitas nucleares de
alta atividade, um dos maiores desafios tecnológicos da humanidade,
colocará o Brasil na vanguarda mundial dos países que utilizam a energia
nuclear. Esse sistema seria patenteado em nome da Eletronuclear. A segunda
atividade de estudo e pesquisa que eu desenvolvia era conduzida sob a
coordenação do doutor Leonam Guimarães e tratava dos estudos de
localização das novas centrais nucleares que o Brasil certamente necessitará
construir. Esse estudo especificava as características das usinas nucleares e
os requisitos que deveriam preencher para evitar acidentes nucleares. Foi
concebido para permitir a execução do programa por grupos privados, mas
assegurando baixo preço da eletricidade produzida e o controle estatal
brasileiro. A terceira atividade de pesquisa era coordenada por mim utilizando
as minhas folgas, férias e fins de semana e tratava do término do
desenvolvimento da família de hidroturbogeradores integrados para muito
baixas quedas-d’água, da qual detenho a patente.

Que balanço faz do seu tempo de atividade na Marinha?

A maior parte do tempo foi muito empolgante. Fui promovido a
segundo-tenente do Corpo da Armada em dezembro de 1960 e até 1963
operei embarcado no contratorpedeiro Mariz e Barros. Em 1963, sem
planejamento prévio, tive sucesso no concurso para cursar Engenharia Naval
na Escola Politécnica de São Paulo. De fevereiro de 1966 até maio de 1975,
trabalhei como oficial engenheiro no Arsenal da Marinha, período
interrompido em 1969 para estagiar por um ano na Gibb & Cox, em Nova
York, na época a maior empresa projetista de navios de guerra no mundo,
que na década de 1930 criara os destróieres classe Cassin, da qual derivou o
contratorpedeiro Mariz e Barros. Fiz estágios de quatro meses no
Philadelphia Naval Shipyard e de três meses no estaleiro Vosper Thornycroft,
em Southampton, na Inglaterra. De 1966 a 1975, quis o destino que eu fosse
escalado para gerenciar os maiores desafios que o Arsenal da Marinha
recebeu nesse período, considerado a sua época áurea, onde o nível de
atividade foi similar àquele vivido de 1935 a 1945, que englobou a Segunda
Guerra Mundial. Ainda como capitão de corveta, fui chefe da Divisão de
Oficinas e responsável pela manutenção dos navios da esquadra por dois
anos, época em que todos eles estiveram prontos para operar. Em março de
1973, fui designado chefe da Divisão de Construção Naval para construir os
navios de patrulha fluvial que até hoje operam na Amazônia, além de uma
dúzia de embarcações de desembarque para fuzileiros navais e seis
embarcações de desembarque de carga geral para fuzileiros. Gerenciei ainda
a implantação, no Arsenal da Marinha, do programa de construção das
fragatas Independência e União, que continuam a operar. Fui o oficial que
gerenciou o maior número de embarcações e navios construídos naquele
Arsenal no Pós-Guerra. Aos 35 anos, como capitão de corveta, tive a
oportunidade de cursar Engenharia Nuclear no Massachusetts lnstitute of
Technology (MIT). Em dois anos e 11 meses no MIT, completei 226 créditos
estudantis, cerca de 50°/o a mais do que os alunos que cursam o Ph.D.
completam. Ao regressar do MIT, em fevereiro de 1978, o diretor-geral do
Material da Marinha determinou que eu fizesse um estudo e um relatório
sobre a possibilidade de desenvolver submarinos com propulsão nuclear no
Brasil. O relatório foi entregue no fim de maio de 1978. A Marinha resolveu
fazer um estudo maior tendo como referência o meu relatório. Para minha
surpresa e perplexidade, em outubro de 1988 o almirantado ( equivalente ao
Alto-Comando no Exército e na Aeronáutica) decidiu iniciar o programa de
desenvolvimento da propulsão nuclear para submarinos. Recebi duas folhas
que, na realidade, eram o resumo do meu relatório e se constituíram na
minha missão nos anos em que permaneci no serviço ativo na Marinha, até
agosto de 1994. Para evitar que a natural burocracia administrativa naval
impedisse de desenvolver o programa, o almirantado me licenciou da Marinha
e alocou na Divisão de Estudos Avançados do Centro Técnico Aeroespacial,
em São José dos Campos. O projeto da Marinha era secreto e eu tinha
ordem expressa de não conversar com qualquer oficial da Marinha, só
poderia responder às perguntas que os almirantes quatro-estrelas do Alto-
Comando fizessem, somente se eles perguntassem e àquilo que
perguntassem. O almirante Maximiano Eduardo da Silva Fonseca assumiu o
cargo de ministro da Marinha em 1979 e eu tinha a determinação para, em
companhia do almirante Mário Cesar Flores, autor do estudo do Estado-
Maior, uma vez por mês relatar diretamente ao ministro o andamento do
programa. Iniciamos a pesquisa e o desenvolvimento com zero recursos
financeiros e zero equipe. Congregar uma das maiores equipes da história
tecnológica brasileira, conseguir recursos em outros órgãos do governo
federal além da Marinha, obter o apoio dos governos de São Paulo e da
comunidade científica nacional e gerenciar o desenvolvimento tecnológico foi
muita emoção, maior do que qualquer outro oficial engenheiro terá
oportunidade de ter e que dificilmente outros tiveram nas outras Marinhas do
mundo, pois tive de trabalhar na viabilização do combustível nuclear e no
desenvolvimento da propulsão em um país com indústria ainda em
desenvolvimento. Resumindo, a minha vida na Marinha foi fascinante e
desafiadora, pois estive sempre atuando na linha de frente da tecnologia.

Alguns daqueles que trabalharam com o senhor o descrevem como
um idealista. Qual conduta sua provavelmente alimentou essa conceituação
por parte de ex-colegas?

Fui criado ouvindo meu pai, um médico do interior que me ensinou
que vivemos em um lindo e formidável país, com um mix racial que, com
ensino e aporte tecnológico, poderá muito contribuir para um mundo melhor.
Meu procedimento e minha conduta foram sempre acreditar que não sou
dono da verdade. Acredito que podemos aprender com todos, todos os dias.
Uma boa parte dos companheiros era tão ou mais idealista do que eu.

Como o senhor avalia a sua situação psicológica? Qual a sua rotina
diária?

A sentença foi dada em tempo recorde, depois da apresentação da
defesa por meu advogado, e parece que já estava quase pronta. Ao conhecer
o seu teor, que no meu modo de ver foi injusto, e, se as acusações fossem
verdadeiras, ainda assim a sentença seria desproporcional tanto para mim
quanto para minha filha, vivi dois dias em que tentei, em revolta, renunciar à
vida. (Nota da redação: Ana Cristina da Silva Toniolo foi condenada a 14 anos
e 1 O meses por ser sócia do pai na consultoria que emitiu a nota fiscal do
estudo encomendado pela Andrade Gutierrez .) Depois, felizmente, me
aprumei e passei a querer intensamente viver, pois entendi que o suicídio por
revolta pela pena infligida à minha filha poderia ser interpretado como
confissão de culpa. Na parte da manhã, antes da cirurgia a que tive de me
submeter no dia 21 de setembro, fazia exercícios no cárcere e, nos 60
minutos previstos para banho de sol, andava de 5 a 6 quilômetros. Decidi
escrever um livro que relata a história da energia nuclear no século passado,
em particular na América Latina. Descrevo a saga que foi o programa de
desenvolvimento tecnológico no Brasil, em especial o esforço da Marinha e
seus obstáculos políticos. O livro foi manuscrito, pois não tenho acesso a
computador e, quando puder , vou digitar e fazer pequenas correções. Tomei
gosto por escrever e, no futuro, pretendo produzir outros livros. Ler e ouvir
notícias completam o meu tempo.

O que o senhor espera da Justiça brasileira?

Espero que deixe de ser direcionada por um pequeno grupo – onde
existe a possibilidade de participarem alguns brasileiros transnacionais – e
realmente procure aplicar a Justiça. Causou-me muita tristeza ver atuando
como auxiliar de acusação, pela Eletrobras, um advogado indicado pela
empresa estrangeira Hogan & Lovells, muito ativo. Também muito me
entristeceu o juiz repetir várias vezes na sentença o eventual prejuízo da
Eletrobras por possível desvalorização das ações na Bolsa de Nova York.
Como o preço de construção de Angra 3, por megawatt instalado, era menor
do que construções equivalentes nos Estados Unidos, França e Finlândia, só
perdendo para o preço praticado na China, acredito que um dia isso será
levado em consideração pela Justiça brasileira. A grande melhora de
desempenho da Eletronuclear, transformando-a em uma das melhores
centrais nucleares do mundo, certamente contribuiu positivamente para o
preço das ações da Eletrobras, mas isso também não foi levado em
consideração na sentença.

Fonte: CartaCapital

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Um comentário

  1. Achei fascinante e chocante.Primeiro, porque nem imaginava que havia pesquisas nucleares desse nível no Brasil, embora eu seja doutora na minha área, e tenha sido professora universitária por 30 anos. Isto é, é irrisória a divulgação da produção científica e tecnológica no e do país. Segundo, porque é revoltante o que a pseudo justiça brasileira faz hoje aos cidadãos.

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