Joan Edesson: O futuro desfeito em pó


O ofício obriga-me, permanentemente, a andar pelo Ceará inteiro. Suas estradas são companheiras com as quais partilho a dureza da sobrevivência e a capacidade, ainda existente, de sonhar. Mas as estradas do meu sertão dizem também, muitas vezes, da luta do povo para viver em meio à aridez da seca e ao descaso crescente pela pobreza, marca do governo ilegítimo que ora dá plantão no Planalto.

Na BR-222, a cerca de oitenta quilômetros de Fortaleza, rumo ao norte, numa localidade por nome Cipó, há uma obra que se arrasta lentamente, com longos períodos de interrupção. A construção de um viaduto sobre a linha férrea já se aproxima de uma década e, por conta disso, há um pequeno desvio no chão batido. Um trecho pequeno, de menos de quinhentos metros, mas perigoso, pois ali os grandes caminhões, pesadíssimos, procuram lugar melhor para passar e oscilam em câmera lenta entre um buraco e outro.

No meio da poeira, há alguns meses, duas figurinhas magras, enxadas nas mãos, jogam inutilmente terra dentro dos buracos e estendem as mãozinhas pedintes, na esperança de uma moeda jogada por um motorista de coração menos endurecido.

São meninos ainda, o mais velho em torno dos doze anos e o mais novo não chegou ainda aos dez. Apenas de calção, tostados pelo sol da caatinga, equilibram-se nos finos cambitos e correm de um lado para o outro, entre os carros, confundindo-se à poeira quente do chão de novembro.

A curiosidade obriga-me ao paradeiro, à conversa fiada com os meninos. Estão matriculados, mas perdem aula para ficar ali, arriscando juntar alguns trocados ao final do dia. Em feira boa, segundo eles, juntam de dois a três reais.

− Uma vez um homem deu uma nota de dois reais.

O olho do mais novo brilha, mais curioso do que eu, a mirar o homem perguntador. O olho brilha de curiosidade ou talvez pensando naqueles dois reais, verdadeira fortuna. Pergunto pela escola e o mais velho desconversa, enrola uma desculpa que não tem aula naquele dia, que a professora está doente.

A sinceridade desconcertante do mais novo entrega o jogo.

− A gente precisa pedir na estrada, pai tá sem trabalhar.

Diz e corre, que lá vêm três carros em sentido contrário e ele precisa mostrar serviço, cavar um buraco para entupir o outro a tempo de estender a mão e esperar a caridade dos motoristas. Os dois primeiros passam direto, mas o terceiro diminui e uma mulher joga alguma coisa, que o pequenino corre, apanha e volta para a nossa conversa.

− Cinquenta centavos!

O olho brilha novamente. Alguns dias, segundo o mais velho, passam a manhã inteira e não conseguem nada. Moram ali perto, e vêm quase todos os dias. Não têm nenhuma pressa em que a obra termine. Por eles ficaria assim para sempre, o trecho de terra a lhes garantir aquelas moedas ralas, o trecho de terra a lhes lembrar da condição de miseráveis.

Preciso seguir, pois a minha própria sobrevivência depende de continuar a viagem. Largo uma cédula de pouco valor nas mãos dos dois. O mais velho articula um muito obrigado. O mais novo arregala os olhos, meio descrença e meio contentamento.

As carretas balançam perigosamente, de um buraco a outro. Pelo retrovisor ainda enxergo os meninos correndo entre os carros, desafiando o perigo, brincando de pega-pega com a moça Caetana, naquele trecho que muitos chamam de “curva da morte”.

Pelo retrovisor, apenas sombras na poeira quente de novembro, os meninos movem-se rápido, mal equilibrados nos cambitos das pernas, o olho brilhante a desafiar a miséria.

Pelo retrovisor, o que enxergo é o futuro da pátria desfeito em pó.

[i] Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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