Júlio Miragaia: F5 na esquerda


Na obra “Cem anos de solidão”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, um século se passa na cidade de Macondo. A passagem do tempo e as obras dos seus moradores fazem com que a cidade seja abandonada e esquecida ao final da saga da família Buendía.

Por Júlio Miragaia*

Divulgação

Manuel D'Ávila em entrevista no Canal Livre da BandManuel D’Ávila em entrevista no Canal Livre da Band

Como em Macondo, parece também vivermos uma amnésia histórica sobre o papel da esquerda no processo político no Brasil. A onda conservadora que leva até a ultradireita ao campo da disputa pelo poder permitiu que bandeiras em outro momento instrumentalizadas pela esquerda passem a ser parte do repertório do conservadorismo.

Patriotismo, desenvolvimento, geração de empregos e alternativas programáticas para a saída da crise parecem ser estranhas para uma esquerda brasileira que carece repensar suas táticas e estratégias e, também, pensar na renovação de suas figuras públicas para que o futuro e o presente estejam conectados e a marginalidade política não bata a porta.

Enquanto a direita compra falsas polêmicas via web como homens nus em museus ou ataques gratuitos aos direitos humanos, a esquerda não pode ser hipnotizada por essa cortina de fumaça. Há outras e mais importantes disputas a se fazer. Desde os anos 1990, não presenciamos o governo federal de plantão atacar tanto os direitos fundamentais da população, como os trabalhistas e da previdência, como com o atual mandatário do Planalto.

Colado a esse processo, a corrupção segue desenfreada diante do hipócrita e seletivo silêncio dos que antes saíam a agitar que a saída do PT do governo seria a solução para todos os problemas da nação. Os noticiários mostram que o acordo nacional com o Supremo e com tudo segue a todo vapor enquanto a agenda entreguista corre sem que a maioria da população saiba o que de fato está acontecendo e sendo votado em Brasília.


Manuela D’Ávila (terno branco) em entrevista ao Canal Livre: ódio se combate com propostas. Fotos: reprodução

Um país com quase 13 milhões de desempregados, segundo levantamento em outubro do IBGE, com setores estratégicos como a indústria fragilizados e com uma juventude sem grandes expectativas diante da crise e falta de oportunidades, é um mosaico depressivo de que há algo de podre no modelo econômico dos anos Temer.

Para este momento histórico, é preciso correr atrás do tempo perdido e voltar a debater os conceitos e temas que são a raiz da crise ao invés de “excluir do Facebook os apoiadores do deputado Jair Bolsonaro”, expressão muito usada por militantes de esquerda hoje nas redes sociais que mais cria bolhas ideológicas do que permite o diálogo para a mudança do cenário em que o senso comum está momentaneamente ganho para a agenda conservadora.

Um programa para a segurança pública, para o desenvolvimento nacional, para geração de emprego e renda. Temas como esses não devem ser esquivados pelos representantes da esquerda na luta política atual e no processo eleitoral de 2018. O próprio patriotismo como elemento da constituição de uma identidade cultural do povo brasileiro não pode ser tratado como palavrão.

Nacionalismo foi um dos elementos presentes nos protestos e manifestações dos últimos anos
Assisti na madrugada de domingo para segunda a entrevista no programa Canal Livre da pré-candidata a presidência pelo PCdoB, Manuela D’Ávila. Em seu discurso percebi que o debate que provoco neste artigo é real na esquerda brasileira e ainda bem que um setor da esquerda começa a pensar seriamente sobre um programa para o país.

Enfrentar o ódio com propostas reais para os problemas do Brasil, como bem respondeu a pré-candidata é o que deve pautar o debate político. Assim poderemos ultrapassar a cortina de fumaça imposta por bolsonaros e MBLs da vida.

No mais, debater os problemas do Brasil e não somente da esquerda, acreditar na constituição de uma frente ampla com e em favor do povo são elementos importantes que apontam que a alternativa apresentada pelo PCdoB para 2018 está dissociada de clichês, sectarismos e madura para e os embates que virão.

Essa alternativa tem minha simpatia e apoio, e é o rumo para que os anos vindouros na política não sejam de solidão como na obra de García Márquez, nem de ódio e intolerância, tampouco de vazio. Chegamos ao momento histórico de dar “F5” (atualizar) nos rumos da esquerda brasileira sem que se perca sua essência. E isso é muito positivo.

 

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