Elite brasileira tem de ter menos espírito de Miami, diz Flávio Dino


 

Flávio Dino – Eu brinco que esse negócio do Juscelino, de 50 anos em 5, era fácil. Aqui são quatro séculos em quatro anos. As pessoas terem escola de tijolo, não de palha ou barro, é uma agenda do século 18. As pessoas terem acesso a carteira de identidade é século 19. Ao mesmo tempo, temos uma agenda do século 20 e 21, escola em tempo integral, programa para mandar nossos estudantes para estudar no exterior. Não tivemos greve, pela política respeitosa com os servidores. Aqui a gente não debate o Estado mínimo.

Por quê?

Aqui o povo quer serviço público. Se não for o Estado, não é ninguém.

Como as candidaturas que propõem um enxugamento do Estado vão se sair?

No Nordeste, muito mal. Porque é quase que uma incompatibilidade ontológica, de essência. A reforma da Previdência vai virar um peso nas costas de quem a defender. Claro [que sou contra], e a trabalhista é pior ainda. Esse neoliberalismo vulgar que às vezes um Amoedo (Novo) da vida professa não tem aderência à realidade brasileira.

Há exasperação com a revelação de que o tamanho do Estado possibilitou corrupção.

Mas isso é puramente ideológico. É verdade que havia infelizmente corrupção na Petrobras, por exemplo, mas quem estava ao lado? Grandes corporações privadas. Então, se fosse extinguir o Estado porque é corrupto, ia extinguir o mercado junto.

A Lava Jato criou distorções?

Lava Jato criou uma narrativa em que os empresários, que eram o chapeuzinho vermelho, bonzinhos, foram extorquidos pelo lobo mau, que era o Estado. Pelo amor de Deus! Todo mundo sabia o que estava fazendo.

A Lava Jato acertou mais que errou, mas errou nesse ponto fundamental, por incompreensão ou conivência. Não critico tanto as decisões.

A de Sergio Moro contra o Lula o senhor critica.

É um escândalo, uma monstruosidade jurídica. O leitor pode dizer: é porque ele apoia o Lula. Primeiro, o Lula nunca me apoiou aqui.

Vai apoiar em 2018?

Eu espero. Sou cristão, acredito em coisas boas. Como você vai dizer que ele é dono de um apartamento que comprovadamente está no patrimônio de um banco? Aí sim a instrumentalização da Lava Jato atende a certos interesses que hoje não estão claros.

Seu irmão Nicolao Dino é próximo do ex-procurador-geral Rodrigo Janot. Como vê a atuação do grupo?

Janot errou. Podia ter evitado o caos político e jurídico em que o Brasil se meteu e ele aderiu. Por quê? Não sei dizer.

O presidente Temer não indicou seu irmão, mas Raquel Dodge para suceder Janot.

Tenho a impressão de que Raquel não vai na direção de ser arquivadora-geral. A indicação de Fernando Segovia na Polícia Federal, apoiado por Sarney, vinculado politicamente a uma certa posição [é mais problemática]. É difícil qualquer pessoa dizer que vai parar a Lava Jato.

Ainda tem vida longa?

Tem, porque tem os filhinhos dela, netinhos. a família é grande. Vai continuar até que a política se rearrume. Ela virou o principal polo de poder do país, porque não tem outro. Depois das eleições, a força da Lava Jato tende a diminuir, porque é uma anomalia ter um conjunto de profissionais não eleitos com esse poder de ditar o ritmo do país.

O que mostra a volta de Roseana na disputa ao governo?

Mostra muito um saudosismo do uso da máquina administrativa. Estão com síndrome de abstinência de recursos públicos, de luxos. O grupo empresarial deles depende de recursos públicos, que é um sistema de comunicação [Mirante] cujo maior anunciante era o próprio governo do Estado. Ela pagava ela mesma.

O senhor anuncia na Mirante?

Sim, mas bem menos [de 54% da verba publicitária em 2012, caiu para 19% em 2017].

O senhor quer o apoio do Lula no Maranhão, mas seu partido tem outra candidatura.

Há a compreensão de que, no Maranhão, pelo sarneysismo, precisamos fazer uma aliança ampla. Palanque aberto. Ainda tem o Ciro Gomes, o PDT é um aliado nosso.

Quem é o melhor?

Os três têm suas virtudes. Não posso dizer em quem eu vou votar porque dá ciúme.

Não vai votar no seu partido?

Se Manuela estiver na urna, voto nela, claro.

Lula irá até o fim?

Lula deve manter a candidatura até o limite. A candidatura dele é fundamental, imprescindível. Só há eleições livres com ele sendo candidato, não há razão para não ser, a não ser um processo de lawfare, de perseguição judicial. Pergunte a um cidadão médio: o que você acha de Sarney ou Collor soltos e Lula preso? Isso pode tisnar, criar uma nódoa na eleição, é muito grave. Metade da população tem intenção de votar nele.

Metade?

Claro. Se for candidato, ganha. Se a elite brasileira tivesse um pouquinho de espírito nacional, e menos espírito de Miami, concordaria que Lula é importante para o Brasil. [Tirá-lo] abre espaço para uma aventura que seria Bolsonaro presidente, um suicídio nacional e coletivo.

*

RAIO-X

Nascimento
Em São Luís (MA), em 1968 (49 anos)

Carreira
Foi juiz federal (1994-2006), deputado federal (2007-2011) e presidente da Embratur (2011-2014), no governo Dilma. Eleito governador do Maranhão em 2014

Histórico
Foi do PT (1987-1994) e se filiou ao PC do B em 2006

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2 comentários

  1. UTOPIA, REALIDADE, SONHO, PESADELO
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2017/12/26/utopia-realidade-sonho-pesadelo/

    ACREDITAMOS NA UTOPIA NA ÂNSIA DE NOS DISSIMULAR DIANTE DA REALIDADE INÓSPITA. ACREDITAMOS NA UTOPIA COMO EXPECTATIVA DE UM PROJETO PARA FUTURAS POSSIBILIDADES POUCO PROVÁVEIS.

    BEM SE SABE QUE “NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÔ, TODAVIA HÁ ESPERANÇA EM ALGUNS TANTOS, MUITOS OU POUCOS.

    ALGUNS ACREDITAM. ALGUNS QUEREM ACREDITAR. ALGUNS SE ESFORÇAM PARA ACREDITAR.

    ALGUNS AGEM FORTE PARA CONVENCER. ALGUNS AGEM FORTE PARA MANIPULAR.

    MAS NADA SERÁ  COMO ANTES.

    UMA VOLTA. UM RETROCESSO NAS SAUDADES DAS VIÚVAS DOS ANOS DE CHUMBO. PORVIR, ANOS DE CHUMBO. DEPOIS, DÉCADAS PERDIDAS….

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  2. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    UTOPIA, REALIDADE, SONHO, PESADELO
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2017/12/26/utopia-realidade-sonho-pesadelo/

    ACREDITAMOS NA UTOPIA NA ÂNSIA DE NOS DISSIMULAR DIANTE DA REALIDADE INÓSPITA. ACREDITAMOS NA UTOPIA COMO EXPECTATIVA DE UM PROJETO PARA FUTURAS POSSIBILIDADES POUCO PROVÁVEIS.

    BEM SE SABE QUE “NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÔ, TODAVIA HÁ ESPERANÇA EM ALGUNS TANTOS, MUITOS OU POUCOS.

    ALGUNS ACREDITAM. ALGUNS QUEREM ACREDITAR. ALGUNS SE ESFORÇAM PARA ACREDITAR.

    ALGUNS AGEM FORTE PARA CONVENCER. ALGUNS AGEM FORTE PARA MANIPULAR.

    MAS NADA SERÁ  COMO ANTES.

    UMA VOLTA. UM RETROCESSO NAS SAUDADES DAS VIÚVAS DOS ANOS DE CHUMBO. PORVIR, ANOS DE CHUMBO. DEPOIS, DÉCADAS PERDIDAS….

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