Wadson Ribeiro: Outros Janeiros virão


Lembro-me como se fosse hoje. Era janeiro do ano de 2000. Sob o sol escaldante de Porto Alegre, de um dia que parecia não querer se despedir, caminhávamos pelas ruas gritando a liberdade, um novo século, um novo milênio, um novo tempo. Era o início do Fórum Social Mundial, uma contraposição ao Fórum Econômico Mundial de Davos, que ocorria na Suíça.

Toda aquela gente de todas as partes do mundo, principalmente jovens, que, assim como eu, acreditavam que um outro mundo era possível. Juntávamo-nos nas universidades, praças, hotéis, acampamentos e em intermináveis debates sobre nossas utopias.

Porto Alegre se transformava na capital mundial da esperança, da democracia, da construção de um novo mundo. Um mundo comandado não pelo deus mercado de Davos, mas sim pela fraternidade, pela necessidade de combater a miséria, o analfabetismo, a fome e as guerras financiadas e promovidas pelos grandes países capitalistas.

Para nós brasileiros, o Fórum significava também a crença de que o país havia superado os fantasmas da ditadura militar e que, a partir dali, mesmo com as diferenças políticas e ideológicas, consolidávamos um pleno Estado Democrático de Direito.

Dois anos depois, no ritmo frenético dessa marcha democrática, o país elegia pela primeira vez um presidente de origem operária, com a cara e o jeito da nossa gente. Lula, contrariando os preceitos de Davos, priorizou os mais pobres e elegeu como primeira ação acabar com a fome. Nunca o Brasil experimentou tantos avanços na área social.

Os debates intermináveis dos fóruns sociais ganhavam agora espaço nos PPAs, LDOs e LOAs. Nossa gente ergueu a cabeça e voltou a ter orgulho de ser brasileira. Nosso presidente discursava na ONU em português e era chamado de o “cara” pelo presidente dos Estados Unidos. A economia crescia, as pessoas passaram a ter acesso aos bens de consumo, chegamos perto do pleno emprego com o maior salário mínimo da nossa história. As universidades ampliaram suas vagas e se abriram aos pobres e negros.

Esta semana, no mesmo momento em que ocorre o Fórum de Davos, a ONG britânica OXFAM divulgou relatório que revela que a cada dois dias surge um novo bilionário no mundo. Diz também que do total da riqueza gerada no ano passado no mundo, 82% ficaram nas mãos de apenas 1%, que são os mais ricos no globo. Diz também que no Brasil cinco bilionários possuem o patrimônio equivalente ao da metade da população mais pobre.

Davos continua a mesma. Mas Porto Alegre mudou. Aquela que foi a capital da esperança, se transformou nesta semana no palco da consumação de um golpe de Estado que tenta dar fim a um ciclo de democracia. Condenar Lula é tentar sepultar os princípios e as utopias dos fóruns sociais mundiais e impor ao Brasil, governado ilegitimamente por Temer, os valores de um mundo assimétrico defendido em Davos.

A roda da história gira. Novos janeiros virão e com eles a esperança de que o Brasil e os brasileiros são bem maiores que os golpes e a desigualdade que as elites tentam nos impor.

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