Joan Edesson: Augusto dos Anjos e o apedrejamento dos juízes


Nascido no Engenho Pau d’Arco, hoje município de Sapé, na Paraíba, o poeta Augusto dos Anjos é um dos grandes nomes da nossa literatura. A morte prematura, aos trinta anos, só lhe permitiu em vida a publicação de um livro, de rígida métrica e rimas preciosíssimas, “Eu”, ao qual se incorporaram outros poemas inéditos após a sua morte, passando a ser sistematicamente reeditado com o título de “Eu & outras poesias”.

Guardo de cor, desde os tempos de menino, aquele que é, provavelmente, seu mais famoso soneto, os “Versos íntimos”. Aqueles dois quartetos e dois tercetos são um exemplo de perfeição, na métrica, na rima, na cadência, no ritmo. E serve para lembrar-nos sobre a ingratidão, aquela pantera, companheira inseparável.

Pena que alguns membros do judiciário, que há bem pouco eram incensados pelos grandes conglomerados da mídia e hoje viraram vidraça, não o tenham lido. Juízes como Moro e Bretas, heróis com direito a capa de revista e merecedores de prêmios para gente que “faz a diferença”, de uma hora para outra viram-se atingidos por jornais e revistas, tão amigos até ontem, que agora denunciam os seus “penduricalhos” e a imoralidade dos seus “auxílios-moradia”. Eram pedras até ontem, quando serviam aos interesses dos grandes. Hoje são vidraças, no ponto de se estilhaçar, quando não tenham mais serventia.

O centenário soneto de Augusto dos Anjos parece ter sido feito para eles. Ninguém assistirá ao “enterro da sua última quimera”. Só os acompanhará a “ingratidão – esta pantera”. O colunista amigo que defendia Moro acima de tudo e de todos, considera “tosco” o seu argumento para justificar o recebimento do tão execrado auxílio-moradia. Dona Rosângela, acostumada aos holofotes, aos flashes, às notinhas simpáticas, agora incomoda-se porque a mesma imprensa que lhe bajulava hoje lhe ataca, publicando o joio, como ela disse.

Deveriam ter lido Augusto dos Anjos, repito. Ele já havia lhes enviado um aviso, mais de um século antes. Há mais de um século o poeta lhes avisou que “o beijo é a véspera do escarro e que a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

Esses juízes, endeusados, beijados, afagados, chegaram a pensar que haviam conquistado um lugar à mesa do grande banquete. Não aprenderam nada sobre as nossas elites. Não aprenderam que não fazem parte dela, que são meros instrumentos dos seus interesses. Com nojo do povo, sem nenhum apreço pela democracia, julgaram que haveria lugar para eles na sala de estar do baronato. De nada lhes valeu o exemplo recente daquele que foi capa de revista como “o menino pobre que mudou o Brasil”. Quando comandou o primeiro grande ataque que viria a dar na situação em que estamos, aquele juiz foi recebido com festas, salamaleques, rapapés. Cumprido o seu papel no malfadado “mensalão” ele desapareceu, sumiu, não merece sequer uma notinha de rodapé na grande mídia que ainda ontem o festejava. Era descartável. Cumpriu o seu papel e foi jogado fora.

Aqueles que fazem parte hoje da “Operação Lava-Jato” também serão descartados. Já começaram a ser, na verdade. O beijo da véspera virou escarro, a mão que os afagava agora os apedreja, utilizando o imoral auxílio-moradia como mote. A grande mídia não é aliada das elites brasileiras, ela é parte delas, integra o seu núcleo. Aqueles que acharam que eram seus iguais, seus pares, agora serão levados de volta aos seus devidos lugares. Vão voltar cabisbaixos para os seus tribunais, vão ser solenemente ignorados e, se ousarem em querer ser lembrados, haverá sempre uma boa reportagem sobre os seus imóveis luxuosos, seus penduricalhos, para lhes lembrar de que calem e voltem para o tribunal de onde vieram.

Já não poderão mais fazer fotos sorridentes com Temer e nem com Aécio sem ser questionados, já não poderão posar com armamentos pesados sem ser incomodados. Terão que se contentar com o ostracismo, resmungando contra a ingratidão dos que agora “publicam o joio”. Terão que se “acostumar à lama que os espera”.

Quem sabe agora lhes sobre um tempinho para ler Augusto dos Anjos, esse grande poeta paraibano.

[i] Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Arildo da Silveira Machado disse:

    A maioria destes juízes são filhos da meritocracia, bem nascidos, encaminhados por uma elite para manter seus monopólios em toda sociedade brasileira, mas ainda assim são funcionários públicos e vão colher os frutos que ajudam a plantar ao respaldar os julgamentos políticos que dilapidam a democracia brasileira.

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