Joan Edesson: Não sou mulher, não sei


O paraibano Chico César, com licença poética e refinada beleza, canta, em uma de suas músicas: “Já fui mulher, eu sei…”.

Eu não sou mulher e, portanto, não sei.

Não sei o que é ser submetida a milênios de opressão machista e misógina. Não sei o que é ser considerado um ser humano de segunda categoria. Não, por mais que me esforce, não posso saber.

Como saber, sendo homem, das dores de uma mulher? Não sei o que é ser espancada pelo próprio companheiro na frente dos filhos, e não poder denunciar ou pedir socorro por medo de ser morta por ele. Não sei o que é ser estuprada e ouvir de um juiz ou de um promotor que a culpa foi sua, que você provocou o estupro, com a sua roupa, com as suas atitudes, com o seu sorriso simpático. Não faço ideia do que seja isso.

Não sei o que é ser humilhada no trabalho e receber um salário menor do que o homem que tem desempenho pior na mesma função apenas por ser mulher. Não sei o que é enfrentar o assédio nas ruas, na escola, no trabalho. Não sei o que é ter que dar conta de um dia inteiro de trabalho e depois ainda cuidar da casa, dos filhos, da cozinha, da vida toda, sozinha, sem que o companheiro lhe dê a menor ajuda. Não sou mulher, não sei.

Não sei o que é a sina de doer e de esperar. Esperar um filho, doer por um filho. Esperar um homem, doer por esse homem. Não sou mulher, não sei.

Mas, sendo homem, sei de algumas coisas.

Sei, por exemplo, de recente pesquisa que diz que a cada quatro minutos uma mulher é vítima de agressão no Brasil. Do início ao fim dessa leitura duas mulheres terão sido agredidas. Algumas serão desconhecidas, nunca ouviremos falar nos seus nomes. Outras serão nossas amigas, nossas conhecidas, nossas vizinhas.

A mesma pesquisa diz que a cada uma hora e meia uma mulher é morta no Brasil, vítima de feminicídio. Quantas já morreram hoje? Quantas serão assassinadas até o final do dia? Não sou mulher, não sei. Mas, sendo homem, deveria saber sobre isso e sobre muito mais.

Em 2011, uma amiga, Ana Soraia, foi assassinada dentro da sua casa enquanto dormia. Tinha trinta e três anos quando foi morta. O assassino, seu próprio companheiro, desferiu mais de cinquenta facadas contra ela. Meia centena de facadas em uma mulher que dormia. Num quarto ao lado dormia a filha de ambos, de apenas quatro anos de idade. Somente no ano passado o assassino foi julgado. O advogado de defesa, o machismo e a misoginia sufocando a ética profissional, protagonizou um show de horrores, culpando Soraia por ter sido morta. Foram tantos os ataques que a mãe dela, em dado momento, perguntou se aquele era o julgamento da sua filha morta. Não sou mulher, não posso saber da dor de Soraia, da sua mãe, da sua filha, de tantas outras mulheres que foram assassinadas, estupradas, espancadas, humilhadas, desde então.

Mas sou humano, devo saber sobre outras coisas.

Devo saber, por exemplo, sobre respeito, solidariedade, justiça. Devo aprender a combater o machismo arraigado em mim. Devo aprender a sentir a dor da outra, a dor da mulher.

Não sou mulher, não sei.

Mas sendo homem, devo saber de outras coisas. Devo saber que há um mundo novo a se construir. Um mundo novo que só será feito com muita luta, de homens e mulheres. Um mundo onde possamos, como na canção de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, banir toda a opressão.

Não sou mulher, não sei.

Mas sendo homem, sei que é necessário lutar lado a lado com as mulheres, e sei que a feitura desse mundo novo que sonhamos, livre da opressão e da injustiça, passa pelo combate cotidiano ao machismo, à misoginia e a toda forma de agressão às mulheres.

Sou homem, por isso sei que não haverá o mundo novo que sonho sem essas mulheres que lutam todos os dias, desde sempre. Ou luto ao lado delas e por elas, ou não haverá nada pelo qual lutar.

[i] Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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