Luciano Siqueira: Semelhanças e diferenças 29 depois


Refiro-me às eleições presidenciais, em princípio marcadas para outubro próximo, e o pleito de 1989.

Em 1989, 22 candidatos se apresentaram — resultando num segundo turno disputado entre Collor e Lula.

Este ano, pelo andar da carruagem, certa dispersão parece inevitável, ainda que nas hostes governistas e nas oposições venha a ganhar maior robustez alguma candidatura.

Compreensível a pretora de candidaturas em 1989, pois ali se vivia o início de um novo ciclo político e institucional pós-superação da ditadura militar, em 1985 e consignação do pacto constitucional em 1988.

Também se pode dizer agora que um novo ciclo está posto, pós-golpe institucional que derrubou a presidenta Dilma.

Hoje em dimensão mais dramática do que antes, pois se trata de barrar, ou não, a agenda regressiva neoliberal encetada por Temer e seu grupo, que procura destruir as conquistas obtidas nos oito anos do governo Lula e no primeiro governo Dilma, em todas as suas esferas.

Porém há diferenças substanciais entre os dois pleitos.

Começa que em 1989 a eleição foi “solteira”, pelejava-se unicamente em torno de candidaturas à presidência, enquanto agora estão em causa à presidência, os governos estaduais, o Senado, a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas.

Esse caráter “geral” do pleito de outubro implica verdadeiro emaranhado de alianças políticas, no qual não há correspondência entre composições nacionais e composições em âmbito estadual — como historicamente vem acontecendo.

Também dificulta o voo solo de um outsider desvinculado dos partidos. Ficaria sem tempo na TV e sem apoios locais.

Demais, em 1989 se viveria o restabelecimento das eleições diretas para a presidência, objeto de uma ampla cruzada realizada em 1984 e fator de mobilização do eleitorado.

O ambiente de outubro próximo ainda é imprevisível. Como base objetiva, o evolver da crise, particularmente o comportamento da economia; e como variável subjetiva, o grau de desgaste e de descrença de imensas parcelas da população.

Nessas circunstâncias, sob o prisma do bom senso, a quantidade de candidaturas presidenciais haveria de ser bem menor do que 1989. Por enquanto, a tendência ainda não é essa.

No campo governista, mesmo o pretendente tucano, o governador paulista Geraldo Alckmin, potencialmente mais forte, ainda não se consolida como polo aglutinador do centro-direita. Poderá vir a ser.

Nas oposições, o nome de maior expressão, indubitavelmente o ex-presidente Lula, sequer tem a garantia de registro. Um eventual substituto do mesmo partido não terá segurança de que aglutinará as demais. Ciro Gomes, pelo PDT, Manuela D’Ávila do PCdoB, Guilherme Boulos, do PSOL são impelidos a sustentar o projeto próprio de seus partidos.

Assim, a tendência dominante ainda é a dispersão, destinando-se a um provável segundo turno a convergência de forças.

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