Lecio Morais: A guerra do aço e o Brasil


No último dia 16/03 o presidente dos EUA, Donald Trump, reconfirmou a imposição de suas sobretaxas sobre o aço e o alumínio. Agora retirando sua aplicação para os membros do Nafta, seu mercado comum com o Canadá e o México. Porém, ainda não assinou, até agora, o decreto necessário para efetivá-las.

Permanece assim a incerteza, não se sabe se a ameaça é para valer ou para se cacifar, jogando pôquer com o mundo. Pretende, de um modo ou de outro, tirar vantagem dos países exportadores do metal, inclusive de seus parceiros leais como o Canadá e a Alemanha. No primeiro caso, na renegociação das regras do Nafta; no segundo caso, forçar a Alemanha a elevar sua participação no financiamento da OTAN; e, provavelmente, em algumas outras negociações menos evidentes.

De todo o caso, com decreto ou sem decreto, os problemas e as disputas no comércio internacional do aço não vão desaparecer.

A atual super oferta de aço no mundo é um problema estrutural. Ela se origina na grande capacidade de produção de aço construída pela China na última década. Construir siderúrgicas leva anos, são projetos de longo prazo, podendo não ter a ver com a exportação do aço. Boa parte dessa expansão foi concebida durante o ciclo das commodities, quando o horizonte da expansão econômica do mundo era bem diferente. Essa expansão, ao que parece, não teve a ver com a exportação. O peso do aço na pauta de exportação a China é muito baixo – apenas 1,5% do total.

A expansão da aciaria na China, a que tudo indica esteve ligada a sua demanda interna. No final, ela ficou grande demais, e um parte dela permanece ociosa. O problema da super oferta mundial do aço não é diretamente afetada pela exportação chinesa, mas sim pela capacidade ociosa de sua siderurgia, fruto da redução do crescimento do mundo, até mesmo de sua própria economia. Mesmo assim, sua produção de aço continuou a crescer.

A simples existência da capacidade ociosa do setor siderúrgico da China é que pressiona mais fortemente os preços do aço para baixo desde o fim do ciclo das commodities.

É isso que torna o problema do aço em um problema estrutural, pode se reduzir a exportação, mas como reduzir a capacidade de produção? Ou, pelo menos, esse é o ponto de vista da China. Além disso, a própria dependência americana do aço importado é ela mesmo estrutural. O déficit no seu consumo de aço ocorre desde os anos 1960 – a meio século. Por isso, as velhas siderúrgicas americanas – derrotadas por sua baixa produtividade e os compromissos hegemônicos dos EUA – parecem estar fadadas a desaparecer. A atual capacidade americana de produzir aço não é capaz, hoje e nos próximos anos, de atender sua demanda externa.

A iniciativa de Trump nasce nesse contexto duplamente estrutural de difícil solução.

Se Trump fechar o mercado americano, necessariamente parcial, o preço do aço certamente vai continuar a cair, provavelmente vai mergulhar. O difícil de prever é como reagirão os exportadores. De imediato, quase todos estão em uma posição mais fraca do que a dos EUA. A China, em melhor posição, anunciou que não vai retaliar, o que enfraquece os demais. Provocar uma guerra comercial é ruim para ela. Além do mais, para ela esse é um problema de menor peso. Grandes exportadores temem guerras comerciais, sai mais caro.

O caso brasileiro

Nesse ambiente, o Brasil fica com problema delicado. Nós exportamos um terço do aço para o EUA, nossa siderurgia depende crucialmente dessa exportação. O que é ruim. Por outro lado, temos algumas vantagens em uma hipotética negociação para deixar nosso aço fora da sobretaxa. Nossa siderurgia importa todo o coque que seus altos fornos precisam para fabricar aço. Além disso parte do aço exportado são peças semiacabadas, usada pela indústria americana para produzir bens com maior valor agregado. Derrubar a exportação brasileira poderia causar um efeito bumerangue.

A grande desvantagem do Brasil é sua fraca posição geoestratégica. A atual concepção dessa estratégia foi fortemente alterada no governo Temer. Um de seus formuladores é o general Sérgio Etchegoyen, ex-chefe do Estado Maior do Exército e atual ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional.  Em palestra, em 2015, no Instituo Millenium, o general, no tempo chefe do Estado Maior do Exército, deixou claro as atuais diretivas: alinhamento estratégico com a hegemonia americana; centrando nosso interesse no Atlântico Sul, complementando a estratégia americana para a África, onde os chineses estão a expandir sua influência (*).

A orientação geopolítica do governo Temer elegeu como nosso adversário a China! E nos manda para o Atlântico Sul quando o centro produtivo do mundo foi para o Pacífico!

Essa geopolítica nos tira qualquer poder de barganha, reduzindo nossas vantagens nessa e em outras negociações. Nessa posição, o Brasil continua sendo descartável para a geopolítica americana porque simplesmente o Brasil não tem para onde ir. Esse aspecto ficou evidente no último circuito diplomático do agora ex-secretário de Estado americano, Rex Tillerson, quando visitou o México, Argentina, Peru, Colômbia e Jamaica. O Brasil restou ignorado.

Desse modo, nossas vantagens comerciais podem desaparecer. Em tese, a compra do coque, e o fornecimento de semiacabados para a indústria americana podem ser negociados com outros parceiros como compensação às perdas causadas pela sobretaxa em outros produtos de aço. Uma hipótese muito hostil ao Brasil, mas não descartável.

Mas há um segundo perigo. Caso a sobretaxa do Trump venha causar uma sobra maior de aço, dos expulsos do mercado americano, uma queda mundial no preço do aço seria certa. Nesse caso hipotético, o preço atrativo do aço estrangeiro poderia inverter nossa posição de exportador para importador. Pois, nosso setor siderúrgico – como a maior parte de nossa indústria – certamente não teria folga nem competividade para enfrentar tal concorrência.

Nessa hipótese, o Brasil poderia certamente se defender a produção interna, impondo uma tarifa de exportação de até 35%, que, dada às circunstâncias, e diferente da situação americana, estaria em conformidade com as regras da OMC. Porém, não sairia barata, pois jogaria o Brasil dentro do torvelinho de uma guerra comercial enfrentado países poderosos. O que, em nossa frágil posição atual, seria um muito mau negócio.

Por isso, pior que perder exportação, seria pior enfrentar importações de aço a preços vis. Agora é esperar o que vai acontecer nesse imbróglio o blefe do Trump.

Agradecendo as sugestões importantes de Pedro Oliveira ao texto.

(*) Ver General Sérgio Etchegoyen, palestra no Instituto Millenium (2015). Ver: https://www.youtube.com/watch?v=rpWt5Mzb6PU

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