Seminário revela desmonte do potencial produtivo e tecnológico brasileiro


A segunda mesa da tarde do Seminário “Desafios para a Retomada do Desenvolvimento Nacional”, reuniu especialistas para discutir os desafios da infraestrutura, da energia e da cadeia de petróleo e gás para retomada do desenvolvimento nacional. O potencial gigantesco e inexplorado de energia no território nacional tem sido tratado de forma leviana e imprópria pelo governo golpista, além do andamento do golpe estar aprofundando uma etapa extremamente danosa para o desenvolvimento da nação.

Foto: Cezar Xavier

O moderador da mesa foi o economista Elias Jabbour, que introduziu o tema lembrando que, na inauguração do primeiro metrô do país, em São Paulo, em 1975, o mais moderno à época, foi construído com trilhos, vagões e escadas rolantes brasileiros, entre outras tecnologias. No mesmo ciclo político, foram construídas as usinas hidrelétricas de Itaipu e Tucuruí, além da ponte Rio-Niterói, com o Brasil dando mostras ao final da década de 1970, de que estava se tornando uma grande potência. “Apesar disso, estamos sempre ouvindo que o gargalo do Brasil é a infraestrutura, que, com o andar da carruagem, devem ter seus investimentos rareados”, afirmou.

A geóloga e superintendente de Definição de Blocos da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), Eliane Petersohn, fez uma exposição simples e contundente ao apenas apresentar o potencial petrolífero brasileiro. Apesar disso, o que mais repetiu foi o baixíssimo investimento em exploração e produção de bacias sedimentares, por todo o país. Ainda sem autonomia plena na geração de seu próprio gás natural, o país tem enormes possibilidades de encontrá-lo em seu território, assim como áreas de dimensões continentais com altíssimas possiblidades de encontrar óleo, em que outros países, como a Guiana, já investem, mas o Brasil não. Áreas de exploração que já foram forte elemente de desenvolvimento local, estão em decadência por falta de investimento em revitalização dos poços.

Enorme potencial, baixíssimo investimento

Dos 339 blocos exploratórios, cerca de 100 são operados pela Petrobras, e dos 431 campos de petróleo, 330 também são operados pela Petrobras. Dos 105 grupos de empresas explorando petróleo no Brasil, metade são nacionais.

Eliane diz que o pré-sal já é uma realidade no Brasil e representa metade dos 2,6 milhões de barris por dia. Em cerca de cinco anos, o pré-sal deve dobrar essa produção com a incorporação de novas áreas de exploração. O Brasil já é considerado o décimo maior produtor de petróleo do mundo, o maior da América Latina.

Um gráfico histórico demonstra o salto gigantesco dado na exploração de petróleo em apenas vinte anos. Somente durante os Governos de Lula e Dilma, as exportações subiram de 19 barris por dia para um milhão de barris por dia. Apesar de ter praticamente quadruplicado a exploração de gás natural, o Brasil ainda não é autossuficiente.

Ela mostra que a dimensão da área sedimentar brasileira é tal que pode atrair diferentes empresas para operar no território. O pré-sal é o que mais exige tecnologia e capacidade de investimento, além das bacias marítimas convencionais (offshore) e as bacias terrestres (onshore).

Mais que isso, Eliane mostra como o Brasil ignora seu potencial energético, por não explorar sua gigantesca bacia sedimentar. A atual área contratada para exploração, segundo ela, é de menos de 4% da área sedimentar total. Duas bacias nunca foram sequer perfuradas, que são Madre de Dios (AC) e Pernambuco-Paraíba. “Nunca furamos um poço para saber o substrato geológico dessas áreas. Temos 29 bacias com interesse para petróleo e apenas dez produzem, hoje”, diz ela.

Desde 1939, quando foi furado o primeiro poço de petróleo no Brasil, foram  perfurados apenas 30 mil poços. “Os EUA furam 25 mil poços por ano, e já dispõem de 700 milhões de poços perfurados. Isso revela o desconhecimento do nosso substrato geológico e nossas bacias sedimentares”, lamenta ela. Há enormes bacias sedimentares espalhadas de norte a sul com propensão à exploração de gás natural, de acordo com ela.

A bacia do Parnaíba, conforme explica Eliane, desenvolveu tecnologia eficiente para converter gás em eletricidade, que pode ser distribuído pelo Brasil todo. “Se a gente aplicar esse modelo de monetização de gás nas outras bacias, podemos gerar muito mais recursos para todo o país”, sugeriu. Em sua opinião, é possível replicar o modelo de exploração bem sucedida das bacias de Solimões e de Parnaíba nas demais bacias, mas é preciso investimento em aquisição de dados, de geologia e geofísica e precisa da perfuração de poços para o conhecimento do tipo de rocha, suas características, e saber se pode haver acumulação de gás ou óleo.

(Foto: Cezar Xavier)

A preciosa explanação de Eliane aponta o que pode ser feito, também em bacias maduras, muito perfuradas, onde a exploração está em declínio. Potiguar, Sergipe-Alagoas, Recôncavo e Espírito Santo são ideais para pequenas e médias empresas, importantes para geração de emprego e distribuição renda. “Como elas já passaram pelo pico da produção é preciso fomentar a atividade exploratória nessas áreas por seu papel socioeconômico para o país”, observa. Mas o que tem ocorrido nestas bacias é uma redução quase total na perfuração de poços, nos últimos cinco anos, o que significa menos emprego e geração de renda. Neste caso, ela considera que é preciso revitalizar as atividades terrestres, fomentar a pequena e média empresa que operam nestas bacias maduras.

Na margem equatorial, as bacias marítimas são pouco conhecidas e pouco exploradas. A bacia do Ceará e Potiguar produz em aguas rasas, mas não tem exploração em águas profundas. “A margem equatorial brasileira tem uma evolução geológica parecida com a do oeste africano, onde foram feitas várias descobertas de óleo”, diz ela, defendendo o potencial de descobertas em águas profundas.

A geóloga mostra que a Guiana colocou algumas áreas em concessão depois do Brasil e já foram feitas sete descobertas de mais de três bilhões de barris de petróleo recuperável. “E não conseguimos testar este mesmo modelo na bacia da foz do Amazonas, ainda, que é o modelo do oeste africano e que está dando certo na Guiana”, criticou. Completando o quadro da baixa exploração do potencial energético, ela mostra que, com exceção de Campos e Santos, todas as bacias da margem leste, desde Pernambuco até o Rio Grande do Sul, são pouquíssimo exploradas e conhecidas por falta de perfuração. Campos, que já foi a grande bacia produtora do país, teve seu auge em 2012 e vem caindo gradualmente, demandando revitalização da exploração.

Entrando no Pré-Sal, que é uma situação diferenciada de potencial petrolífero no país, ela explica que ele ocorre nas bacias de Campos e Santos, com grandes descobertas de óleo leve, de elevado valor comercial, com alta produtividade dos poços. “Isso faz do pré-sal algo muito singular. É uma das maiores descobertas petrolíferas do mundo que pode ser usada em benefício do povo brasileiro”, afirmou. Dos 2,6 milhões de barris/dia, só o pré-sal já produz 1,4 milhão, com meta de chegar a 5 milhões no curto prazo, já que a maior parte das jazidas não foram exploradas.

A ANP tem aberto licitações para que as empresas façam as atividades exploratórias e de produção. A 15a. Rodada, em 29 de março, visa atrair empresas para exploração em Parnaíba e Paraná, em terra, Ceará, Potiguar, Sergipe-Alagoas, Campos e Santos, em mar, fora do polígono do pré-sal. Também vai haver licitação exclusiva do pré-sal, restrita ao polígono, com vislumbre de potencial de descoberta de até 17 bilhões de barris.

Outra medida para revitalizar e fomentar a atividade exploratória de petróleo no Brasil é a oferta permanente de áreas, já devolvidas à ANP. Elas demandam grande quantidade de investimentos para aquisição de dados.

O Brasil possui potencial petrolífero altamente promissor com expectativa de descobertas de óleo em todas as bacias, desde que haja investimento na aquisição de dados geológicos e geofísicos. As bacias terrestres de Nova Fronteira possuem potencial para descobertas de gás natural, em que o Brasil não tem capacidade de suprir sua demanda total. Portanto, qualquer descoberta no Paraná, por exemplo, onde há forte demanda de energia para a indústria, será benéfico.

Também é preciso revitalizar as atividades nas bacias maduras para aumentar a produção e o fator de recuperação e para fomentar as pequenas e médias empresas. “As rodadas de licitações e a oferta permanente representam um dos mecanismos para a retomada do setor petrolífero brasileiro”, concluiu ela.

Criminalização do financiamento

(Foto: Cezar Xavier)

O presidente da Associação dos Funcionários do BNDES (AFBNDES), Thiago Mitidieri, fez uma apresentação alarmante sobre a situação dramática e ameaçada do Banco de financiamento da infraestrutura nacional. Dirigindo a Associação desde a implantação do golpe, ele é testemunha do “massacre” sistemático que o Banco vem sofrendo pela mídia, e por ações de governo que cumprem o papel de desconstruí-lo em seu papel de desenvolvimento, ao eliminar os instrumentos.

Ele relatou o episódio de uma pesquisa encomendada pela gestão de Luciano Coutinho, feita pela universidade de Columbia (EUA), e entregue na gestão golpista. Conforme seu relato, a pesquisa não foi divulgado ou discutida, apresentada em evento fechado e sem acesso dos funcionários. “O resultado da pesquisa é um tiro no coração desse grupo de economistas e neoliberais que entendem que o mercado é que vai resolver e realizar os investimentos”, diz ele.

“Se antes tínhamos a Al Qaeda, agora temos o Estado Islâmico. Um grupo mais fanático e com ideologia muito mais forte, muito menos razoável quando se trata de discutir desenvolvimento”, compara ele.

Mitidieri apresenta dados da ABDIB, que apontam que o déficit de infraestrutura nacional é de R$ 3 trilhões, o equivalente a 50% do PIB; o principal gargalo na economia. O gráfico histórico revela uma redução dos investimentos da ordem de 5% para menos de 2%, do período do regime militar para cá. Outro gráfico comparativo mostra um ranking de qualidade da infraestrutura de 144 países, em que o Brasil está na 120a. colocação, embora seja a décima economia do mundo.

No entanto, o economista considera que esse gargalo é um campo de oportunidades e novos investimentos, podendo funcionar como motor para saída da crise. “O investimento é uma variável fundamental para isso, especialmente o investimento em infraestrutura”, afirmou. Ele falou da importância de estar participando desse processo de debate com a candidatura de Manuela D´Ávila, especialmente para demonstrar como o BNDES está ameaçado em sua existência, mesmo sendo uma instituição tão estratégica para o desenvolvimento nacional.

A referência do economista para debater o assunto é o que ele chama de “proposta Ignácio Rangel”, o pensador que via a economia como fenômeno cíclico, sempre antecipando a próxima crise para preparar o governo e o país para enfrenta-la e minimizar efeitos. Em 1963, quando ele escreve A inflação brasileira, ele analisa a economia brasileira em crise, com políticas que a acentuariam. Ele critica o Plano Trienal, da época, que seguia políticas monetaristas que sabotavam qualquer possibilidade de desenvolvimento. Ele propõe distribuição de renda, para a partir do mercado interno e o consumo de massa, a economia ganhar um motor importante de crescimento, ou para crescer teria que ser mais dependente do investimento, em condições que seriam responsáveis pela inflação; não por demanda, mas por acumulação de capital no Brasil, tendo por base a industrialização por substituição de  importações.

Rangel conhecia bem as dificuldades de fazer política no Brasil, tendo ficado preso por dez anos, após participar do Levante Comunista. Sabendo da dificuldade de realização de uma reforma agrária, defendia teses heterodoxas para o Partido Comunista, ao dizer que o Brasil não precisava de uma reforma agrária para se industrializar, tendo sido expulso do Partido.

Ao publicar a quinta edição do livro em 1978, ele escreve um posfácio em que analisa o acontecido, admitindo ter subestimado o potencial de crescimento brasileiro (Milagre Brasileiro) e a industrialização por substituição de importações (2o. PND). Neste posfácio, ele recupera a questão do investimento em infraestrutura antevendo a crise que o país enfrentaria nos anos 1980. Mas num modelo diferente do que vinha funcionando em que o Estado era responsável por tudo. Ele propõe que o Estado faça concessões a empresas privadas para levar adiante os investimentos.

As privatizações dos anos 1980 e 1990 mostraram a necessidade de reverter o processo em todo o mundo. Pesquisas sobre o financiamento de infraestrutura no mundo refutam a “tese da jabuticaba”, em que o Brasil não existiria mercado de capitais de longo prazo, porque tem o BNDES e a intervenção do Estado na economia. Rangel via esse ciclo de investimentos em infraestrutura como um meio de salvar os investimentos feito na indústria pesada e de bens de capital, que ficou ociosa. Para ele, as concessões teriam que visar novos investimentos, não simplesmente transferir a propriedade do Estado para o setor privado. Mas a onda neoliberal “esculhambou tudo”.

A principal conclusão do estudo é que o setor privado não tem apetite para investir/financiar infraestrutura, não só no Brasil, mas no mundo todo. Novos investimentos (greenfield) são vistos como de alto risco, longo prazo de maturação e retornos modestos, preferindo assim, investimentos com infraestrutura já pronta (brownfield).

Além disso, o sistema financeiro privado tem o problema do curtoprazismo, que não tem interesse de investimento em infraestrutura, em que o capital tem retorno num período muito longo. Este setor ganha muitas vezes mais em investimentos de curto prazo, bolsa de valores, mercados derivativos, crédito a pessoas físicas…

Após exibir uma série de slides demonstrando essa incapacidade do setor privado investir, em todo o mundo, devido a fatores estruturais, ele conclui que é o estado planejador, não regulador, que precisa fazer estes investimentos e viabilizar os empreendimentos.

Ele mostrou a comparação entre a vontade de Obama de construir duas linhas de trem bala, que não saíram por pressão da indústria automobilística, enquanto a China construiu 17 linhas. Juntando todo o investimento de EUA e Europa, ainda é menor que o investimento da China. Os EUA não conseguiram investir, mesmo tendo mercado de capitais privado de longo prazo, taxas de juros estáveis e previsíveis, empreendedorismo e bom ambiente de negócios.

O papel do BNDES no Brasil é o de ser o principal financiador de infraestrutura do país e está sendo desmontado em seus instrumentos, de acordo com Mitidieri. Ele operava com um arranjo de funding estável de longo prazo dado pelo FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e a TJLP (taxa de juro de longo prazo), taxa de referência do BNDES.

O economista lembra que a TJLP foi criada por Ciro Gomes, quando ministro da Fazenda em 1994, como uma compensação ao fato de que a Selic teria que ser muito alta para segurar a inflação no contexto do Plano Real. Os economistas “moderados” da época perceberam que, se não houvesse uma válvula de escape, os investimentos de longo prazo iriam por água abaixo. “A TJLP era financiada pelo governo, mas era uma taxa compatível com um banco de desenvolvimento, ao ter uma condição diferenciada para atuar. Ela sinaliza algo para o setor privado. Se você for praticar uma taxa de mercado, o setor privado pode ocupar esse lugar”, explica ele.

Por outro lado, o funding do banco está sendo desidratado, lamenta ele, e o Banco está ficando “nanico”. Ele conta que o FAT já demonstrava em 2008 que não seria suficiente e vieram os empréstimos do Tesouro Nacional, por retração de liquidez do setor privado.

Em outra etapa da crise mundial, houve excesso de liquidez e os juros negativaram em todo mundo, ao contrário do Brasil. Com isso, havia o risco do empresariado brasileiro trocar dívida cara em reais, por dívida barata em dólar, gerando uma dolarização do balanço das empresas. “Num pequeno espirro do mercado internacional, em que houvesse uma pancada no câmbio, essas empresas entrariam em grande dificuldade, criando um problema macroeconômico muito sério”, analisa ele.

Mitidieri explica que o BNDES cumpriu um papel estratégico neste momento, mesmo não sendo sua função clássica, já que o Banco Central é hostil a qualquer política desenvolvimentista, e não fez o movimento que outros bancos centrais fizeram em todo o mundo. “Sem esse papel fundamental do BNDES, hoje poderíamos estar numa situação muito pior do que nós estamos”, observou.

Com o fim da TJLP, foi criada a TLP baseada na NTN-B, com forte oscilação, totalmente incompatível com investimentos de longo prazo. “Taxas que são um tiro no coração do Banco”, declarou, mostrando o gráfico dos baixos desembolsos do Banco.

O representante dos funcionários contou do dia da condução coercitiva pela Polícia Federal, na Operação Bullish, de 37 funcionários. O espetáculo de mídia tinha o único objetivo de perguntar se alguém conhecia o ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci. “Tudo isso são estratégias de minar o banco, pois os funcionários estão com medo de assinar papeis, afinal, um funcionário qualquer do TCU que não sabe nada sobre o funcionamento do Banco pode aparecer e dizer que está tudo errado, congelar conta de funcionário e conduzir coercitivamente”, lamentou.

Ele ainda relatou que o funcionário contratado pela atual gestora do BNDES para encontrar mal-feitos e punir, saiu do Banco dizendo que os funcionários estão vivendo uma ditadura dos órgãos de controle. Após comissões sobre JBS, Frigorífico Independência e Odebrecht e não encontrou nenhuma irregularidade cometida por funcionário do Banco. Da mesma forma, a terceira CPI instalada pra investigar o BNDES também não encontrou nada, nem indiciou nenhum funcionário. “Isso revela que o BNDES é uma instituição que não se corrompeu”, afirma.

Mitidieri defendeu que as empresas de engenharia nacional precisam ser recuperadas, pois outros países demonstram que casos de corrupção não precisam destruir empresas estratégicas para a economia nacional. “A gente não pode cair nessa história de achar que, por questões morais, vamos destruir nosso sistema produtivo, porque isso não interessa aos brasileiros, só interessa a quem não gosta do Brasil”, concluiu.

 

Anúncios

2 comentários Adicione o seu

O que você achou desta matéria?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s