Joan Edesson: A prisão dos Silvas


Um homem foi preso. Um homem do povo, de sobrenome Silva, tão comum entre a ralé desse país, sobrenome dos pobres, dos desgraçados, dos marginalizados, sobrenome do povo. Um homem foi preso a mando dos poderosos.

 Nunca foi um homem letrado. Como desde sempre em nossa pátria, a pobreza torna-se inimiga da educação, a necessidade de trabalhar para sobreviver, desde muito cedo, afasta dos bancos escolares. Mas interessou-se sempre por política, por justiça social, por soberania nacional.

O império condenou esse homem. O império determinou que ele fosse julgado. O processo contra ele foi construído com base na delação, vil delação em troca de benefícios, de perdão de dívidas. A partir da delação instituiu-se uma devassa contra o homem do povo, de sobrenome Silva. O processo arrastou-se por anos, até que ele fosse condenado.

Para o império, um homem que ousou desafiá-lo, que sonhou em construir um Brasil novo, não poderia apenas ser preso e condenado. Era necessário mais do que isso. O homem de sobrenome Silva foi humilhado, tentaram de todas as formas desonrá-lo, sua descendência foi amaldiçoada, sua casa tornada maldita. Condenado, arrastaram-no de um lugar a outro do país, numa execração pública jamais vista.

O homem era um pobre que teve a ousadia de se imaginar líder dos outros pobres, que se colocou à frente deles, que tentou ocupar postos de comando.

O homem de sobrenome Silva dizia que “era pena que um país tão rico como este estivesse reduzido à maior miséria, só porque, como esponja, lhe estivesse chupando toda a substância”. O homem ousou pensar que era possível distribuir, entre os mais miseráveis, uma milésima parte da riqueza que os grandes levavam daqui.

As elites do império e seus lambe botas locais ficaram indignados.

− Onde já se viu isso? Como pode um homem do povo querer assumir o comando das coisas? Ainda mais um pobretão que não estudou, que vive pelas estradas do país e pelos botequins a entornar aguardente com os párias da terra?

A devassa que se instituiu pretendeu, mais do que ao homem de sobrenome Silva, dar uma lição aos pobres da terra. Aos Santos, Costas, Bentos, das Virgens, a todos aqueles que teimavam em rebelar-se contra o seu destino, imposto milenarmente por todos os impérios da terra, o destino de trabalhar, obedecer e ser explorado pelos poderosos.

Era necessário que a lição fosse exemplar, para que doravante nenhum Silva ousasse levantar os olhos e a voz perante os poderosos; para que doravante nenhum Silva sequer sonhasse com uma rebelião popular; para que doravante os Silvas do país aceitassem, resignados, o chicote dos patrões.

Não importava que o processo contra o homem fosse viciado, baseado em delações. Era preciso dar uma lição. Os que conduziram o processo se achavam superiores aos demais, ainda que não passassem de beleguins do império. Imaginavam-se intelectuais cosmopolitas, embora claudicassem na própria língua.

Como o homem havia se tornado uma ideia, uma ideia de liberdade, uma ideia de soberania, perceberam que não bastava encarcerá-lo. Foram além, e enforcaram o homem de sobrenome Silva, um Zé qualquer, o homem chamado de Joaquim José da Silva Xavier. Esquartejaram seu corpo e expuseram as partes em vários locais. Fizeram, como antes e como depois, uma justiça de espetáculo.

Mais de dois séculos depois parte das nossas elites segue pensando e agindo quase da mesma forma.

Um Silva está preso, um homem de sobrenome Silva, um homem do povo que ousou ser líder do povo. Sem direito a visitas, com uma devassa baseada em delações. Mais de duzentos anos depois, as elites novamente querem se vingar do povo e punir um Silva, para que sirva de exemplo, para que se diga aos deserdados da terra que eles não têm lugar à mesa.

Como há mais de dois séculos, o país se divide, entre os Silvas que lutam por uma pátria justa e fraterna e os que continuam a lamber as botas do império.

[i] Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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