Joan Edesson: A grota de Angicos assombra o PT

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Tenho fascínio pelo cangaço, especialmente pela figura de Virgulino Ferreira da Silva, o capitão Lampião. O capitão foi um sertanejo, um homem da caatinga, que durante mais de duas décadas deu lição de estratégia e tática, sobrevivendo sem derrotas significativas.

Costumo dizer que o capitão cometeu dois erros graves em sua trajetória. Estranho é que ele próprio costumava alertar sobre esses erros. Conta-se que Lampião afirmava que não se deveria tentar invadir cidades com mais de uma torre de igreja e nem entrar em coito com uma única saída.

A primeira afirmação não trata de superstição ou coisa do gênero. É que cidade com mais de uma igreja era cidade de porte médio ou grande no sertão de então. Uma tentativa de invasão de cidades assim constituía sempre um risco. Lampião tentou uma vez quebrar essa regra, ao invadir Mossoró, no Rio Grande do Norte. Mesmo que o tenha tentado com um contingente expressivo de cangaceiros, sofreu ali uma dura derrota. Não repetiria jamais um ataque tão desastrado quanto aquele. Mossoró foi, provavelmente, a maior derrota de Lampião. Não houvesse quebrado sua própria regra, teria evitado o desastre.

A segunda afirmação tratava dos seus esconderijos, dos seus coitos. Coito de saída única é ratoeira, costumava dizer o capitão. Mesmo sabendo disso, foi meter-se na grota de Angicos. Por que diabos o fez? É coisa que, até hoje, intriga e desafia os historiadores e pesquisadores do cangaço. Se Mossoró foi uma grande derrota, Angicos foi um erro fatal. Virgulino e Dona Maria ficaram ali, junto a mais uma dezena de cangaceiros. Angicos foi a morte do capitão e o golpe fatal no cangaço.

Lampião estava certíssimo nas suas duas regras. A primeira é que não devemos atacar, de peito aberto, um inimigo mais forte e mais poderoso. Isso é suicídio. A segunda é que, em nenhuma batalha, devemos ter apenas uma alternativa. Como ficar preso, refém de uma única saída?

Sempre lembro desse erro fatal do capitão quando tratamos da nossa tática eleitoral. Quais são as nossas alternativas? Sempre procuro perguntar isso.

Parece que o Partido dos Trabalhadores, ou pelo menos parte considerável da sua direção e da sua militância, não está levando isso em conta. Acho que não compreenderam ainda que o golpe encurralou a democracia brasileira e que essa não pode ficar refém de uma única alternativa. Ou, no acertado dizer do camarada Luciano Siqueira, tocar um samba de uma nota só.

Ao insistir na tese de “Lula ou nada”, sacrifica-se qualquer alternativa, qualquer busca de saída para o campo de esquerda e democrático. “Lula ou nada”, na minha opinião, ainda que ela seja de pouquíssima valia, é a mesma coisa que nos metermos em Angicos e esperarmos que João Bezerra mande a “bordadeira” metralhar a todos nós.

Vi hoje pela manhã entrevista de Manuela Dávila em Fortaleza. Respondendo aos jornalistas sobre essa questão, colocou com limpidez a sua posição, que representa a posição do seu partido, o PCdoB. Resumidamente, Manu defendeu Lula, reafirmou a solidariedade ao mesmo e ao PT, mas colocou a necessidade de discutirmos uma posição frentista, ampla, ainda que no âmbito eleitoral ela provavelmente só consiga se viabilizar num hipotético segundo turno.

Manu e o PCdoB procuram desenhar vários cenários. Em outras palavras, antes de entrar no “coito”, buscam mapear todas as possíveis saídas, todas as possibilidades de escapatória.

O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, parece encarnar o fantasma de Angicos. Aposta todas as suas fichas em uma grota íngreme, com uma única saída. Saída que, pela radicalização crescente do golpe, a cada dia se revela mais e mais improvável.

A palavra de ordem de “Lula ou nada” parece uma grande e perigosa ratoeira.

Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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