Nova dinâmica do capitalismo confirma atualidade de Marx


O presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo, e a presidenta do PCdoB, deputada federal Luciana Santos (PE), abriram o Seminário do Bicentenário de Karl Marx: Desbravar um mundo novo no século XXI, afirmando a atualidade do pensamento marxista diante da atual crise global do capitalismo. Ambos destacaram a importância da análise genial do filósofo e economista para a compreensão da realidade contemporânea.

Foto: Cezar Xavier

O seminário também celebra os dez anos da Fundação Maurício Grabois, portanto, o secretário-geral da entidade, Adalberto Monteiro, destacou a importância do debate de ideias concretizado por meio de eventos como esse, para disseminar o pensamento marxista-leninista que orienta a ação do PCdoB. “A Fundação completa uma década disseminando ideias e formando militância”, disse Monteiro, ressaltando o esforço atual de formação de um conselho consultivo formado por mais de 70 intelectuais e personalidades renomadas. Foi apresentado um curta-metragem mostrando a produção acumulada em dez anos com entrevistas de Monteiro, Renato e Luciana avaliando a influência da atuação da entidade nesse período. O filme apresentou os filmes produzidos sobre a Guerrilha do Araguaia e outros temas da memória comunista, os mais de 80 livros publicados, os eventos e suas temáticas durante o último ciclo de governos progressistas, assim como após o golpe, reunindo mais de 400 intelectuais. A organização do acervo do Centro de Documentação e Memória do PCdoB, as parcerias internacionalistas e os cursos de formação política para cerca de 30 quadros também foram relevados.
Renato Rabelo começou sua síntese sobre os duzentos anos de Marx destacando a extensão impressionante de sua obra, abarcando temas distintos da sociedade capitalista e seus “vários troncos”. “Marx era um grande ativista revolucionário envolvido nos conflitos políticos e partícipe de várias organizações de trabalhadores de sua época. Se Marx tivesse ficado em Paris, não tivesse ido a Londres, talvez O Capital não tivesse existido”, disse ele, referindo-se à territorialidade do filósofo naquele momento de grande avanço da revolução industrial no país que era considerado “a oficina do mundo”. “A Biblioteca Britânica era o centro do pensamento capitalista do mundo”, mencionou Renato.
Ele destacou o fato da teoria marxista ser a primeira a apreender o mundo como ele é. Ele citou autores importantes que apresentam o filósofo do materialismo histórico e da dialética como um dogmático, o que ele considera “um contrassenso completo”.
Renato contou que o secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, afirmou em celebração ao bicentenário que a teoria de Marx, dois séculos depois, “ainda brilha com a luz da verdade”. O dirigente da Grabois, no entanto, salientou as circunstâncias temporais em que Marx agia, bastante distintas da atualidade, mas que podem perfeitamente estar refletidas nas inúmeras obras marxistas.
Ele menciona os mais de dez anos do alemão como jornalista, e uma rica produção de artigos sobre assuntos políticos. Sua obra carrega uma significativa riqueza analítica capaz de contribuir na abordagem do curso histórico contemporâneo. “Um tesouro analítico que traz essa riqueza metodológica que nos ajuda inclusive na análise atual. Se não se perceber isso, você não entende e não vai encontrar em Marx tudo que poderia”, afirmou.
Embora as circunstâncias históricas fossem diferentes, Renato ressalta que as condições estruturais de sua época são muito semelhantes às atuais. “A essência e as contradições fundamentais do sistema continuam as mesmas”.
Uma prova dessa atualidade mencionada por ele está nos muitos casos de redescoberta de estudiosos, após a crise capitalista de 2007 e 2008. Muitos desses responsáveis por decisões de políticas econômicas recorrem a Marx diante das incertezas que cercam o capitalismo em crise. “A dinâmica atual do capitalismo é exatamente o que Marx tinha previsto”, dizem eles. Renato citou também a chamada do The Economist, publicação britânica influente que, ao lembrar o bicentenário, o parafraseou ao convocar: “Governantes de todo o mundo, leiam Marx!”
O colapso da bolha imobiliária de 2007 revelou o caos destrutivo do capitalismo financeirizado, do rentismo, e o modo como Marx tratou o capital portador de juros e o capital fictício, são resgatados por economistas liberais, agora, como forma de compreender aquela crise.
Outro aspecto contemporâneo antevisto e analisado por Marx é a supressão tendencial do trabalho vivo, do trabalho humano, pela revolução industrial. Este aspecto se intensifica com a quarta revolução industrial, marcada pela inteligência artificial, e se volta a Marx, mais uma vez, para buscar iluminar as consequências imprevisíveis desse futuro.
“O maior capital constante, toda a tecnologia, o chamado trabalho morto, e o capital variável, se elevam e se tornam mais dominantes, e o trabalho humano torna-se cada vez menos relevante”, analisa Renato. No entanto, segundo ele, isso vai gerando um declínio da taxa de lucro. Aumentar a produtividade do trabalho utilizando a tecnologia do trabalho, sacrifica o trabalho humano. Com isso, países mais avançados, como a Finlândia, já estudam oferecer uma renda básica para todos os cidadãos, já que a maioria não terá mais espaço no mercado de trabalho. No entanto, esta renda básica é metade do menor salário pago naquele país. Além do mais, cita ele, isso vai mostrando os limites do capitalismo, já que, sem trabalho, não há arrecadação. Bill Gates chegou a sugerir que se cobre impostos dos robôs usados nas empresas para garantir a renda básica.
A apropriação privada do capital é cada vez mais forte, enquanto a produção é social. Marx já apontava esta contradição como um grande impasse insolúvel do capitalismo. “A teoria revolucionária de Marx continua atual, propiciando o seu próprio desenvolvimento diante dos grandes desafios para o avanço civilizacional, em pleno limiar do século XXI”, declara.
Renato também destacou os dez anos de trajetória da Fundação Maurício Grabois disseminando ideias e formando lideranças. A entidade estabeleceu como prioridade essa disseminação de ideias por meio de seminários e debates, livros, revistas e filmes sobre a crise do capitalismo, o novo perfil da classe trabalhadora, as tendências do sistema de poder mundial, as contribuições de Lênin, a teoria revolucionária do século XX e sua atualidade, a análise da nova luta pelo socialismo, a luta antineoliberal e antineocolonialista.
Ele também destacou o fato da Grabois ter ido além do debate teórico para a prática política ao unir as fundações e elaborar uma convergência programática para enfrentar a crise política nacional. “Criou-se um lastro programático, que já se traduziu no manifesto Unidade para Reconstruir o Brasil e agora estamos trabalhando para uma Frente Parlamentar de partidos progressistas para ampliar esta unidade programática por camadas e camadas de lutadores patrióticos e progressistas”, defendeu.
Renato ressaltou a importância, nesses dez anos, da parceria com intelectuais, a constituição de seções estaduais, que é um caso único entre as fundações, a realização de centenas de seminários, debates, oficinas e colóquios, a parceria editorial com a Editora Anita Garibaldi, assim como com editoras de universidades, editando mais de 80 livros, intercâmbio com a tradicional revista Princípios, fundada por João Amazonas, em convênio com a Escola de formação política do PCdoB, que promoveu cursos em que participaram 30 mil dirigentes e militantes. O intercâmbio com atividades internacionais progressistas, com o Foro de São Paulo e Fórum Social Mundial, também geram um acúmulo de forças e ideias importantes. “Agradecemos a todos que contribuíram para o êxito do nosso trabalho, para que siga se expandindo e florescendo”, concluiu.

 

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