Manuela: Crise atinge de forma mais cruel as mulheres do que os homens

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A pré-candidata do PCdoB à Presidência da República, Manuela d’Ávila, defendeu um projeto de desenvolvimento nacional que passa pela diminuição das desigualdades de gênero e raça que estruturam a pobreza brasileira, em entrevista ao Diário Catarinense, nesta segunda-feira (21). Segundo ela, “a crise atinge de forma muito mais cruel as mulheres do que os homens”.

Nesse contexto, Manuela explicou que a Emenda Constitucional 95 – que congela os gastos públicos da União por 20 anos – impacta diretamente a vida das mulheres brasileiras. “Em uma cultura machista como a nossa, as mulheres são responsáveis sozinhas pelos cuidados dos filhos. Se a gente tem os equipamentos públicos ou políticas sociais desestruturadas, como é o caso de creches, educação infantil e escolas, a mulher é que sai do mundo do trabalho. Essas medidas que restringem os investimentos em políticas sociais atingem as mulheres”.

Confira a entrevista na íntegra:

O que levou a senhora a cogitar a candidatura à presidência?

Sou militante há 20 anos. As minhas decisões nunca são individuais, são fruto de um debate sobre tudo na conjuntura política e na situação do Brasil. Depois de quatro mandatos parlamentares, embora tenha apenas 36 anos, posso ter a honra de dizer que já estive em todos os status legislativos de natureza proporcional. Já fui vereadora, deputada estadual e federal, enfim, depois disso decidi voltar ao Rio Grande do Sul no final de 2013. Escolhi ser deputada estadual para contribuir mais com o meu Estado (RS) e inclusive se cogitava de forma intensa uma candidatura minha ao governo estadual. O problema é que entre 2013 e 2018 nós tivemos e estamos vivendo de forma crescente ameaças muito grandes à democracia e às liberdades democráticas.

E nesse contexto o PCdoB, no final do ano passado, concluiu em congresso que a melhor forma de nós contribuirmos para o debate sobre saídas para a crise que o Brasil vive seria apresentando um nome para o processo eleitoral, e que esse nome seria o meu.

A senhora disse que decidiu se candidatar a deputada estadual pelo contexto que o RS vivia. Agora opta por concorrer à presidência. Uma decisão está ligada a outra?

Também. Uma das provas de que exerci um bom trabalho é o fato de estar bem posicionada em pesquisas ao governo do Estado. Mas o problema é que não existirá alternativa de desenvolvimento para os Estados e para o meu Estado, que é o RS, se nós não tentarmos saídas para a crise política e econômica que o país vive.

As saídas para a crise econômica são absolutamente vinculadas à saída da crise política que só se agudiza a cada dia. Então nesse contexto, com essa visão de que para o RS e os outros Estados buscarem saídas é preciso que o Brasil reencontre o caminho da democracia e do desenvolvimento econômico eu topei ser a pré-candidata.

A sua candidatura é condicionada a algum fator, a alguma possível coligação ou ela já é consolidada?

Ela é condicionada às decisões do meu partido, e meu partido está muito feliz com a candidatura que nós temos construído. Tem gerado muito entusiasmo na militância porque acho que venho desenvolvendo bem o meu papel.

Você tem bons desempenhos nas urnas, melhor do que o histórico do próprio PCdoB. Até onde o nome Manuela d’ávila está acima do partido?

Em nenhum ponto. A política brasileira é construída por personalidades, mas eu sou alguém que desde os 16 anos milita. Sou uma mulher de um partido só. Dediquei os últimos 20 anos da minha vida à construção do meu partido, então é natural que em uma democracia representativa como é a nossa e como ocorre em outros países do mundo, como nos Estados Unidos, os políticos têm mais visibilidade do que os próprios partidos, mesmo em partidos muito maiores e consolidados do que os brasileiros. Então isso é normal em democracias, como é o nosso caso. Mas eu sou fruto das escolhas do meu partido. Que outro partido construiu na história a candidatura de uma jovem mulher de 36 anos? Nenhum. Não basta existir. É preciso existir, fazer política e ter méritos individuais, mas ser um partido aberto, democrático e que escuta a maioria da sua militância para dar razão a essa renovação.

Como os partidos de esquerda precisam se comportar para conseguir votos em Santa Catarina?

Estive aí no mês passado inclusive para participar de algumas atividades em debates com estudantes sobre a crise e a perspectiva das mulheres diante dela. Às vezes as pessoas tentam olhar para o Sul, para os nossos Estados, como se fôssemos conservadores. Eu não acredito nisso. O RS, por exemplo: nós vivemos uma crise severa lá há muito tempo e isso faz com que as pessoas busquem alternativas diversas econômica e politicamente falando. O problema é que por muitas vezes, por conta das alternativas que aparecem, não se diz a verdade. O desenvolvimento de um estado como o RS e nos momentos de desenvolvimento superiores que tivemos, nós estávamos inseridos em um projeto do Brasil, e não à parte dele. Sou refratária à ideia de colocar no Sul o rótulo de conservador. Acho que são situações muito conjunturais da política de um momento para o outro. Veja bem. Como dizer que é conservador um Estado que emprestou Anita Garibaldi para o RS?

A história dos nossos Estados é muito longa, bonita, para nós resumirmos em um rótulo. A história dos Estados e seus povos não cabem em rótulos.

Como a senhora vai tratar a intervenção federal no Rio de Janeiro até outubro, caso sua candidatura se confirme?

Sou contrária à intervenção federal no Rio de Janeiro porque acredito que nós precisamos de uma reforma estrutural da segurança pública no Brasil. Essas soluções são improvisadas. As Forças Armadas têm outras atribuições, outro preparo, que não é o da segurança pública. No ano passado, áreas como o Complexo da Maré já sob Garantia da Lei da Ordem (GLO), ou seja, já sob intervenção, não tiveram redução nos índices. Então nós precisamos tratar como prioritário o tema da segurança pública e do combate à violência para que o Brasil viva em paz e para que possamos nos desenvolver. Mas não creio que essa (a intervenção federal) seja a saída. Defendo um outro conjunto de medidas, como a criação de uma autoridade nacional que crie inspetorias, ouvidorias, academia de polícia, carreiras únicas para as polícias com ciclos completos e a ideia que o Brasil precisa focar o seu combate à criminalidade com aquilo que mais tortura a população que são os homicídios e crimes sexuais e para isso temos que controlar a entrada de armas. É preciso fazer valer o Estatuto do Desarmamento no que diz respeito ao controle de armas e munições, e não essa bobageira que alguns dizem de revogá-lo. Veja só o caso Marielle, por exemplo. Os poucos lampejos de elucidação que a gente tem até agora têm relação com o quê? Com o controle de armas. Mas não há um perfil balístico de todas as armas. É preciso garantir que nós debatamos uma nova política de drogas no Brasil, um novo pacto, porque a guerra às drogas é o que mais mata policiais.

Os policiais são os que mais matam e os que mais morrem. É preciso debater isso, porque é uma guerra de pobres contra pobres. De trabalhadores contra pobres, porque os policiais também são trabalhadores. É preciso pensar um conjunto de medidas protetivas para esses policiais, como é o caso de uma apólice nacional de vida ou de acidentes graves. Então é um conjunto de medidas que precisam ser tomadas com urgência, como prioridades, e não as soluções improvisadas que o Temer tem anunciado, como é o caso da intervenção militar no Rio.

E a desmilitarização da Polícia Militar?

Acho que o tema das polícias é maior que esse, com o ciclo das polícias por exemplo. Países como a Inglaterra e os EUA têm inúmeras polícias como nós temos no Brasil, mas todas têm condição de investigar. Nós temos 760 mil presos e o encarceramento em massa não vem reduzindo o crime no Brasil, pelo contrário, ele serviu para organizar as facções em território nacional. Isso acontece também porque os nossos policiais não têm atribuições de investigação e só podem prender em flagrante. Com isso eles só prendem os varejistas do tráfico, e não os grandes traficantes. É preciso compreender que nós precisamos de polícias para fazer segurança pública, mas ao mesmo tempo para investigar, tanto legal como do ponto de vista técnico e humano, quando falamos da preparação e qualificação deles.

E o Estatuto do Desarmamento, deputada? Bancada da bala?

São propostas estapafúrdias, né. Acho que essas pessoas desconhecem o Estatuto do Desarmamento. Isso porque alguns itens que são imprescindíveis para que o Brasil possa ter um controle sobre a violência passam pelo estatuto. É o caso do controle de armas e munições, do perfil balístico. Então temos que fazer valer o que está ali e que pode ajudar a estruturar uma nova política de segurança pública. Quem diz que quer armar a população não está preocupado com os policiais que morrem cotidianamente fazendo a nossa segurança no Brasil. Que política é essa que não prevê piso e fundo para os profissionais de segurança? Que política é essa que não prevê o combate às milícias e à corrupção nas polícias, para que os bons policiais que são a imensa maioria tenham legitimidade para trabalhar na sociedade? Tudo para que a sociedade os veja como parceiros no combate à violência e que eventualmente não tenha medo deles. Isso (o debate sobre a revogação do Estatuto do Desarmamento) não é política. É demagogia eleitoral.

A senhora ainda é pré-candidata, mas já tem um plano de governo definido?

Uma parte sim, porque a gente já tem um programa que estrutura a ideia de a candidatura existir. Vamos lançar uma carta de compromissos, plataforma colaborativa, mas o esqueleto dele com partes como economia, segurança, indústria, já está bem elaborado. O assunto mulheres também, já que é um tema que acumulei muito ultimamente, porque acredito que precisamos compreender que o desenvolvimento do Brasil passa pela diminuição das desigualdades de gênero e raça que estruturam a pobreza brasileira. São coisas avançadas, mas não está fechado, isso que quero dizer.

O feminismo ganhou força nos últimos quatro ou cinco anos. Como a senhora vai tratar esse tema?

Acho que o movimento de mulheres cresceu tanto nesse último período porque a crise atinge principalmente as mulheres. Óbvio que ela atinge o conjunto dos trabalhadores, mas por que ela atinge especialmente as mulheres? Vou dar exemplo de saídas para a crise. Emenda Constitucional número 95, 20 anos congelando gastos públicos. No Brasil pré-crise, 50% das mulheres já não conseguiam mais emprego depois de darem à luz. Por quê? Porque as mulheres são responsáveis, em uma cultura machista como é a nossa, sozinhas pelos cuidados dos filhos. Se a gente tem os equipamentos públicos ou políticas sociais desestruturadas, como é o caso de creches, educação infantil e escolas, a mulher é que sai do mundo do trabalho. Essas medidas que restringem os investimentos em políticas sociais atingem as mulheres.

Nesse último período tivemos uma aliança política entre um ideário liberal ou ultraliberal e ultraconservador do ponto de vista moral. Esses grupos fazem um xis de posicionamento comigo, porque acho que o estado tem um papel grande, não no tamanho, mas na condução do projeto de desenvolvimento, mas que não tem que ter interferência sobre nossos corpos e nossas vidas. E eles acham o quê? Que o estado não precisa existir, entre aspas, é claro, porque ele existe para remunerar juros para bancos, mas que em tese não precisa existir, e que tem que ser tutor das nossas vidas, dos nossos hábitos privados. Essa aliança que resultou no impeachment, que resultou no fim de uma parte importante das conquistas que nós tivemos a partir de 1988 (ao se referir sobre a prisão do ex-presidente), ela é opressora principalmente às mulheres. Nós chegamos a ter recentemente o debate no Congresso se nós seríamos obrigadas a ter os filhos de estupradores. Ou seja, retrocedemos milênios, séculos com essa aliança. A gente teve com a Reforma Trabalhista a possibilidade de as gestantes trabalharem em ambientes insalubres. Quem vai trabalhar nessa situação? As mulheres mais pobres, sobretudo as negras. A crise atinge de forma muito mais cruel as mulheres do que os homens. É isso que resulta nessa mobilização.

Após a prisão de Lula, há possibilidade de união da esquerda? Como uma chapa Manuela-Boulos, por exemplo?

A gente tem um diálogo muito bom entre nós. “O Lula une todos”? Não é verdade. Havia partidos como o Psol que não compôs os governos. O que nos une é o espírito de que há ideias de programas parecidos, embora não idênticos, por isso temos candidaturas diferentes, para o enfrentamento da crise na economia do Brasil. Mas agora nós estamos mais unidos em torno do personagem Lula porque é em torno dele que está sendo rasgada a Constituição Federal. A partir da figura política dele é que o Supremo rasga a Constituição, e não a partir da figura do Aécio ou a partir da figura do Fernando Henrique ou do Temer. É a partir da figura do Lula e por isso ele nos unifica. Mas a nossa unidade está em torno da Constituição, do combate ao fascismo. Executaram uma vereadora do Psol no Rio, deram três tiros na caravana do presidente Lula. Esse é o ambiente que a gente está vivendo. Cura gay aprovada pelo Judiciário, professores levados para depor por conta de pesquisas com relação a drogas, fim da autonomia universitária.

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