Luciano Siqueira: Correndo o risco de morrer de véspera

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Ninguém tem bola de cristal, todos sabemos — sobretudo para prever resultados eleitorais em ambiente complexo e instável.

Mas uma aproximação da realidade como ela é a gente tenta. Principalmente com o olhar focado em objetivos mais elevados, no estado em que se encontra o “inimigo” principal (que é preciso identificar com clareza), as tendências reinantes na grande massa de eleitores e, portanto, a correlação de forças.

Vem de Lênin a percepção de que a essência da luta política está na tática e de que a alma da tática é a correta avaliação da correlação de forças.

Porém num país da complexidade do Brasil, de instituições e práticas democráticas ainda instáveis e multiplicidade de legendas das partidárias nada programáticas e em tudo por tudo imediatistas (muitas delas de perfil clientelista e fisiológico), essa noção de descortino tático passa ao largo para muitos dos principais atores em presença.

Mesmo de agremiações mais consolidadas, que assim mesmo se vêem submetidas a interesses particulares de líderes e grupos, mais afeitos a uma visão de curtíssimo prazo e infensos a considerações de ordem estratégica.

Assim, mais quatro semanas pela frente e teremos as convenções partidárias que definirão candidaturas e alianças. E a imprevisibilidade ainda predomina. Tanto no campo governista como nas oposições.

 
Partidos e grupos golpistas agora são vítimas de dois incômodos consideráveis: o desgaste decorrente da execução da agenda regressiva de Temer, a que dão sustentação; e a enorme dificuldade de encontrarem uma candidatura que os unifique e demonstre robustez eleitoral. E que desbanque o capitão Bolsonaro, melhor situado nas pesquisas ostentando discurso fascistóide.

De quebra, ainda não sabem como camuflar a agenda neoliberal, por quatro vezes consecutivas rejeitada pelos brasileiros.
Enquanto não resolvem esse impasse, abrem brechas tanto para levar o pleito a um segundo turno, como para a partir daí construir ampla coalizão apta a vencer a parada.

Mas há obstáculos de difícil remoção. Sobretudo o interposto pelo PT, que insiste numa única e exclusiva alternativa, a candidatura de Lula. E se o ex-presidente for vetado pela Justiça Eleitoral? Lula indica um substituto, ora!
Mas isso significa que os demais partidos à esquerda terão que previamente aderirem a uma candidatura que não se sabe se vingará, ou a seu sucedâneo — tornando irrelevantes as construções que seus pré-candidatos vêm fazendo.
Com exceção do pré-candidato Boulos, do PSOL, que diz discordar de alianças eleitorais, Ciro Gomes, do PDT e Manuela D’Ávila, do PCdoB, com distintas gradações, tanto defendem elementos essenciais de um novo projeto desenvolvimento para a nação, como se mostram abertos ao diálogo em favor de uma unidade — plana ou parcial — já no primeiro turno.

Vale a pena investir nessa possibilidade ou o jeito é cada um seguir o seu rumo e seja o que Deus quiser?

No limite, significa arriscar vencer a batalha ou morrer de véspera, passivamente; e se conformar com um segundo turno entre o centro-direita e a extrema direita.

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