Manuela: “A unidade não vai ser produzida por discurso, mas por gestos”


Em entrevista concedida à CartaCapital e publicada neste domingo (24), a pré-candidata à Presidência da República pelo PCdoB, Manuela D’Ávila, reafirmou que a prioridade é derrotar o atual projeto neoliberal em curso pelo governo de Michel Temer e as forças aliadas e diz não abrir mão de vitória do campo progressista.

 

 

 

A entrevista destaca a trajetória política de Manuela que iniciou sua trajetória política no movimento estudantil, em 1999, quando se filiou a União da Juventude Socialista. Foi a mais jovem vereadora de Porto Alegre, sua cidade natal, e também a mais votada. Em seguida se elegeu deputada federal e atualmente exerce o mandato de deputada estadual.

Sobre o processo eleitoral, Manuela afirma que “não é um episódio factual das nossas trajetórias individuais”, mas um momento decisivo para o país. “Se alguém está tratando assim não percebe a gravidade que é o atual governo brasileiro”, argumentou.

Confira a entrevista:

CartaCapital: O PCdoB apoiou outros candidatos a presidente nas últimas décadas. O que levou o partido a lançar uma candidatura própria neste ano?

Manuela D’Ávila: O golpe abriu um novo ciclo, e o processo eleitoral é importantíssimo para o País debater saídas para a crise política e econômica. Diante desse quadro novo achamos por bem apresentar nossas próprias ideias para o enfrentamento da crise.

CC: As mulheres argentinas conseguiram pressionar os deputados argentinos a aprovar um projeto que descriminaliza o aborto. O mesmo é possível no Brasil?

MD: As argentinas nos deram muitas lições com esse movimento. A principal delas é que a pressão nas ruas é fundamental para se discutir questões importantes dentro dos parlamentos.

CC: A senhora acredita que o campo progressista ainda por se unir em torno de um mesmo candidato ainda no primeiro turno?

MD: Essa eleição não é um episódio factual das nossas trajetórias individuais. Se alguém está tratando assim não percebe a gravidade que é o atual governo brasileiro. E se eu sou o obstáculo para que os outros três se entendam, eu deixo de ser. A unidade não vai ser produzida por discurso. São gestos. Esse é o gesto máximo que eu posso fazer.

CC: Há risco de não termos um candidato de esquerda no segundo turno com essa fragmentação do campo progressista?

MD: Eu acho que o outro lado também enfrenta muitas dificuldades. O governo Temer está morto, é um fantasma que quer reencarnar e tem um monte de corpos à disposição. Vamos trabalhar para estar no segundo turno.

CC: A senhora já chegou a registrar 3% em pesquisas eleitorais. Como tem analisado os levantamentos recentes?

MD: Qualquer uma dessas pesquisas mostra que nosso campo tem muita força. Os tucanos e os corpos mais aptos à ressurreição do fantasma de Temer estão muito mal.

CC: A senhora se inspira na gestão do governador maranhense Flávio Dino, do PCdoB, em sua campanha presidencial?

MD: O Flávio é a melhor referência que existe no Brasil hoje. É um governador que enfrenta a crise com medidas anticíclicas.

CC: Qual a sua análise sobre a greve dos caminhoneiros?

MD: O movimento foi de alta complexidade. A ausência de legitimidade faz com que o povo flerte com soluções autoritárias, porque nota que ali está faltando alguma coisa. Se não há quem comande, então posso flertar com o ultra-comando, com uma intervenção militar?

CC: Como a senhora acha que a esquerda precisa lidar com esses movimentos difusos? A esquerda está muito distante dessas bases de trabalhadores?

MD: Para mim, é difícil falar, porque minha origem não é o movimento sindical. Eu sou de uma geração nativa, nasci em 1981, para a mim a tecnologia já faz parte da constituição mais mental. Mas precisamos fazer uma reflexão sobre a legitimidade das angústias das brasileiras e brasileiros.

CC: Como é possível governar em um horizonte de orçamento apertado e limitado pelo congelamento dos gastos públicos?

MD: O debate é sobre como vamos garantir a retomada da economia pensando em como recuperar a capacidade de investimento do Estado

CC: E já que estamos na Copa do Mundo… dá para torcer pela seleção nesse clima negativo?

MD: Tem que torcer, não acho que seja “dá para torcer”. Os caras já nos roubaram tudo. O futebol é nosso, não é dessa elite não.

Com informações da Carta Capital

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