Ricardo Cappelli: Os dilemas da esquerda


O que explica, diante de uma clara ameaça fascista, a esquerda brasileira continuar dividida?

Visões distintas sempre existiram. A dualidade entre o social e o nacional na construção de um novo ciclo de desenvolvimento para o país está presente, mas é pouco para explicar a divisão.

Lula e Dilma governaram durante 13 anos com o apoio da esquerda. Se o ex-presidente tivesse sua candidatura confirmada, provavelmente estariam todos unidos em torno dele.

Como maior força do campo, o PT deveria abrir mão de liderar a frente agora?

O partido dos trabalhadores tem sido coerente com sua estratégia. Levar Lula ao limite numa guerra de guerrilha, mantendo o lulismo aglutinado até o último minuto.

Na compreensão do partido, indicar um eventual substituto seria um erro. Estão convictos que um plano B agora poderia levar à dispersão dos lulistas.

O risco desta tática é a possibilidade de isolamento. Não será fácil outro partido assinar um cheque em branco para Lula, mesmo sendo ele quem é.

Se o PT indicasse Wagner como “vice-substituto”, por exemplo, as chances de aglutinação seriam bem maiores. O ex-governador da Bahia é um político hábil. Governa seu estado com uma frente ampla vitoriosa há 12 anos.

A indicação do baiano esvaziaria Lula reduzindo o capital político do PT? O eventual apoio de vários partidos não seria um antídoto? O argumento de que a Lava Jato, cada vez mais desmoralizada, caçaria o plano B pode ser considerado, mas é pouco para justificar o conjunto da estratégia.

Algumas perguntas completam os dilemas.

A vitória nas eleições é uma questão central? Perder as eleições demarcando é uma hipótese aceitável, num processo de acumulação de forças que pavimente a volta mais a frente, numa espécie de “colégio eleitoral 2018”? A crise institucional será resolvida a partir de janeiro de 2019?

O PDT tenta viabilizar uma aliança em torno de seu candidato aglutinando parte da esquerda, setores do centro e até o DEM. Será uma tarefa complexa colocar de pé esta frente ampla heterogênea e conseguir conferir-lhe discurso e identidade. A personalidade forte do candidato pode ajudar.

Pesquisas indicam que um nome apoiado por Lula pode largar na frente de Ciro. Há espaço para uma alternativa progressista que dispute com o PT e com a direita ao mesmo tempo? É correto, neste momento, abrir uma disputa pela hegemonia na esquerda? Qual o melhor nome para derrotar a direita no segundo turno? Quem pode ampliar mais?

Lula desconfia que Ciro queira aposentá-lo. O ex-governador do Ceará jamais acreditou na possibilidade de apoio do PT. As desconfianças são mútuas.

O pedetista evita se aproximar do petista. Raciocina que não terá os votos do PT e que esta aproximação pode inviabilizar o diálogo com outros eleitores que sonha conquistar.

Com a união cada vez mais improvável, PCdoB e PSB vivem dilemas e contradições.

Na raiz do problema uma compreensão limitada sobre o processo de construção da hegemonia na sociedade.

Alternância vira derrota. A correlação de forças é substituída por vontades. Cabeças de chapas viram aríetes contra a unidade. Num paradoxo curioso, força pode virar isolamento. Como pano de fundo, a disputa por um futuro que pode não existir.

O time pode ganhar o jogo com os jogadores brigados utilizando táticas arriscadas? Sempre é possível. Em tempos de Copa, torcer e sonhar não custa nada.

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